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Sapateiros remendeiros ou arte de sobreviver

Baptista Marta e João Upale | Namibe

Não é fácil encontrá-los nos imensos bairros da cidade do Namibe. Trabalham e vivem em pequenas oficinas, quase sempre mal iluminadas.

Mestre Agostinho Banga é um dos mais antigos sapateiros da província
Fotografia: Francisco Bernardo

Não é fácil encontrá-los nos imensos bairros da cidade do Namibe. Trabalham e vivem em pequenas oficinas, quase sempre mal iluminadas. Quando se entra, sente-se o cheiro forte de couros e resinas.Sentados, geralmente em mochos, colocando pequenos pregos, com pancadinhas certas e secas, o trabalho deles é apenas interrompido pelos clientes ou para dois dedos de conversa.
No Namibe há sapateiros que trabalham por amor à profissão, elevando-a ao nível de arte, transformando-a em elemento de cultura. Não são poucas, por isso, as canções e estórias populares que aludem a actividade dos sapateiros remendeiros.
A profissão conjuga, normalmente, dois aspectos não muito distantes um do outro. Como actividade artesanal, obedece a uma ética. Tal como o médico tem a obrigação de salvar e conservar vidas, o sapateiro remendeiro salva e conserta sapatos, muitas vezes em péssimo estado, por serem os únicos do cliente.
Em relação ao aspecto artístico, não é apenas um problema de meias solas. Aqui, é toda a arte que está em jogo. Distingue-se o bom do mau artista pela restauração do sapato.
A hora do cliente levantar a obra é decisiva. O maior estímulo é o contentamento do freguês pela obra perfeita, na consagração íntima, secreta, do mestre da arte de remendar. ½Para mim não interessa de quem é o sapato. Se ele trouxe aqui é porque estão estragados. Analiso o estado que ele está e conserto. Se o cliente não fica satisfeito é porque ainda não sou bom artista”, disse, ao Jornal de Angola, Salvador Muhongo.
 
As dificuldades

A vida dos sapateiros na província do Namibe não é um mar de rosas. Está cheia de dificuldades, que fazem com que, a cada dia que passa, se tornem mais escassos.
Na rua Ndumduma, no bairro do Plato, ou simplesmente Valódia, e em outras zonas suburbanas era fácil localizá-los, o que já não acontece, tal como a transmissão de conhecimentos através de gerações.
Antigamente, o filho de sapateiro era sapateiro e o neto ia conhecendo os segredos do ofício na oficina do avô. Os sapateiros admitiam jovens, que, depois de aprenderem a profissão, montavam oficinas. Era notório o gosto pela profissão. Com a liberalização do mercado, tudo se transformou. Apareceram grandes superfícies comerciais ou lojas mistas, que vendem sapatos importados de todas as espécies e marcas do mundo e os sapateiros remendeiros foram perdendo clientela.
Impossibilitados de lutarem com a concorrência, os sapateiros remendeiros do Namibe entraram em crise. Lutam pela sobrevivência. Ou entregam-se, como assalariados, a uma dessas casas comerciais disseminadas um pouco por toda a cidade e arredores, ou fogem da zona de concorrência.
A moda, própria da sociedade de consumo, também dificulta a actividade do remendeiro. Os sapatos de tacão alto, de usar, gastar e deitar fora, são trazidos em balões de fardo ou mesmo originais para a província. Alguns não se adaptam nem aos hábitos, nem à vida da esmagadora maioria da população, que não calçava outros sapatos que não fossem os populares ½João Domingos”, da Macambira.
“Em dada altura tive que me empregar. Fui assalariado num estabelecimento comercial misto da cidade, para sustentar a família”, afirmou Maio Capelo, sapateiro há 39 anos. “Não podia concorrer com quem faz importações directas. Muitos dos meus colegas empregaram-se, como eu, outros tentaram continuar, mas com grandes dificuldades. A maioria abandonou a profissão, pois não há protecção para os sapateiros remendeiros½.
 
Há  falta de material

“O conserto agora é todo à base de colagens. Hoje, as solas e tacões são uma só peça. É só colar. Tudo fabricado em série”, declarou Pedro Mulundo, que se dedica, no bairro Forte Santa Rita, ao fabrico e conserto de sapatos, numa improvisada sapataria.
Os remendos são para os momentos em que não tem mesmo material nenhum para trabalhar.
“A arte é hoje muito dura, as viras do sapato são feitas à mão, noutro tempo era à máquina. Nas actuais condições, dada a minha idade, posso consertar três pares por dia. A grande dificuldade é a falta de material”.

