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Turistas tiram pedaços de pinturas rupestres

Manuel de Sousa | Virei

“Quem está a estragar as figuras rupestres do Tchitundu Hulu são os turistas que, para além de verem ainda retiram pedaços”, acusou o soba grande do Virei.

O primeiro passo para elevar as figuras rupestres a Património da Humanidade tem de ser nacional e cabe ao Ministério da Cultura
Fotografia: Afonso Costa

“Quem está a estragar as figuras rupestres do Tchitundu Hulu são os turistas que, para além de verem ainda retiram pedaços”, acusou o soba grande do Virei. Mas também reconheceu que a acção do tempo e o vandalismo de pessoas na região são responsáveis pela degradação de uma das mais importantes estações arqueológicas do mundo.
Inácio Masseca, de 84 anos, conta que as pinturas rupestres foram descobertas por portugueses que seguiram os caminhos dos pastores para darem de beber ao gado numa nascente que até hoje existe e é co nhecida  como Tuandele Tueia, que na língua cuvale significa “vamos e voltamos”. Os portugueses passaram a chamar Virei ao local e assim se mantém.
Quanto às figuras rupestres, o soba Masseca conta que foram os seus antepassados que as fizeram há muitos milhares de anos: “As figuras rupestres do Tchitundu Hulu têm grande significado histórico e é bom que os visitantes venham conhecê-las mas sem estragar. Pedimos ao Governo Provincial para proteger a área, cercando-a e que coloque lá guardas, para se evitar a degradação total desta parte tão importante da nossa riqueza cultural”, disse o soba grande do Virei.
O ancião conta que antigamente não havia casas na localidade, o único pólo de atracção era a nascente de água onde os criadores de gado davam de beber aos animais. “O Virei sempre foi terra de pastores, agora as coisas mudaram muito, já temos muita coisa que não tínhamos antigamente, o governo construiu casas, hospitais e outras condições para as populações”, referiu.
Apesar do mau estado das estradas, o soba Masseca disse que, mesmo assim, “temos recebido muitas visitas que vêm mais com o interesse de ver as figuras rupestres do Tchitundu Hulu”.
Questionado sobre a razão dos criadores mandarem os filhos para o pasto em vez de irem à escola, o soba Masseca disse que “o governo é que tem de criar as condições para que os filhos dos criadores de gado possam estudar”. Sugeriu a criação de internatos para os pastores deixarem os filhos enquanto andam à procura da água e dos pastos.
O primeiro passo foi dado pelo Governo Provincial, com a criação de uma escola-internato na sede municipal do Virei: “estamos muito contentes com a abertura do internato no município. Assim, os nossos filhos vão aprender a ler e a escrever e também tomar conhecimento sobre as figuras rupestres do Tchitundu Hulu e, na qualidade de filhos da  terra, vão ter a responsabilidade de as cuidar para que ninguém mais venha sabotar”, disse.
Quanto ao roubo de gado, o soba disse que isso acontece mais porque são as crianças que apascentam os animais: “Se os adultos levarem o gado para o pasto, os gatunos não se aproximam, mas quando são crianças eles aproveitam a sua fragilidade para fazerem das suas”, lamentou.
 
