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Taxa elevada de abandono

Manuel de Sousa|

A escassez de salas de aula coloca muitas crianças fora do sistema de ensino e constitui uma das principais
Fotografia: JA

A administradora do município do Virei, província do Namibe, Amélia de Jesus Camunheira, considerou, em entrevista ao Jornal de Angola, que o abastecimento de água, a falta de agências bancárias e o mau estado das vias são as grandes preocupações das autoridades locais e da população. A escassez de salas de aulas, leva a que muitas crianças estejam fora do sistema de ensino. Mas também existe uma taxa elevada de abandono escolar porque os pais obrigam os filhos a tratar do gado.

Jornal de Angola – O que falta hoje no Virei?

Amélia de Jesus Camunheira –
O Virei de hoje está muito longe do de ontem. Como podem reparar, nos últimos anos trabalhámos muito naquilo que é o desenvolvimento sócio-económico do município, com o aumento das infra-estruturas e dos serviços básicos às populações. Isso faz com que o município tenha um desenvolvimento positivo.

JA – Ainda está de pé o projecto de abrir um internato escolar para os filhos dos pastores?

AJC –
Vamos abrir o internato para manter as crianças na escola. A nossa população é, maioritariamente, de pastores nómadas. É natural que os pais contem com os filhos para levar o gado ao pasto. Por isso, as crianças são obrigadas a abandonar a escola. O internato é um projecto que vai resolver muitos problemas. A sua efectivação está apenas dependente de questões financeiras. Se forem solucionadas, rapidamente temos o internato a funcionar e fica resolvido o problema dos alunos fora do sistema de ensino.

JA – Para quando a distribuição de terrenos para a auto-construção dirigida?

AJC –
No princípio do ano fizemos a desmatação de uma boa quantidade de terrenos reservados pela administração municipal para a construção de casas. Depois do loteamento vamos fazer a distribuição dos talhões pelos nossos munícipes. A procura é grande, mas temos que seguir todos os pressupostos legais. Só depois a administração vai satisfazer os pedidos.

JA – Qual é o estado de saúde do município?

AJC –
Temos boa saúde. O Hospital Municipal tem 60 camas para internamentos. Temos também centros de saúde nas zonas periféricas. Do pouco que recebemos, no âmbito do Fundo de Gestão Municipal de 2009, conseguimos construir três postos de saúde nas zonas periféricas da comuna do Cainde, que são áreas longínquas da sede municipal. As populações têm toda a assistência médica e medicamentosa, com a  ajuda dos nossos parceiros. Algumas localidades têm consultas ambulatórias. 

JA - A agricultura está em desenvolvimento? 

AJC –
A actividade agrícola é feita, basicamente, na comuna de Cainde. No Virei a a produção agrícola é nula. Existem pessoas interessadas que constituíram uma associação de camponeses, para darmos força à actividade agrícola. Essas pessoas  têm muita vontade de trabalhar a terra, mas o grande problema é mesmo a falta de meios de trabalho e a seca. Sabem que o Virei é uma zona desértica, temos o problema da falta de água. A comuna do Cainde é a única do município em que a actividade principal é a agricultura. Mas é uma agricultura de subsistência. Temos apenas uma fazenda, na localidade do Tchacuto, que pertence à Casa Militar. 

JA -  Há uma degradação acentuada das pinturas rupestres do Tchitundu Hulu. O que está a ser feito, para preservá-las?

AJC –
A Direcção Provincial da Cultura está a desenvolver trabalhos com a administração local, para a identificação dos  problemas. Recebemos visitas de entidades governamentais. Sabemos que está a ser feito um estudo, a nível nacional. Em tempo oportuno vamos dar uma atenção especial e positiva às figuras rupestres do Tchitundu Hulu.

JA – Quais são as questões que mais afligem a população do município do Virei?

AJC -
Neste momento, a grande preocupação é falta de água. Temos problemas no lençol freático, que é muito baixo. O terreno, em si, não facilita, porque tem muitas rochas. Temos duas captações que funcionam com bombas submersíveis, mas ainda assim temos tido grandes dificuldades, porque não conseguimos satisfazer as necessidades das nossas populações. O tratamento da água é outra preocupação, já que ela não é de muito boa qualidade para o consumo. O outro problema tem a ver com o estado das vias, principalmente a que liga o município à cidade do Namibe.

JA – Como foi recebido o projecto “Minha planta minha xará”, lançado pela governadora da província?
 
AJC –
Na mesma data em que foi lançado, na sede da província, mandamos vir plantas que plantamos no município do Virei. Estamos agora a cuidar da rega e continuamos a fazer as plantações.

JA – Quando chegam os bancos ao Virei?

AJC -
Todos os contactos estão feitos. Estava prevista, no princípio do ano, a construção de um banco. Não sabemos por que razão o projecto não arrancou. Mas é uma questão que já está a ser vista pelo Governo Provincial, que prometeu tudo fazer para que abra um banco o Virei. A falta de uma agência bancária dificulta, e de que maneira, o funcionamento das instituições do Estado no município.

JA - A violência contra a criança está a ser combatida no Virei?

AJC -
Por uma questão de cultura, o município do Virei não regista muitos casos de violência contra a criança. A maior violência é os pais mandarem os filhos a apascentar o gado, quando deviam ir à escola. É um acto cultural que temos de respeitar. Agora, comparativamente às outras localidades do país, em que as crianças têm sido acusadas de feitiçaria ou são alvo de abusos sexuais, nós, felizmente, não temos vivido tais casos.

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