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Província necessita de médicos cardiologistas

Domingos dos Santos |

O Hospital Geral do Uíge está velho e a pedir reforma. São necessários hospitais na periferia da capital provincial, salas de partos e postos de saúde com valências de Pediatria e Obstetrícia. A província precisa de mais 350 médicos para responder às necessidades das populações. Mas o que está a preocupar o responsável provincial da Saúde, Benjo Moço Henriques, é a paralização das obras do Hospital Municipal do Candombe Velho. A obra encalhou há dez anos e continua parada.

Apesar das dificuldades técnicos trabalham para responder às necessidades
Fotografia: Santos Pedro

O Hospital Geral do Uíge está velho e a pedir reforma. São necessários hospitais na periferia da capital provincial, salas de partos e postos de saúde com valências de Pediatria e Obstetrícia. A província precisa de mais 350 médicos para responder às necessidades das populações. Mas o que está a preocupar o responsável provincial da Saúde, Benjo Moço Henriques, é a paralização das obras do Hospital Municipal do Candombe Velho. A obra encalhou há dez anos e continua parada.

Jornal de Angola
Qual é a realidade sanitária na Província?

Benji Moco Henriques - O Uíge continua a ser a cidade cuja rede sanitária aguarda por novas infra-estruturas hospitalares. O Hospital Geral do Uíge é uma estrutura antiga que foi erguida ainda no tempo colonial e que clama por uma ampliação e reabilitação. Precisamos de unidades hospitalares nos bairros mais populosos. Há um projecto com mais de dez anos para a construção do Hospital Municipal do Uíge, no bairro Candombe Velho. As obras começaram mas ficaram ao meio do caminho.

JA – Basta mais um hospital

no Uíge?

BMH – Precisamos de mais, pelo menos no bairro Papelão e no Mbemba Ngango. Se tivermos mais estas três unidades hospitalares vamos reduzir a afluência de doentes ao Hospital Geral do Uíge. O Hospital Provincial tem uma sala de partos. Precisamos de  uma maternidade no bairro da Pedreira. 

JA – O que fez parar as obras do Hospital Municipal do Candombe?

BMF – O projecto é do Executivo, não sabemos. Temos, ao nosso nível, procurado que a obra avance, não obstante as dificuldades financeiras. Esperamos que o Ministério da Saúde ou o Governo Provincial assumam a responsabilidade da conclusão das obras.

JA - Há garantias de que o hospital entre em funcionamento ainda este ano?

BMF – Não posso confirmar isso, mas temos insistido nesse sentido. Nos últimos contactos com a Direcção Nacional de Gestão, Planificação e a Estatística do Ministério da Saúde deixamos essa preocupação. Mais cedo ou mais tarde é possível a conclusão do hospital.

JA – Na rede que vai ser criada, que papel está reservado ao Hospital Geral do Uíge?

BMF -  Queremos que o Hospital geral do Uíge cuide de casos que requerem um tratamento especializado e casos graves que os hospitais da periferia não consigam dar resposta.

JA –Os postos e centros de saúde são suficientes?

BMF – Em termos de postos e centros de saúde no município do Uíge estamos bem servidos, porque temos unidades na maior parte das aldeias e grandes comunidades. Temos estado a lutar por mais centros de saúde com salas de partos na periferia, para reduzir a sobrecarga sobre a Maternidade do Hospital Geral do Uíge.

JA - Qual é a realidade nos outros municípios da província?

BMF – No interior da província temos 161 postos de saúde distribuídos pelos municípios, comunas, bairros e aldeias. Temos 34 centros de saúde e contamos, até este momento, com sete unidades hospitalares. Dispomos de um Hospital Provincial e seis municipais no Negage, Sanza Pombo, Quimbele, Songo, Damba e Maquela do Zombo.

JA – A província tem 16 municípios e apenas sete hospitais municipais?

BMF – Neste momento, já estão concluídos mais seis hospitais municipais, que aguardam apenas pelo seu apetrechamento nos municípios do Uíge, Bungo, Mucaba, Puri, Buengas e Songo. O município do Songo já tem um Hospital Municipal. No município do Uíge está em conclusão o Hospital Sanatório. Com a entrada em funcionamento destes seis hospitais, temos a rede sanitária mais alargada e, sobretudo, com a oferta de serviços hospitalares de qualidade.

JA - Qual é a capacidade actual de internamento?


BMF – O Hospital Geral do Uíge foi concebido para 400 camas, mas actualmente tem mais de 700 camas. Em determinadas áreas, tivemos que internar dois pacientes por cama. É um hospital que trabalha para lá das capacidades. O mesmo acontece no Hospital Municipal do Negage, a segunda maior cidade da província. O Negage registou um grande crescimento populacional, mas o hospital não acompanhou esse ritmo.