Sapateiros ambulantes

Na maior praça pública da província, o Mercado “5 de Abril”, o repórter conversou com algumas pessoas que exercem, ao relento, a arte de consertar sapatos.
 Zeferino Chilembe, 69 anos, líder de um grupo de dez “sapateiros ambulantes”, está encharcado de suor. O calor escaldante do deserto do Kalahary tinha transformado “a oficina” num braseiro.
As preocupações de Chilembe são mais a necessidade do apoio material que nunca teve e a concretização da ideia da criação da associação provincial de sapateiros do Namibe. Aprendeu o ofício em 1968, na província do Huambo. Mais tarde, foi para o Uíge, onde trabalhou nas roças de café. Na “oficina” de Zeferino Chilembe, encontramos Silva Catumbo, 33 anos, deficiente físico, que há cinco remenda sapatos. “Foi difícil adaptar-me a esta profissão, ainda mais por ser deficiente. Arranjei este trabalho aqui logo que terminei a vida militar porque tenho de ganhar a vida”. Sousa José, um mais velho huilano, que quase já perdeu as contas ao tempo em que está no Namibe, disse que, apesar das dificuldades em adquirir matéria-prima, a clientela não deixa de procurar os seus serviços.
De todos os contactos tidos com os sapateiros remendeiros muitas coisas nos chamaram a atenção, tal como a falta de material, as más condições em que trabalham e a recusa dos jovens em abraçarem a profissão.

Fábrica de sapatos

No coração do antigo bairro Valódia, conhecido por Plató, na casa com o número CN 17 NV, na rua 16, está a sapataria “Linda”, propriedade do mais velho Agostinho Banga, 54 anos, exímio profissional no conserto de sapatos. Encontrámo-lo a passar cola na sola e a acabar umas sandálias que acabava de fabricar. “Foi com paciência, amor e carinho que fiz esta obra. Estão interessados? É só pagar 1.500 kwanzas e dentro de uma semana podem ter algo igual”.
O mestre Agostinho Banga cobra mil a 1.500 kwanzas pelo conserto de sapatos, 500 pelo tacão e 150 a 200 pela colagem.
Banga relata que no mesmo ano que chegou ao Namibe, em 1976, começou a aprender o ofício, no município do Tômbwa, numa fábrica de sapatos de um português. Trabalhou com ele durante quatro anos. “A sapataria já começou em 76, há muito tempo, o que falta é o material”, disse, acrescentando que antigamente eram apoiados pelo Estado. “Nós pagávamos impostos nas Finanças. Actualmente, o serviço de sapateiro já não é valorizado, mas continuamos a nos remediar”.
A falta de material, como formas e máquinas, preocupa o mestre, que ensinou muita gente, inclusivamente os filhos. “Os meus filhos também aprenderam comigo. De todos que passaram por mim, só vejo dez pessoas que continuam a trabalhar nas suas próprias sapatarias. Os demais, pelo custo da vida e porque esta profissão perdeu consideração, andam por aí à procura de outros serviços”.
Banga conta que de 1987 a 1990 lhe encomendavam sapatos, a partir de outras províncias, como Huambo, Benguela, Huíla, Bié, Moxico e Kuando-Kubango. Em 2002, começou a fabricar sandálias, que eram mais preferidas por bienos, que as compravam em grandes quantidades.  “A sapataria Linda foi muito famosa. Recebia rasgos elogios de pessoas que valorizavam o meu trabalho. A fama foi muito grande (risos), porque a pessoa deve trabalhar conforme aprendeu, apresentando a obra que dure muito tempo”.
O material, como o curtume, é adquirido em Benguela ou no Lubango. Outros artigos, cola pattex, linha, lixa, lima, agulha, são adquiridos localmente, nas lojas ou no mercado paralelo. A única máquina eléctrica de lixar que o possui foi comprada no Lubango, em 2006.
Em termos de acessórios ele precisa de solas, cabedal, carneira (para confecção de sandálias) e máquinas para costura e de lixar. Banga disse, ao Jornal de Angola, que as sapatarias são poucas na província e que “devido à importação de calçado, o sapateiro perdeu categoria”. “Queremos que nos apoiem para continuarmos a ensinar os rapazes, para amanhã construirmos fábricas”, afirmou.
Pedro Nicolau, um dos filhos de Agostinho Banga, tem 24 anos e aos 8 começou a consertar sapatos, com a ajuda do mestre.
Noutra sapataria, no centro da cidade, na rua Ndunduma, encontrámos José Luís, 21 anos, estudante da 8ª classe, que aprendeu com a família, porque a maior parte dela exerce a profissão.  José Luís disse, ao Jornal de Angola, que foi contemplado, pelo Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP), com um kit de ferramentas, que auxiliam o seu trabalho. Também sabe fabricar sapatos, mas por falta de incentivos financeiros limita-se a consertar.  Na sapataria “tio Luís,” colocar tacão custa 400 kwanzas para os homens e 200 a em para senhoras.
O fraco rendimento destas micro empresas faz com que estes sapateiros não sejam registados como industriais, mas como quem exerce actividade de carácter precário, disseram, ao Jornal de Angola, fontes da direcção provincial da Indústria e do Comércio.  
As mesmas fontes afirmaram que na província do Namibe já não existem muitos sapateiros, nem carpinteiros e marceneiros porque na maioria foi para a função pública, onde há subsídios e melhores vencimentos.  As grandes dificuldades enfrentadas pelos sapateiros, referiram, não podem ser superadas sem organização. Só com um órgão representativo podem, além de servirem melhor as populações, lutar contra os oportunistas e defender os interesses da classe.

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