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Uso de preservativo divide namibenses

João Upale | Namibe


O uso de preservativo nas relações sexuais é mal aceite por homens da cidade do Namibe, sobretudo jovens. Muitos mostram desconhecimento sobre as fontes de transmissão e formas de prevenção do vírus da Sida.

Director provincial da Saúde em exercício
Fotografia: Afonso Costa| Namibe

O uso de preservativo nas relações sexuais ocasionais é mal aceite por muitos homens da cidade do Namibe, sobretudo jovens, sob as mais absurdas alegações.
Uma ronda efectuada pela nosso jornal a algumas áreas da cidade permitiu verificar que muitos jovens demonstraram não só desconhecimento sobre fontes de transmissão e formas de prevenção do vírus do HIV, que provoca a Sida, como ainda argumentaram que o uso de preservativo não é solução.
Outros, mais ignorantes, disseram mesmo que “a Sida não existe”, que é uma invenção do Ocidente para travar a procriação em África e impedir que os africanos venham a ocupar os seus imensos e ricos territórios, que, despovoados, eram facilmente esbulhados por estrangeiros.
Na comuna do Forte Santa Rita, periferia da cidade, Maria Madalena Chingalule, 28 anos, não pensa da mesma forma e afirmou, ao Jornal de Angola, ser um absurdo dizer que a Sida não existe e que a utilização da “camisinha” atrapalha o acto sexual.
 Ela defende que devem ser realizadas mais acções de sensibilização junto dos jovens, porque, lembrou, o uso de preservativo “tem muitas vantagens, serve para prevenir doenças venéreas e evitar a gravidez precoce”.
O uso da ‘camisinha’, referiu, não prejudica a saúde do utilizador, antes pelo contrário, protege-o de doenças contagiosas.
“Eu, pelo menos, faço uso do preservativo e nunca me queixei de nada”, afiançou.

Fidelidade

Carlos Cardoso, 35 anos, morador no bairro Valódia, o Plató, disse estar à-vontade quanto ao assunto porque é “fiel à mulher e vice-versa”.
Além do uso de preservativo, recordou, a fidelidade é fundamental numa relação conjugal.
“Quantas vezes não ouvimos dizer que senhoras bem comportadas são portadoras da doença porque os maridos têm relações com uma ou mais mulheres?”, questionou, reiterando a fidelidade entre casais como factor impeditivo da transmissão do vírus do HIV. “Se formos fiéis nas nossas relações conjugais não apanhamos Sida, só mesmo uma fatalidade nos pode transmitir o vírus”, disse.
Mas, há quem pense que a venda de preservativos em farmácias e em lojas conhecidas por “janelas abertas“ “é um negócio que faz prosperar quem os vende e vulgariza a prática sexual”.
Para estas pessoas, mais do que campanhas de distribuição gratuita de preservativos, que, frisam, contribuem para a proliferação de práticas de sexo em quase todas as idades e com as consequências negativas que se conhecem no campo da moral e dos bons costumes, o país devia apostar em acções que incutissem nas pessoas a ideia do sexo responsável, aconselhando a que só se tenha relações sexuais no casamento.
Marisa da Conceição, 25 anos afirmou, ao Jornal de Angola, que o uso da “camisinha” ou do “femidon” pode ter também riscos para  a saúde da mulher.
“Durante o coito, a ‘camisinha’ pode rebentar e a mulher corre o risco de contrair doenças não menos graves”, disse, reconhecendo que são casos fortuitos, mas que devem ser tidos em conta.
A fidelidade, nestes casos, declarou, é a melhor arma para os casais se prevenirem contra o vírus do HIV.
O pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) Edgar Silva disse, ao nosso jornal, que “o uso do preservativo é ainda o melhor método de prevenção contra o vírus do HIV”.
Além de evitar as doenças sexualmente transmissíveis, salientou, o uso de preservativo evita gravidezes indesejadas.
“Se não se usar a ‘caminha’ está-se sujeito a ser surpreendido por doenças imunológicas ou gravidezes que não queremos”, alertou.

