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Quimacungo ganha nova dimensão

António Capitão | Uíge

O antigo subúrbio habitado pelos nativos do reino “Wene”, da rainha Makungo-a-Nzumba, actual Quimacungo, aos poucos vai perdendo características de aldeia. A localidade começa a ganhar imagem à dimensão de um bairro, como o Bem-Vindo, Papelão, Quilala e outros localizados na periferia da cidade do Uíge.

O antigo subúrbio habitado pelos nativos do reino “Wene”, da rainha Makungo-a-Nzumba, actual Quimacungo, aos poucos vai perdendo características de aldeia. A localidade começa a ganhar imagem à dimensão de um bairro, como o Bem-Vindo, Papelão, Quilala e outros localizados na periferia da cidade do Uíge.
A anciã Kifuandu Kalueka recorda velhos tempos da antiga sanzala. Conta que depois da sua fundação em 1850, a aldeia de Quimacungo foi até à década de 70 do século passado habitado por um reduzido número de pessoas.
As casas eram feitas de pau-a-pique, cobertas de capim e situava-se no local onde está a ser erguido o Hospital Municipal do Uíge.
“Quando a administração portuguesa decidiu construir a cidade do Uíge em 1917, fomos obrigados a abandonar o recinto onde se encontrava a nossa aldeia, para nos instalarmos onde estamos hoje. Depois da proclamação da Independência, a aldeia começou a crescer até ao ponto das casas se juntarem à vizinha aldeia do Tomessa. Por isso é que muitas pessoas pensam que Tomessa e Quimacungo formam uma aldeia.”
Muita coisa evoluiu em Quimacungo, destaca avó Kifuandu Kalueka, lamentando a aparição de grupos de marginas, que na calada da noite assaltam residências e se apoderam dos bens da população. A anciã defende a instalação de um posto policial na localidade.
Alfredo Correia, conselheiro do poder tradicional da povoação, concorda com avó Kalueka sobre o crescimento demográfico e extensão territorial da localidade.
“O modo de vida da população é agora mais moderno, porque estamos a acompanhar a globalização. Os nossos filhos estão a construir novas e modernas casas, pequenas lojas e o governo está a erguer infra-estruturas sociais, como escolas e postos de saúde, que estão a melhorar a imagem da aldeia ”.

Energia e água

O soba do Quimacungo, Lopes Alexandre, defende a instalação de um posto de transformação de energia eléctrica na aldeia, para que as ruas e residências da localidade sejam iluminadas, “para melhorar as condições de vida das populações e evitar que ‘os amigos do alheio’ se aproveitem da escuridão para realizarem acções de vandalismo”.
“A energia eléctrica representa um factor de desenvolvimento para qualquer sociedade, cria melhorias na vida das populações, dinamiza as pequenas empresas e fábricas e permite que as pessoas estejam familiarizadas com as novas tecnologias e serviços, principalmente com os electrodomésticos”, disse o soba, acrescentando que há mais de dois meses que a água deixou de jorrar nas torneiras dos três chafarizes instalados em Quimacungo.
O soba esclareceu que o corte do fornecimento tem a ver com a danificação dos tubos que transportam a água a partir da fonte do rio, localizado na aldeia Cari.
“Devido à danificação dos tubos que atravessam a aldeia Mbanza Pólo, a população voltou a consumir água dos rios, obrigando as mulheres e crianças a percorrer longas distâncias para a sua obtenção. Já solicitámos à direcção provincial da Energia e Águas para nos enviarem os técnicos e resolverem esta situação”.
O soba do Quimacungo defende a construção de pelo menos mais quatro chafarizes na aldeia, para que a água seja distribuída de forma satisfatória à população local e da aldeia Tomessa.

Saúde em dificuldades

O sector da saúde também enfrenta dificuldades. A localidade possui um posto de saúde, com consultório, farmácia, maternidade e outras dependências que, na opinião do soba Alexandre, não presta um serviço de qualidade às populações, faltando salas de internamento.
Na única unidade sanitária de Quimacungo funcionam dois enfermeiros. Lopes Alexandre defende o enquadramento de pelo menos mais seis e a ampliação do posto de saúde.
“A população continua a crescer e o número de enfermeiros é insuficiente para atender as solicitações. O posto não possui espaço suficiente para acomodar os doentes que vão às consultas.”

Educação

Para o ano lectivo em curso foram matriculados 1.750 alunos da iniciação à sexta classe, distribuídos em 13 salas de construção definitiva e duas provisórias.
Lopes Alexandre afirmou que os 47 professores colocados naquela localidade são suficientes, mas defende o aumento de pelo menos mais seis salas, para que o primeiro ciclo do ensino secundário funcione e mais alunos sejam integrados.
“Queremos que sejam construídas mais salas e se aumentem os subníveis de ensino, para que as nossas crianças e jovens não se desloquem mais até à cidade do Uíge ou outros bairros vizinhos, para darem continuidade aos estudos.”

Crescimento da aldeia anula campos agrícolas

A agricultura no Quimacungo quase não existe. A população da localidade faz pequenas lavras junto das suas residências, pois os terrenos propícios à prática agrícola foram invadidos pelas construções.
“Os camponeses locais, para poderem cultivar em grande escala, deslocam-se às aldeias vizinhas, que distam mais de 20 quilómetros, onde pedem autorização para ocuparem parcelas de terra”, revelou o soba.
Lopes Alexandre disse que os camponeses integrados na “Terra Nova”, designação da única Associação de Camponeses do Quimacungo, deixaram de cultivar a terra há muitos anos, por falta de espaços suficientes.

História da aldeia

A aldeia de Quimacungo foi fundada em 1850 por Makungo-a-Nzumba, antiga rainha do reino “Wene”, da tribo Kikassule Kanguangua, que foi a primeira habitante da localidade, cuja população conserva até aos dias de hoje a sua cultura e tradição.
No passado, Nzambi-a-Mpungo e os antigos habitantes da aldeia, que acreditavam em Deus, também praticavam o nkisi (magia).
Os mágicos eram designados por Nganga Ngombo ou Nganga Nkisi. O ancião Joaquim Benjamim lembra que estes elementos tinham o poder de se transformar em animais ou objectos e também curavam várias doenças.
No centro da aldeia encontrava-se o Kindielo Njando, local onde o Nfumu-a-Hata (chefe do povo) funcionava e exercia o poder. Quimacungo estava dividido em kibelos (zonas), coordenados pelos Nfumu-a-Kibelo (chefes da zona).

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