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Aumenta número de alfabetizandos

António Capitão | Uíje

Mais de 15 mil alunos vão frequentar, este ano, na província do Uíge, aulas de alfabetização. O responsável pela área do ensino de adultos da direcção provincial de Educação disse, ao Jornal de Angola, que há cada vez mais adultos, nas aldeias, comunas e sedes municipais interessados em aprender a ler e a escrever.

Mais de 15 mil pessoas estão matriculadas na província do Uíge para frequentarem aulas de alfabetização no presente ano lectivo
Fotografia: António Capitão

Maria de Lurdes, 33 anos, já sabe escrever o nome. Há dois anos decidiu matricular-se na “Rosa Virgínia”, centro de alfabetização feminina da Congregação das Irmãs do Bom Pastor.
Já lá vai o tempo em que Lurdes pedia às amigas para lerem as cartas que recebia dos familiares que se encontram noutros pontos do país. Hoje ela sabe escrever correctamente algumas palavras. “Quando encontro um papel escrito, atirado no chão, não resisto a apanhá-lo, quero sempre ter a certeza do seu conteúdo. O mesmo acontece quando vejo um painel publicitário colocado na rua. Fico muito curiosa e faço uma paragem para ler bem a mensagem”, disse emocionada.
A luta e dedicação nas aulas de alfabetização deixam-na orgulhosa pelas coisas novas que descobre ou aprende todos os dias. Maria de Lurdes quer continuar a aumentar o seu nível académico: “quando não sabia ler, passava por muitas situações embaraçosas. Se alguém começasse a falar de escola eu retirava-me, porque era como se estivessem a insultar-me por ser analfabeta”.
Maria de Lurdes diz que agora a situação é bem diferente; “graças às aulas de alfabetização até a minha maneira de falar melhorou muito. Agora falo com mais certeza e confiança no que digo”. Depois da fase de alfabetização, em 2009, Maria de Lurdes frequentou, no ano seguinte, o Programa de Aceleração Escolar, para a primeira e segunda classe. Está ansiosa para conhecer os conteúdos da segunda fase. Este ano pode frequentar a terceira e depois a quarta classe, caso tenha um bom desempenho nas aulas.
“Quero estudar muito e chegar ao ensino superior. A guerra já acabou. Já não há motivos para não estudar. Apesar da minha idade um pouco avançada, estou decidida a dar continuidade aos meus estudos. Quero servir de exemplo para muitas pessoas que ainda vivem presas ao analfabetismo”, diss entusiasmada.
Humba Maria Dongala tem 24 anos e é mãe de três filhos. Residente no bairro Papelão, na cidade do Uíge, a jovem mãe está feliz com os passos já dados no processo de aprendizagem do ABC. Humbe perdeu a vergonha e frequenta o Programa de Alfabetização e Aceleração Escolar do Ministério da Educação. Ela reconhece que só não foi à escola mais cedo por negligência.
“Sempre me importei mais com os negócios e as tarefas domésticas. Quando via as outras pessoas a ler e a escrever, parecia um milagre ou um sonho que eu nunca conseguiria concretizar. Mas aqui descobri que a aprender não tem idade. Esforço-me muito e com a ajuda dos alfabetizadores sei que, em pouco tempo, estou a ler e  a escrever correctamente”, disse.
Professora desde 1987, Margarida Alberto já formou muitos alunos. Há mais de quatro anos que se dedica apenas a ensinar a ler e escrever as mulheres adultas do Centro de Alfabetização Feminina do bairro Papelão.
“Tenho muito orgulho no meu trabalho. Ensino há mais de 24 anos. Muitos alunos que ensinei a ler e a escrever hoje também já são meus colegas, enquanto outros se especializaram noutros ramos e estão a dar o seu contributo no desenvolvimento do nosso país. Isto é para mim motivo de orgulho”, realçou.
“As políticas do governo colonial não davam prioridade à formação dos angolanos. Isso provocou a existência de uma população angolana maioritariamente analfabeta depois da proclamação da Independência Nacional.
 Mas como eu já tinha concluído a quarta Classe colonial, aderi ao Programa do Governo para a educação e até hoje continuo a prestar o meu contributo à pátria”, disse António Gaspar, professor há 33 anos. 

Milhares de matrículas

Este ano lectivo, estão matriculados 15.750 alunos, que frequentam as aulas de alfabetização. O responsável pela área do ensino de adultos da Direcção Provincial da Educação do Uíge disse ao Jornal de Angola que mais de quatro mil alunos estão matriculados para o Programa de Aceleração Escolar. Lukoki Kivuna disse que, no presente ano lectivo, houve um aumento significativo de alunos matriculados, em relação aos anos anteriores. Há cada vez mais adultos nas aldeias, comunas e sedes municipais interessados em aprender a ler e a escrever.
 “O ensino de adultos está a conhecer novos rumos nos últimos anos. Mais alunos estão a ser matriculados devido à construção de mais escolas e salas, além do aumento de professores para assegurarem o processo de alfabetização”, disse Lukoki Kivuna.
O Programa de Aceleração Escolar visa desenvolver a aprendizagem nos adultos, elevar o nível académico e cultural dos iletrados, permitindo que mais pessoas se interessem e analisem melhor os acontecimentos do país e do mundo.

Poucas salas

De acordo com o professor Kivuna, na província do Uíge existem poucas instituições escolares específicas, para o ensino de adultos: “os mais de 19 mil alunos matriculados ocupam as salas construídas para o ensino geral, de segunda a sexta-feira, das seis da manhã até às oito horas. Isso significa que, para asseguramos o funcionamento do ensino de adultos, aproveitamos o período que antecede o horário escolar do sistema do ensino geral”, declarou.

Faltam professores

O ensino de adultos na província é assegurado por 627 professores, a maioria colaboradores, e apenas 113 são professores efectivos, mais seis formadores de professores. Lukoki Kivuna disse que o ensino de adultos necessita de pelo menos mais 2.000 alfabetizadores, para serem distribuídos pelos 16 municípios da província, além de mais 2.500 para leccionarem os módulos mais avançados de alfabetização.
“Até agora os módulos três e quatro, que compreendem a quinta, sexta, sétima e oitava classes, não arrancam por falta de professores, motivo que tem deixado muitos formandos sem possibilidades de dar continuidade aos seus estudos”, afirmou.
Lukoki Kivuna defende a necessidade de qualificar os professores deste segmento de ensino, para melhorar a qualidade dos conteúdos transmitidos aos adultos interessados em aprender a ler e escrever.  

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