Vedação para começar

O director provincial da Cultura, Martinho Jamba, disse à equipa de reportagem do Jornal de Angola que para evitar a degradação das figuras rupestres do Tchitundu Hulu é preciso um projecto que envolva o Governo Provincial e o Executivo, dada a importância daquele património cultural.
“Devemos trabalhar todos juntos”, disse, acrescentando que “as figuras estão ao ar livre, expostas a temperaturas altas, às chuvas e ventania, intempéries que fazem com que as gravuras se apaguem, juntando-se também a isso a acção negativa do homem, que vandalisa este importante património arrancando pedaços”.
Martinho Jamba considerou preocupante o estado de degradação das figuras rupestres do Tchitundu Hulu e pediu ao Ministério da Cultura para criar condições para a sua protecção, “porque são figuras que existem há mais de 2000 anos antes de Cristo”.
A criação de mecanismos para proteger as figuras é uma prioridade. A vedação do local e a colocação de guardas e guias turísticos na estação arqueológica são soluções apontadas pelo director da Cultura do Namibe.
“Chegam muitos turistas a esta zona e a tendência é sempre levarem um exemplar. Se no local estiverem guardas e guias turísticos,  dificilmente os visitantes vão vandalizar as figuras”, afiançou.
 Martinho Jamba pediu a todos para conservarem e protegerem aquele importante património, que ultrapassa as fronteiras nacionais e diz já respeito à História Universal:
“todos devemos saber que este património cultural está na nossa província e dentro do nosso país e deve ser protegido”, declarou.

Estudos antigos

A estação arqueológica do Tchitundu Hulu foi profundamente estudada pelo Professor Santos Junior e pelo seu assistente, o angolano Carlos Ervedosa. Ambos publicaram trabalhos científicos sobre aquele património cultural.
Carlos Ervedosa inclui esses estudos na sua obra de referência dedicada à arqueologia angolana que inclui, entre outros estudos fundamentais, as investigações na estação arqueológica da Serra da Leba, uma das mais importantes do mundo.
Para a administradora municipal do Virei,  Amélia de Jesus Alberto Camunheira, a degradação das figuras rupestres do Tchitundu Hulu é uma questão que devia não só preocupar o Estado angolano, mas também as instituições internacionais ligadas à preservação da história comum da Humanidade.
“Embora a Direcção Provincial da Cultura esteja a desenvolver trabalhos com a administração local para ver se a estação arqueológica é considerada Património da Humanidade, a verdade é que instituições como a UNESCO deviam também dar uma ajuda para que tenhamos esse importante marco da História Universal conservado”.
A administradora disse ainda que “recebemos visitas de membros do Executivo que estão a fazer um estudo sobre o nosso património cultural a nível nacional, por isso pensamos que a tempo oportuno uma atenção especial vai ser dada às figuras rupestres do Tchitundu Hulu”, disse.

Valorização da cultura

A vice-governadora do Namibe, Maria dos Anjos Mahove, pediu uma maior preservação dos sítios históricos locais e das figuras rupestres do Tchitundu Hulu, por reunirem requisitos para serem elevadas à categoria de Património da Humanidade.
Preservando este rico património, acrescentou, “a província salvaguarda as suas particularidades no domínio cultural, mas também mostra ao mundo a riqueza das estacões rupestres do país”.
Maria dos Anjos Mahove acrescentou que é preciso haver maior protecção do Executivo por este espaço e mais difusão dentro e fora de portas para a sua riqueza cultural, de maneira a despertar interesse público pelo sítio e chamar a atenção da UNESCO sobre o seu valor.

Descrição das figuras

As figuras rupestres do Tchitundu Hulu constituem a mais importante estação arqueológica do sudoeste de Angola e está situada na faixa semi-árida do deserto do Namibe.
A estacão é formada por quatro morros graníticos, sendo o de maior dimensão o Tchitundu Hulu Mulume (homem) com gravuras e pinturas e outras três mais pequenas, a Mucai (mulher), apenas com pinturas.
A Pedra da Lagoa e a Pedra das Zebras têm ambas pinturas. As figuras desta estação no seu conjunto representam na sua maioria circunferências, mas há também representações animaliticas e vegetais e são em cor branca, vermelha e negra, sendo pinturas do tipo esquemático simbólico. Desde que foram publicados os estudos do Professor Santos Junior e de Carlos Ervedosa que o mundo conhece o seu inestimável valor cultural. Mas a verdade é que para a UNESCO declarar as figuras rupestres do Tchitundu Hulu como Património da Humanidade, o Estado angolano tem de preservá-las e criar condições para a sua preservação. O primeiro passo tem de ser nacional e cabe ao Ministério da Cultura.

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