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Kupapatas querem ver actividade legalizada

António Capitão | Uíge

Os moto-taxistas, vulgarmente conhecidos como "kupapatas", registados na Associação de Motoqueiros de Angola (Amotrang) no Uíge vão começar a beneficiar, nos próximos dias, de acções de formação para aprimorarem a condução.

Moto-taxistas vão ter escola de condução para reduzir problemas com a Polícia e baixar os níveis de sinistralidade rodoviária
Fotografia: António Capitão

 Os moto-taxistas, vulgarmente conhecidos como "kupapatas", registados na Associação de Motoqueiros de Angola (Amotrang) no Uíge vão começar a beneficiar, nos próximos dias, de acções de formação para aprimorarem a condução.
 O delegado provincial da Amotrang, Xavier Basil, disse, ao Jornal de Angola, que foi criada uma escola de condução para motociclistas que, em parceria com a Direcção Provincial de Viação e Trânsito, vai permitir que os formandos adquiram cartas de condução.
 A criação da escola e a concessão de cartas de condução têm o objectivo de reduzir os desacatos entre Polícia e condutores de motorizadas e contribuir para a redução da sinistralidade rodoviária, já que os kupapatas são acusados de estarem na origem da maior parte deles.
 “Com a criação desta escola acredito que os motociclistas, depois de formados, vão estar mais habilitados a conduzir”, afirmou, sublinhando:
“Com a carta de condução vão ser mais responsáveis, evitar as constantes apreensões pela Polícia e contribuir para a redução dos acidentes que têm provocado ferimentos a muitas pessoas e até a morte”.
 Dentro de dias, referiu, começa o primeiro ciclo formativo, prevendo-se a formação de, pelo menos, 30 motociclistas do município do Uíge, mas a acção vai estender-se a toda a província.
 O responsável da Amotrang revelou que os ciclos formativos para condutores de ciclomotores têm a duração de 50 dias e como base aulas de condução, de mecânica e de Código de Estrada.
 
Reacção dos motoqueiros
 
Domingos Brás, de 19 anos, que exerce a actividade de moto-táxi há três meses e sócio da Amotrang há um, reconhece haver vantagens em ser membro da associação de motoqueiros.
A Polícia trata melhor os que usam coletes e capacetes e têm documentos atribuídos pela associação, disse.
 “Desde que me associei à Amotrang, a minha rotina é diferente, tenho documentos que me protegem. Pretendo inscrever-me na escola de condução para conhecer melhor o Código de Estrada e adquirir a carta de condução”, sublinhou.
 O jovem pediu mais sensibilidade do Governo para a legalização da actividade de moto-táxi, fonte de sobrevivência, salientou, de muitos jovens e antigos militares.
 “Há muito desemprego no país e a juventude é a mais atingida. Procuramos todos fazer qualquer coisa para a subsistência e o serviço de moto-táxi é uma das principais opções dos jovens, sobretudo ex-militares”.
Nos ziguezagues e correrias dos kupapatas, encontramos Adão Gouveia. Negou-se a falar, argumentando que não podia perder a clientela.
 Por 100  kwanzas, o preço de uma viagem, resolvemos o problema. Já no assento da Lingken de 125 cc, Adão Gouveia reiterou que não tinha tempo a perder com a Amotrang, escolas e carta de condução. Para ele, tudo “está bem assim” e quanto à associação garantiu não sentir o seu impacto junto dos moto-taxistas.
 “Há meses um dos nossos colegas, membro da Amotrang, foi detido pela Polícia. Mesmo exibindo o colete, os documentos e munido de capacete não foi poupado. Recorremos à direcção da associação, mas nada, foi parar à prisão por três meses”, frisou.   
 
 Actividade ilegal
 
O porta-voz do Comando Provincial da Polícia Nacional no Uíge, intendente Pedro de Melo, disse ser ilegal a actividade de moto-táxi por não existir legislação que autorize o licenciamento de motorizadas para aquele serviço.
O maior número de acidentes registados na província, garantiu, está relacionado com motociclistas, que desrespeitam completamente o Código de Estrada.       
 “As motorizadas não podem exercer a actividade de táxi. Para desencorajarmos esta tendência temos desenvolvido várias iniciativas e tomado algumas medidas, o que permitiu apreender mais de 200 daqueles veículos além levarmos cerca de 40 indivíduos a Tribunal, que já os julgou e condenou”, afirmou.
 As operações para disciplinar os motociclistas estão a ser orientadas pelo comandante provincial da Polícia Nacional e delegado do Ministério do Interior, subcomissário Domingos Ferreira de Andrade.
 A acção, referiu Pedro de Melo, tem a participação da delegação do Interior e do Comando da Polícia Nacional no Uíge, entre directores provinciais e comandantes dos diferentes órgãos, além dos comandantes municipais.
 Pedro de Melo considera satisfatório o impacto provocado pelo novo Código de Estrada, revelando que as várias acções desenvolvidas pela corporação permitiram reduzir, na província, o número de acidentes rodoviários e as infracções de automobilistas e motociclistas.
 “O comando provincial criou brigadas de trânsito nos comandos municipais e postos de policiamento nas estradas, o que permitiu reduzir significativamente a sinistralidade rodoviária e a mortalidade por acidentes de viação”, acentuou.
 O delegado da Amotrang em reacção às declarações da Polícia Nacional revelou que a direcção nacional da associação já elaborou uma proposta, tendo em vista legalizar a actividade no país.
 “O Estado só sai a ganhar se regular a actividade, não só pelo número de empregos gerados, mas pelos impostos cobrados”, rematou.  

Números

Estimativas apontam que o número de moto-táxis no país anda à volta dos 50 mil, com Luanda a liderar a lista com pouco mais de 15 mil, seguido do Huambo e Benguela.
De acordo com especialistas ouvidos pela reportagem do Jornal de Angola, dado o elevado número de moto-taxistas no mercado, o mais certo é que as autoridades venham a aprovar legislação sobre o assunto.
“Penalizar uma actividade que emprega tão elevado número de angolanos não é, seguramente, o melhor caminho”,  disse a economista Maria José.
De acordo com a nossa interlocutora, o que o Estado, enquanto pessoa de bem, deve fazer é formalizar  a actividade,  acautelando, todavia, o cumprimento d as normas que forem aprovadas.
A economista acrescentou que o serviço de  moto-táxi há muito é praticado em países com forte densidade demográfica, apontando os asiáticos como os pioneiros nesta actividade. “Quem conhece Nova Delhi, capital da Índia, ou Banguecoque, capital da Tailândia, onde os moto-táxis empregam milhões de pessoas, há-de concordar que está é uma actividade há muito implantada no mundo”, disse. O sindicalista Jaime Dala disse, por sua vez, que os moto-taxistas são já uma realidade em Angola que não pode ser escamoteada. Há muita gente no país, sobretudo jovens e ex-militares, que têm essa actividade como a sua principal fonte de rendimentos.
Disse ainda que conhece pessoas em Luanda, Benguela e Huamboque começaram o negócio com uma pequena motorizada e hoje são pequenos homens de negócios, com 10 ou mais motos, tirando  do desemprego a muita gente.
Para o sindicalista, o desejável é que o Parlamento legisle sobre o assunto e o Executivo faça depois a sua parte, fazendo cumprir  a legislação, porque, conforme reconheceu, é preciso de facto disciplinar a forma como os moto-taxistas circulam. “Não podemos continuar impávidos e serenos e deixar que os moto-taxistas façam bota-sapato do Código de Estrada. É preciso disciplinar toda essa gente”, rematou o sindicalista.

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