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Polícia traça novas estratégias de actuação

Sampaio Júnior | Benguela

O roubo de gado bovino nas regiões Centro e Sul de Angola registou, em 2010, um abrandamento de 10 animais em relação ao ano anterior, em que tinham sido roubadas 440 cabeças de gado.

Governadores das regiões do Centro e Sul reuniram em Benguela para traçar plano de combate ao roubo de gado bovino
Fotografia: Jornal de Angola

O roubo de gado bovino nas regiões Centro e Sul de Angola registou, em 2010, um abrandamento de 10 animais em relação ao ano anterior, em que tinham sido roubadas 440 cabeças de gado.
Segundo dados anunciados no primeiro encontro para adequação de estratégias de combate ao roubo de gado, que decorreu em finais de Fevereiro na cidade de Benguela, em 2010 foram roubadas 440 cabeças de gado nas províncias de Benguela, Huíla, Namibe e Cunene.
Destes números, Benguela registou 49 roubos, 47 dos quais esclarecidos, que resultaram na detenção de 73 cidadãos, todos sem ocupação profissional. Na Huíla houve 260 roubos de gado, tendo sido detidos 174 cidadãos, enquanto no Cunene a Polícia registou 63 casos, que culminaram na detenção de 74 elementos. No Namibe foram registados 61 roubos, todos esclarecidos, que resultaram na detenção de 56 pessoas desempregadas.
A Polícia, de acordo com o relatório-balanço, apurou a existência de cumplicidade entre familiares de donos de gado bovino e ladrões, uma vez que das várias redes desmanteladas, encontravam-se envolvidos nos roubos familiares de criadores de gado.
“Os meliantes têm demonstrado algum grau de profissionalismo, fazendo recurso a artefactos que lhes permitem entrar na propriedade do criador com camiões e carregar os exemplares mais valiosos”, revelou ao Jornal de Angola o criador Adelino Kaiente.
“Até há bem pouco tempo não se dava muita importância ao roubo de uma ou duas cabeças, mas como muitos exemplares estavam a ser roubados, os criadores cansaram-se e foram apresentar queixa às autoridades”, acrescentou.
Com o encontro de Benguela, os criadores esperam que se trave a onda de roubos na região.

Violência na transumância 

Os pastores, sempre que encontram dificuldades de pasto ou água, percorrem grandes distâncias para alimentar o gado, mas esta actividade, que vem desde a antiguidade, nem sempre acontece de forma pacífica, registando-se alguma violência durante o processo. Em Angola existem criadores familiares, que têm à sua guarda animais bovinos, caprinos e suínos para criação e reprodução, recorrendo a técnicas adequadas, aproveitando os pastos ao ar livre, com o objectivo de obter do gado apascentado diversos produtos.
Desde tempos recuados que se verificam movimentos naturais e sazonais de animais herbívoros, que percorrem uma região a outra para se alimentarem de pastos frescos em solos de outras zonas. Esta forma de pastoreio, conhecida por transumância, consiste fundamentalmente na deslocação periódica de gado entre dois regimes determinados, de clima diferente.
As características climáticas da região Centro e Sul permitem ao gado utilizar os pastos de forma alternativa e sazonal. Aliás, a elevada altitude média e os contrastes entre as regiões favorecem mais o pastoreio migratório do que o sedentário.
Devido ao crime organizado, regista-se uma forte diminuição dos efectivos pecuários envolvidos em movimentos transumantes. Em certas montanhas, a prática está parcialmente a ser abandonada, enquanto noutras a decadência é notória, cada ano que passa. Como causas desde declínio podem apontar-se as seguintes: envelhecimento da população activa, dificuldade de recrutamento de pastores, diminuição do número de cabeças de gado, modernos sistemas de estábulo e um certo individualismo dos criadores.
As longas viagens do gado transumante chegam a atingir largas centenas de quilómetros, devido à escassez de pasto. No entanto, são poucas as manadas que na actualidade se deslocam a pé através dos antigos caminhos, cujos troços desapareceram devido ao conflito armado. Estas antigas vias pecuárias constituem um valioso património histórico-cultural, a merecer revitalização.
Se forem tomadas medidas que visem a revitalização desta forma de pastoreio, será possível manter viva uma tradição arcaica, cuja origem se perde nos tempos.

