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Quintais do Namibe viraram oficinas

Baptista Marta e João Upale |

Por falta de recursos financeiros para a abertura de mais oficinas de manutenção de automóveis com a qualidade exigida, alguns quintais e outros espaços improvisados, espalhados um pouco por toda a cidade do Namibe e arredores, foram transformados em empresas de reparação de viaturas para responder às necessidades do parque automóvel da província, que continua a crescer.

Existem na cidade do Namibe dezenas de oficinas de quintal e de rua onde os mecânicos efectuam as reparações
Fotografia: Afonso Costa

 
Por falta de recursos financeiros para a abertura de mais oficinas de manutenção de automóveis com a qualidade exigida, alguns quintais e outros espaços improvisados, espalhados um pouco por toda a cidade do Namibe e arredores, foram transformados em empresas de reparação de viaturas para responder às necessidades do parque automóvel da província, que continua a crescer.
Existem na cidade do Namibe dezenas de oficinas de quintal e de rua onde os mecânicos efectuam as reparações. Quem se desloca aos Serviços Comunitários encontra nas instalações da antiga Empresa de Transportes Públicos (ETP), um enorme parque onde estão estacionados dezenas de autocarros, alguns importados recentemente pelo Governo Provincial e que já estão avariados e ou danificadas. Funciona naquele local a oficina BETACAP Service, criada há quatro anos, quando deixou de pertencer ao Estado. 
Nesta oficina privada faz-se a manutenção das viaturas do Estado e dos transportes públicos.
Belchior Cavalo, mestre e responsável da oficina, disse à nossa reportagem que “actualmente debatemo-nos com inúmeros problemas, como a falta de peças sobressalentes e de mão-de-obra especializada, pelo que há viaturas que ficam aqui durante muito tempo por falta de acessórios”.
Mestre Belchior Cavalo disse que uma das dificuldades com que se debatem os mecânicos é encontrar peças para viaturas de marcas que são raras no mercado nacional. Não há concessionários para essas marcas e por isso “estamos a registar muitas avarias do género, há carros novos que fomos buscar em Luanda e não chegaram ao Namibe, pararam pelo caminho, apresentando problemas na bomba injectora”, desabafou.
Entre as várias marcas de viaturas que circulam no país, mestre Cavalo indicou que as viaturas de marca Scania têm longo tempo de vida útil, podendo durar 30 anos ou mais, dependendo da assistência que for sendo prestada. Com as viaturas de importação recente há muitos problemas: “é esta peça que está a fazer barulho, é a roda de trás que está torta e toca no guarda-lamas, enfim um monte de deficiências que uma viatura saída de fábrica não devia ter“, acrescentou.
A oficina BETACAP Service tem 18 mecânicos. “Nós temos vontade de avançar! O que nos falta realmente são peças sobressalentes”, disse mestre Cavalo, lamentando a forma como na região se estragam os carros. “Condutores sem juízo batem tanto com os carros deles e do Estado e isto traz-nos dores de cabeça. Não podemos continuar neste ritmo de destruição de carros. Embora seja uma forma de dar emprego aos bate-chapas, não podemos continuar a destruir assim o nosso património automóvel. É preciso parar com isso”, disse inconformado.
Mestre Cavalo admitiu que com a alucinante onda de destruição de viaturas “não é possível responder a todos os clientes que procuram a oficina”. É humanamente impossível dar resposta aos clientes em curto espaço de tempo. “Por causa da demora, as pessoas começam, sem razão, a fazer barulho”, diz um mecânico da oficina, que sobre a falta de pessoal especializado adianta que “existem bons electricistas e mecânicos mas não têm condições de trabalho, nem espaço para montarem as suas oficinas, daí não poderem trabalhar para obter o seu sustento”.

Destruição de viaturas

A nossa reportagem viu no local e no parque adjacente à oficina três dezenas de viaturas totalmente danificadas. A falta de acessórios é apontada como a razão da existência daquele cemitério de ferro.  
O armazém de peças da oficina está praticamente vazio. “As peças que aqui temos até podem ser contadas a olho. Qualquer dia vamos parar. Só com o recurso à vizinha província da Huíla ou ao estrangeiro é que conseguimos algumas peças”, assegurou-nos o responsável da oficina.
João da Costa Mangunde é o único electricista de automóveis auto que trabalha na empresa. Está esperançado que vai ser possível criar equipas técnicas para socorrer as viaturas avariadas nas estradas do interior da província do Namibe.
Além da BETACAP Service, existem na província do Namibe outras oficinas, mas todas têm grandes problemas por falta de peças e de pessoal especializado.
Dezenas de viaturas avariadas aguardam o dia em que cheguem os acessórios necessários à sua reparação. As empresas SICAP e JOFER, as mais cotadas na região, ainda conseguem importar algum material para reparar as viaturas.
 
Oficina Auto-Progresso
 
José Armando é o proprietário da oficina Auto-Progresso, que funciona há mais de 20 anos. Tem secções de mecânica, pintura, bate-chapa, electricidade e serralharia. A empresa está a funcionar nas instalações das antigas câmaras frigoríficas do Namibe. “Actualmente as dificuldades com que nos debatemos nesta empresa são as condições de trabalho. Devido à exiguidade das instalações foi necessário restringir a recepção de carros para que os operários possam reparar os veículos no mínimo prazo possível”, disse José Armando.
Na oficina Auto Progresso, entram viaturas de empresas estatais, privadas e de particulares. Ali recebem toda a assistência necessária, desde a mecânica à pintura e bate-chapa.
A falta de instalações adequadas apenas permite a reparação de três viaturas por semana, sobretudo quando precisam de pintura e bate-chapa. A oficina tem um número razoável de operários e muitos trabalham na rua da Direcção Provincial de Investigação Criminal. O espaço é “curto” para tantas viaturas avariadas e tantos mecânicos.
Outro problema de José Armando são “os devedores que não honram os seus compromissos desde o ano passado e isso condiciona o pagamento de salários dos operários”.

Crédito está caro
 
A falta de oficinas no Namibe deve-se às dificuldades em financiamentos, pois o acesso ao crédito é assunto que preocupa todos os proprietários das oficinas. “Recorri a um banco comercial para pedir um empréstimo, com vista a erguer os muros da minha oficina no bairro dos Eucaliptos. Pediram-me um fiador, e eu arranjei, mas infelizmente ate hoje nem água vai nem água vem. Contudo, num esforço próprio e para não ficar de braços cruzados estou a levantar o muro da minha oficina pouco a pouco”, disse um jovem mecânico que trabalha no quintal.
“Nós projectámos a construção de uma oficina de raiz devidamente equipada com tecnologia de ponta no Bairro dos Eucaliptos, o que nos dá a certeza de que teremos boas condições de trabalho, mas tudo isso só pode ser materializado se houver alguma disponibilidade financeira”, diz o mecânico Tony João.
O Governo devia financiar as micro-empresas em vez de serem os bancos comerciais como acontece e o pagamento devia ser a longo prazo, mas com juros baixos para o êxito da nossa actividade profissional, diz o mecânico.
“Actualmente uma estufa custa 25 mil dólares que nós não temos porque a empresa não tem esta capacidade, e os bancos comerciais além de levantarem dificuldades ainda cobram juros astronómicos”, referiu Tony João.
No Namibe faltam máquinas para soldadura, aquecedores, rebarbadoras, e a ausência constante dos operários, na sua maioria jovens estudantes, sobretudo em épocas de provas escolares, é o maior problema com que se debatem as oficinas. Face às dificuldades, o mecânico diz que “se não fosse o amor a isto já tinha virado as costas a esta arte”.

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