Províncias

Produção agrícola comprometida por falta de apoio

Valter Gomes |Uíge

Mais de sete mil camponeses organizados em 32 associações agro-pecuárias e distribuídas pelas diversas localidades que compõem o município do Dange-Quitexe, província do Uíge, reclamam pela falta de meios de trabalho e financeiros para o aumento da produção agrícola.

A maior parte dos camponeses encontra grandes dificuldades para obter meios que lhes permitam exercer as suas actividades
Fotografia: Dombele Bernardo

José Pedro Camuanda, coordenador da Associação Agrícola da fazenda Quienguele, disse que a falta de tractores com as respectivas alfaias, charruas, motobombas, motosserras, enxadas, catanas, regadores e viaturas para o transporte dos produtos condicionam o desenvolvimento da actividade agrícola na localidade.
Sem esses equipamentos, os agricultores vão continuar a enfrentar sérias dificuldades. A título de exemplo, referiu que muitos camponeses passam dificuldades, como é o seu caso, que é detentor de um campo agrícola com 400 hectares, mas, por falta de meios, apenas pôde trabalhar 70 manualmente.
No seu campo agrícola existem vários produtos, como café, banana, mandioca, laranja, abacaxi, tangerina, hortícolas e outros, que podem ajudar a equilibrar a dieta alimentar dos habitantes locais.
José Pedro referiu que associação de camponeses da localidade é composta por 12 camponeses e os trabalhos tiveram início em 1986, mas, até ao momento, nunca houve qualquer apoio para o aumento da produção agrícola.

Falta de financiamento


Olímpio Antunes, de 58 anos, proprietário da Fazenda Agro-pecuária “Kinjingo” com cerca de 3.076 hectares, lamentou a falta de financiamentos para que os camponeses da localidade possam aumentar a produção e oferecer mais oportunidades de emprego nas diversas cooperativas e associações agrícolas existentes.
Esclareceu que a maioria da população se dedica ao cultivo, porque a região possui terras férteis, mas reconheceu que por falta de apoios financeiros, meios de trabalho e outros incentivos a vida tem sido muito complicada para os agricultores do Quitexe, uma vez que a agricultura requer muita mão-de-obra. “Já solicitei, várias vezes, financiamentos ao BPC, BIC, Banco Sol e outros, mas, até ao momento, não tive qualquer resposta positiva.
 Por isso, pedimos encarecidamente ao Governo Provincial que preste mais atenção aos camponeses da região, visto que o campo é uma das bases fundamentais de sustento das famílias”, sublinhou.
Para este agricultor, uma província ou país não se desenvolvem apenas com petróleo, diamante, ouro, cobre e outros minérios, mas também com a produção agrícola.
No passado, recordou, Angola atingiu patamares aceitáveis em termos de infra-estruturas e outros sinais de desenvolvimento, através do café.
“Numa altura em que a exploração de petróleo e diamantes ainda não se faziam sentir, foi a produção do café e de outros produtos do campo que contribuíram para o crescimento económico do país”, recordou. A produção de alimentos na Fazenda Kinjingo é assegurada por 20 trabalhadores, número insuficiente para a cobertura da área de cultivo.
“Caso haja um financiamento que corresponda às nossas pretensões, tendo em conta que a fazenda possui uma extensão de cerca de 3.076 hectares, vamos poder empregar mais jovens, para ajudarmos a combater a delinquência e permitindo que muitos contribuam para o sustento das suas famílias”, referiu Olímpio Antunes.
O Jornal de Angola contactou as Agências locais do Banco de Poupança e Crédito (BPC) e do Banco Sol, na cidade do Uíge, no sentido de apurar qual é o plano destas instituições bancárias para a concessão de crédito aos agricultores do Dange-Quitexe.  No entanto, os gestores recusaram-se a falar sobre o assunto por alegada falta de autorização das respectivas direcções centrais.
Outro agricultor, Domingos da Lona, 37 anos, afirmou a sua preocupação com o estado em que se encontram as vias de acesso no interior do município, situação que considera estar na origem do fraco escoamento dos produtos do campo para o mercado.
“Estamos muito preocupados com o escoamento dos produtos, porque para sairmos de algumas aldeias e regedorias encontramos várias pontes partidas, que impedem a circulação normal de viaturas. Por isso, somos obrigados a contratar pessoas que transportam os produtos à cabeça até aos locais mais acessíveis e pagamos um valor por cada carga”, explicou.
Domingos da Lona pede, por isso, uma maior intervenção do Governo Provincial na melhoria das vias secundárias e terciárias do município, uma vez que está totalmente disponível para contribuir para o programa do Executivo de combate à pobreza. O regedor da localidade de Cambeji, comuna de Vista Alegre, Lau Coimbra, sugeriu a criação de mercados rurais na região para impedir que os camponeses percorram grandes distâncias para comercializar os seus produtos.
 “Temos associações criadas que trabalham manualmente, mas, apesar das dificuldades e da falta de apoios, produzem grandes quantidades de produtos. O problema está na comercialização”, referiu.
Augusto João, chefe da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA) no Quitexe, afirmou que os agricultores da localidade nunca tiveram qualquer apoio financeiro da banca, facto que tem estado a contribuir para que haja alguns sinais de fracasso na produção de alimentos em algumas localidades do município.

Época agrícola

Para a presente época agrícola, os agricultores locais já trabalharam 50 hectares de terra, onde foram cultivadas grandes quantidades de mandioca, milho, ginguba, café, banana, citrinos, hortícolas e outros produtos. Augusto João disse que a instituição que dirige possui apenas um tractor a funcionar no Dange-Quitexe, o que considera insuficiente para cobrir as necessidades dos agricultores locais.
Por exemplo, para a presente época agrícola, os camponeses perspectivavam trabalhar mais de 300 hectares de terra, mas até agora só estão trabalhados 50.
“Precisamos de apoio em máquinas e outros instrumentos. Um tractor apenas não é suficiente para trabalhar a quantidade de hectares preconizados”, concluiu.
O município do Quitexe possui três comunas- Aldeia Viçosa, Vista Alegre e Cambambe, - 75 aldeias, 17 regedorias e uma população calculada em 47.877 habitantes.
 A populaçãoDange-Quitexe, na província do Uíge,  é maioritariamente camponesa e dedica-se ao cultivo do café, banana, mandioca, ginguba, abacate, cana-de-açúcar, batata-doce e rena, mamão, laranja, tangerina, abóbora, inhame, entre outros produtos.

Tempo

Multimédia