Criadores pobres

A perda dos animais está a provocar o desespero entre os criadores, são dados que devem merecer atenção dos governos provinciais, afirmou o governador Armando da Cruz Neto. Depois de um rol de queixas junto das autoridades, transversais ao território do Cunene, Huíla, Benguela e Namibe, surgiu o 1º Encontro para Adequação de Estratégias de Combate ao Roubo de Gado, uma estrutura que vai dar respostas aos produtores e criadores.
“É bom sabermos que um grupo de criadores e produtores se cansou de estar a ser vítima do roubo desenfreado dos seus animais. Estamos cientes de que os próprios criadores vão recrudescer a vigilância das propriedades, para facilitar o trabalho dos órgãos da Polícia Nacional”, disse o governador.
Armando da Cruz Neto assegurou que as autoridades de Benguela vão ser um parceiro forte no combate ao roubo de gado na região Sul de Angola.
O governador disse que acções que visam lutar contra o desaparecimento de forma organizada de gado é tarefa de todos, autoridades tradicionais, criadores e população, “já que este mal remonta a longos anos”. Para o governador de Benguela, o gado representa um estímulo de valor económico para famílias em Angola, por isso as autoridades não devem permitir que haja ou se assista à continuidade do roubo de gado nestas regiões, que representam 60 por cento da população bovina do país.
O Executivo está a dinamizar acções para o repovoamento desta população animal, como aposta do combate à fome e à pobreza no meio rural. Para se manter o programa exequível é necessário que deste encontro saiam estratégias para pôr fim aos actos maléficos, disse Armando da Cruz Neto, acrescentando que “é necessário que os diversos sectores da vida pública e privada se engajem em estudos profundos sobre o fenómeno do roubo de gado, por ser um assunto que se arrasta desde a antiguidade”.
 
Roubo e morte

Na província da Huíla, o que mais preocupa as autoridades é que atrás do roubo de gado está o crime organizado, existe a intervenção de homens armados e mortes de seres humanos.
“Durante o roubo ou tentativa, os meliantes, quando não conseguem ter êxito nos seus propósitos tornam-se cruéis, chegando mesmo a dissecar os pastores e respectivos animais. Estes e outros actos condenáveis levaram o Chefe do Executivo a orientar a realização de um encontro, onde pudemos encontrar estratégias para o combate ao roubo de gado”, disse o governador da Huíla.  
Issac dos Anjos é apologista da reposição dos matadouros municipais, como património público, pois segundo ele, com este importante meio haverá melhorias no controlo, no abate de gado bovino, caprino e suíno, destinado ao consumo da população.
“São produtos perecíveis e merecem um tratamento especial, existem fortes suspeitas de que a carne é abatida em matadouros não oficiais, não tem o tratamento condigno. Nestas matanças está apenas o interesse mercantil”. De acordo com o governante, os criadores na região têm potencial bovino para fornecer carne em quantidade e qualidade para as Forças Armadas Angolanas (FAA).
Dos mais de 60 por cento de gado existente na região Centro e Sul, só a província da Huíla é detentora de mais de um milhão de cabeças de gado, criação que permite que se forneça carne ao exército e a outros ramos das forças de defesa e segurança, em toda a extensão do país, sob a maior tranquilidade possível. E se houver preferência, pode ser dentro do sistema porta a porta.
“Se existem razões justificáveis para a importação de carne de além fronteiras, não me cabe a mim avaliar tais procedimentos. Reconheço que existe um complexo entre nós, os angolanos, nunca o que é feito no país é bom. Este complexo é que deve ser dirimido, para valorizarmos a produção nacional”, disse o governador.

A voz da Polícia

Em Benguela a situação ainda não é alarmante, mas tem merecido toda a atenção do Comando Provincial da Polícia Nacional, segundo o comissário António Maria Sita.
“Temos mantido contactos regulares para a troca de informações com as autoridades tradicionais e os próprios criadores familiares, estes encontros têm trazido resultados positivos, tanto na prevenção como no combate ao crime”, disse o comissário, acrescentando que Benguela serve de placa giratória do gado roubado, “que passa aqui e segue para as províncias de Luanda, principal consumidor, Huambo e Kuanza-Sul”.
António Maria Sita disse que na província de Benguela passa gado roubado na Huíla, Cunene e Namibe.
O comandante provincial da Polícia do Namibe, António Pedro Kandela, disse que são muitos os prejuízos que esta prática tem tido para os produtores, que denunciam também as consequências que a actividade desta alegada rede pode ter para a saúde pública, pois o abate dos animais furtados é feito clandestinamente e sem controlo sanitário.   
De acordo com o comandante da Polícia, Namibe tem um efectivo preparado para o combate ao roubo de gado.                    

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