JA - Existem recursos humanos suficientes?

BMF – A cidade do Uíge, por ter maior número de habitantes, concentra mais profissionais. Aqui temos o grosso de médicos especialistas. Em seguida vem o Hospital do Negage, com nove especialistas, sendo oito de nacionalidade cubana e um vietnamita. Os restantes municípios, por falta de condições para acomodar os profissionais, temos três médicos no município da Damba, com previsão de receber nos próximos dias mais um, três em Maquela do Zombo, igual número no Quimbele e Sanza Pombo e dois no Songo

JA – No total quantos médicos trabalham na província do Uíge possui?

BMF -  A província tem 68 médicos com especialidades de medicina interna, cirurgiões obstretas e ginecologistas, pediatras, um cardiologista, um nefrologista, um urologista, um oftalmologista, dois imagiologistas, três especialistas em anestesia, dois estomatologistas. Em termos gerais são essas as especialidades que temos em funcionamento, sobretudo no Hospital Geral do Uíge e no Municipal do Negage.

JA – De que outras especialidades médicas a província necessita?

BMF – Precisamos de médicos de obstetrícia, pediatria e de medicina, para podermos cobrir todas unidades existentes, para além de pessoal de enfermagem. Também precisamos de médicos especialistas em cardiologia, tendo em conta o crescimento exponencial de hipertensão arterial que, como consequência disso, surgem muitas doenças do coração que requerem e exigem uma resposta. Precisamos também de endocrinologistas, já que somos das províncias com mais casos de diabetes a crescer. A província necessita também de psiquiatras. Faz-nos falta uma unidade de hemodiálise para as pessoas portadoras de doenças renais. 

JA - Quais são as patologias mais frequentes na província?

BMF – A malária continua a ser a principal causa de doença e de morte, não obstante o grande esforço para reduzir a mortalidade. Em seguida as diarreias agudas, mas estas doenças já competem com os acidentes de viação, facto que nos assusta. Temos registado também muitos casos de doenças respiratórias agudas. 

JA – Foram recrutados profissionais através de concurso público?

BMF – Neste último concurso público tivemos 190 admissões para o sector da saúde, das quais tivemos 14 vagas para médicos especializados, tendo sido preenchidas 12. As outras duas não foram preenchidas, porque os colegas que se candidataram se formaram na República Democrática do Congo e não conseguiram as suas equivalências. Também não foi possível preencher quatro vagas para enfermeiros com formação superior, mas conseguimos preencher a maior parte das vagas que foram disponibilizadas.

JA – Quantos profissionais da saúde estão em falta?

BMF – Para cobrirmos todas as nossas necessidades, precisamos de mais 350 médicos. A província tem mais de dois milhões de habitantes, o que segundo as normas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), teríamos um médico para cada 10 mil habitantes.   

JA – Existem medicamentos essenciais e equipamentos hospitalares?

BMF – Os medicamentos essenciais são um problema conjuntural do país. Estamos a aguardar a recomposição das reservas de medicamentos essenciais. Esperamos receber da Direcção Nacional de Medicamentos e Equipamentos do Ministério da Saúde, os medicamentos e depois abastecer todas unidades da província. A mesma coisa com materiais hospitalares. Os hospitais que já existem precisam urgentemente de mudar quase todos os equipamentos desde camas a colchões. Precisamos também de equipamentos para diagnóstico. Parece-nos importante criar pequenos laboratórios em alguns centros de saúde que oferecem serviços à criança e à mulher grávida. Temos 30 estudantes no Instituto Médio de Saúde a receber formação na área de laboratórios de análise, para que amanhã venham dar corpo a esta intenção de termos mais laboratórios na província.

JA – Ha rotura de stocks na província?

BMF – Nós temos um grande apoio do Governo provincial e assim conseguimos superar o que podia ser uma grande crise em termos de medicamentos. Tivermos dificuldades em manter os stocks e por isso continuamos preocupados. O Governo Provincial está atento, esperamos que não cheguemos ao ponto de rotura. Há dificuldades, fundamentalmente naquelas unidades periféricas, onde continua a haver escassez de medicamentos. O Coartem para crianças e adultos, tendo em conta que a malária é a principal causa de morte, tem stocks suficientes.

JA – A província tem registado muitos casos de mortalidade materno-infantil?

BMF
– Já houve alturas que tínhamos uma mortalidade muito alta, mas com a sensibilização e adesão da população ao parto seguro, com o enorme esforço que temos levado a cabo na formação e sensibilização das parteiras tradicionais, o número de mortes materno-infantis reduziu consideravelmente de mais 600 óbitos por 100 mil habitantes para pouco mais de 350 por ano. 

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