Abstinência

Outros líderes religiosos que falaram ao Jornal de Angola defendem a abstinência, argumentando que “praticar sexo antes do tempo ou fora das regras normativas que reflectem o comportamento de um verdadeiro cristão mancha a santidade do corpo”.
Para eles, “o sexo fora do matrimónio é o maior pecado de todos os tempos”.
Todos referiram que “não é muito cristão que se defendam campanhas de distribuição de ‘camisinhas’ e não se aconselhe a abstinência até ao casamento”.
 “Isso torna o corpo humano, que é um verdadeiro templo de Deus, porque feito à Sua imagem e semelhança, numa taberna de prazeres mundanos”, disse um religioso.
O actual estado de seroprevalência na província do Namibe inspira alguma preocupação, disse, ao Jornal de Angola, o director provincial em exercício da Saúde, revelando que, durante o primeiro semestre deste ano, dos 3.230 testes efectuados, 127 deram positivo.
“O número é sempre preocupante porque um caso de Sida pode reproduzir-se em mais de dez“, alertou aquele responsável.
Gaspar Cardoso apelou à consciência dos homens, primeiro na sua própria protecção e depois na dos outros para, se contaminados, procurarem não transmitir o vírus.
“Todos os doentes seropositivos devem ser seguidos e aconselhados a evitarem a contaminação“, salientou.
Neste momento, revelou, 52 pacientes estão a ser monitorizados pelo programa do HIV/Sida.
Para o programa de corte vertical, que impede uma mulher seropositiva de dar à luz uma criança infectada, Gaspar Cardoso disse que 19 gestantes estão a ser acompanhadas e 17 bebés “nessa situação receberam um ‘cocktail’ de medicamentos”.
A nível da província, referiu, todos os municípios têm uma sala de aconselhamento e testagem voluntária do HIV/Sida.
   “A nossa tarefa é aconselhar, educar e informar a população sobre as vantagens da testagem, que permite saber o grau serológico”, disse, acentuando:
“A testagem é feita de forma voluntária, mas verificamos, ultimamente, uma grande adesão da população, sobretudo de jovens”.
                                             
Diminuição da malária

 Quanto à malária, sublinhou que sempre foi a primeira causa de morte no país, mas que, a nível da província, têm diminuído os casos. No primeiro semestre deste ano, referiu, foram registados 89.494, que resultaram em 150 óbitos, contra mais de cem mil casos e de 200 óbitos em igual período do ano passado.
Mas mesmo assim, disse, “continuam a ser feitos esforços para a redução do número de mortes, com a distribuição de mosquiteiros tratados com insecticida e eliminação das fontes reprodutoras de mosquitos”.
Com o apoio assegurado por uma equipa de médicos cubanos, a província do Namibe, congratulou-se, regista uma diminuição substancial dos casos de malária.
 A Direcção Provincial da Saúde controla 22 casos de lepra, que estão a ser acompanhados.
A lepra, frisou, deixa algumas marcas, mas “o programa tem estado a cumprir o seu papel, que é o de acompanhamento, tratamento e aconselhamento dos doentes”.

 Tuberculose

Em relação à tuberculose, garantiu que está a ser feito tudo para tratar dos casos registados e que o dispensário anti tuberculose tem meios, medicamentos e pessoal treinado “para o que der e vier”.
No primeiro semestre deste ano, revelou, foram registados 400 novos casos contra os 456 ocorridos em igual período do ano anterior.
 “No cômputo geral, podemos dizer que estamos no bom caminho, há uma redução drástica das doenças, maior afluência da população aos serviços do programa HIV/ Sida e um número crescente de mulheres gestantes aconselhadas e seguidas pelo programa de corte de transmissão vertical”, concluiu Gaspar Cardoso.

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