Províncias

Vida larga chegou a todos os recantos da província

José Bule | Uíge

Paz é fixe. Transforma as nossas vidas e molda os nossos corações. O medo afasta-se de nós como uma gazela assustada. Não importa onde nos encontramos, na cidade, no município, na comuna, na aldeia ou numa regedoria qualquer, sentimos que, de facto, vivemos uma nova era.

Um ângulo da cidade do Uíge capital da província com o mesmo nome onde estão a ser erguidas várias infraestruturas sociais
Fotografia: José Bule

Paz é fixe. Transforma as nossas vidas e molda os nossos corações. O medo afasta-se de nós como uma gazela assustada. Não importa onde nos encontramos, na cidade, no município, na comuna, na aldeia ou numa regedoria qualquer, sentimos que, de facto, vivemos uma nova era.
A era dos passeios sem receios, dos jogos de futebol num campo rodeado de capim alto, do namoro às escondidas no meio do matagal.
Hoje podemos trabalhar sem medo que o nosso posto de trabalho seja destruído. E podemos desfrutar do merecido repouso, sem receios, na margem de um dos nossos maravilhosos rios para saborear um bom jissombe frito, macasquila de moamba de jinguba, catatos, fúmbua, funge de bombô ou um apetitoso cacusso grelhado. A paz permite ainda que, depois de comer, cada um faça a digestão comodamente sem pensar na guerra.
Os níveis elevadíssimos de frustração, que se faziam sentir em tempos de guerra, hoje baixaram consideravelmente.
A sociedade combate o consumo de drogas. Encontramos o “naite” em tudo quanto é esquina ao mesmo tempo que o kuduro invade, com a magia do seu ritmo e dança, está em qualquer ambiente festivo. Por causa disso e de outros factores, são poucos os angolanos que continuam a nadar na onda gigantesca do mundo das drogas.
As meninas da aldeia já usam tissagens humanas e biquinis de fio dental. Elas já não andam descalças. As havaianas chegam sem problemas. As mini-saias, bermudas, colãs e blusas de alça já fazem parte do dia-a-dia das jovens.
Os rapazes aprumam-se com as famosas calças jeans. Os fatos de marca Indecent e Giorgio Armani, camisolas, camisas, chegam à buala através dos balões de fardo que invadem os pequenos mercados criados nas comunidades.
Os comerciantes estão mais confiantes. Fretam camiões e camiões, carregando-os de mercadorias. São os camiões que percorrem o país, cujos destinos, em tempo de guerra, eram inimagináveis. A paz ofereceu aos angolanos a autonomia de sonhar e acreditar num futuro melhor. Conseguida a 4 de Abril de 2002, a paz permitiu que todo o povo angolano começasse a viver num clima de liberdade, facto que contribuiu para o início do processo de reconstrução do país e de reconciliação de todos os angolanos.
Com a abertura das vias, os produtos agrícolas estão a ser escoados. Os camponeses já não choram lágrimas de sangue, mas choram de alegria porque o inimigo já não destrói os seus campos. E a banana, mandioca, abacaxi, amendoim começam agora a atingir melhores preços, facto que tem vindo a contribuir na melhoria de vida das populações locais.
Já lá vão oito anos. As mulheres angolanas já não são forçadas a dar à luz no meio da mata, por causa das perseguições do inimigo. Os doentes em estado grave já não são levados em tipóias nem em cadeiras de fita. As ambulâncias estão disponíveis em quase todas as unidades sanitárias do país. Na província do Uíge foram construídos postos e centros médicos em todos os municípios.  Os candengues já não estudam debaixo das árvores. Têm escolas construídas de raiz, com carteiras e quadros modernos. Hoje os angolanos apostam cada vez mais na sua formação. O número de doutores, licenciados, bacharéis e técnicos médios, cresceu consideravelmente. O programa de ensino de adultos oferece aos mais velhos a oportunidade de aprenderem a ler e a escrever.

Mundo novo

Alguns municípios e comunas beneficiam do sinal da Televisão Pública de Angola. O tempo das cartas de amor já era. Alguns municípios da província do Uíge têm serviços de telefonia móvel, permitindo aos seus habitantes comunicar com os seus familiares e amigos localizados nos diferentes pontos do país e do mundo.
O jornal já circula na buala. E, o sinal da rádio cobre toda a província do Uíge.
 As antenas parabólicas enfeitam os tectos das casas de adobes crus, de pau a pique e capim, localizados nas áreas mais recônditas da província. Hoje, as conversas sobre os intensos combates que ocorriam um pouco por todo o país, e que resultavam em muitas mortes, foram substituídos pelos comentários sobre nomeações de novos governantes, filmes, espectáculos musicais, jogos de futebol, casos de violência doméstica, entre outras situações que não põem em causa o clima de paz que se vive no país.

Vida larga em paz

São oito anos de vida larga. As bolsas de estudo para o exterior do país, foram substituídas pelas bolsas internas. O namoro à distância já não é um problema. A Internet e o telemóvel, são meios de comunicação que encurtam as distâncias. Os apaixonados ficam horas e horas a navegar on-line ou a falar ao telefone.  Nas varandas dos cubicos, nos quintais, ruas, barracas e debaixo das árvores, jovens e kotas, de calções, chinelas, tronco nu ou coberto de “partoscornos”, tomam caldos e sopas quentinhas, e encharcam-se de birras geladas. O whisky, a tal bebida espirituosa, ajuda-os a desparasitar o organismo.
Nos finais de semana prolongado, como este último, já ninguém quer ficar na cidade. Todos os caminhos dão aos locais turísticos da província. São viaturas atrás de viaturas, que carregam gente que quer descansar e divertir-se.
Hoje, ninguém tem medo de exibir a bandeira ou vestir as camisolas com as cores deste ou daquele partido. As igrejas, apesar das diferenças doutrinais, transmitem a mesma mensagem com vista à unificação do povo angolano.
É ponto assente que a paz definitiva marcou o início de uma nova era para o país. A era da Reconstrução Nacional que deve ser levada a cabo por todos os angolanos, de mãos dadas, esquecendo as desuniões do passado, e pondo de parte as diferenças partidárias, religiosas, cor da pele, estatuto ou condição social.  A paz trouxe o fim do sofrimento e a tranquilidade necessária para que cada um de nós possa começar o processo de reconstrução da sua vida do ponto de vista material, económico e social. É preciso reconhecer que Angola é grande pela sua dimensão territorial e sobretudo pela grandeza da consciência da sua população, que conseguiu pôr fim ao conflito armado, sem quaisquer intervenções externas.

Tempo

Multimédia