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Um alembamento repetido

José Bule

Adelina e Vado protagonizaram, no ano passado, um autêntico desrespeito aos princípios tradicionais do povo bakongo, sobretudo porque o assunto está relacionado com a adulteração das regras que devem ser cumpridas, antes, durante, e depois da realização do alembamento.

Adelina e Vado protagonizaram, no ano passado, um autêntico desrespeito aos princípios tradicionais do povo bakongo, sobretudo porque o assunto está relacionado com a adulteração das regras que devem ser cumpridas, antes, durante, e depois da realização do alembamento.
Numa tarde de sábado, em Junho do ano passado, já a família da noiva, se encontrava concentrada na casa dos pais, no bairro Mbemba Ngango, na cidade do Uíge. Da capital do país saiu o grosso dos familiares. Outros foram do interior da Damba, Negage e Uíge. Avizinhava-se uma grande festa. Tudo preparado ao pormenor. Mesas e cadeiras devidamente decoradas, comida feita e os familiares aguardando expectantes pelo noivo. Adelina usou um vestido novo que se tornara na peça mais cara do seu guarda-roupa. 
O que se passa? – Perguntou o tio mais velho da noiva. Vado e família estavam atrasadas, o tempo contava duas horas.
Não demorou muito tempo, quando uma viatura de marca Starlet parou ao portão da casa dos pais da noiva. De repente o silêncio rompeu-se. Da viatura, que levava apenas um terço dos produtos exigidos pela família da noiva, desceram os pais de Vado, que não apareceu por motivos que os próprios pais não souberam explicar.
Mas a jovem já estava grávida. Por isso é que os velhos Mutinde e Nsaka resolveram aparecer para tentar corrigir o que a tradição considera uma falta de respeito que o filho cometera contra a família da noiva.
Adelina desatou a chorar. A sua família questionava com a ausência do noivo e dos restantes produtos exigidos para a realização do acto tradicional.
No mês seguinte, Julho, Vado deslocou-se à capital do país para, junto dos familiares da noiva, se desculpar do que acontecera. Foi obrigado a pagar várias multas e o alembamento foi novamente realizado. Os produtos em falta no primeiro alembamento foram entregues no segundo. O Vado esteve presente e depois da cerimónia levou consigo a mulher.
Perante este quadro e segundo o historiador e professor universitário, Pedro Quiamesso, a origem do alembamento encontra-se inserida no quadro de uma necessidade histórica e social. O alembamento existe no sentido de se criarem determinadas condições e imposições sociais de forma a manter a ordem social dentro de parâmetros bem delineados.
No passado, e mesmo em alguns círculos actuais, o cumprimento dos usos e costumes é considerado como sagrado. O não cumprimento implica ameaça de morte, desgraça, infidelidade para com a comunidade e especialmente para com os mais idosos, que sempre seguiram à risca o cumprimento rigoroso das regras que regem a sociedade tradicional.
Nos dias de hoje, o alembamento converteu-se num acto ancestral sacralizado, tendo em conta as ameaças e as pragas mergulhadas no mito de que sem a realização desta cerimónia surgem consequências imprevisíveis no lar, como a não procriação, o que faz com que muitos observem o cumprimento escrupuloso da realização do acto.
O alembamento é uma espécie de aliança familiar, em que os presentes trocados durante a cerimónia são o sinal externo do pacto a ser realizado e a garantia da indissolubilidade do casamento tradicional, que nos dias de hoje se transformou numa verdadeira fonte de receitas.
É um acto tradicional que defende o conceito de família extensa, em que o elemento de ligação não é o sexual, entre marido e mulher, mas de geração, de pais para filhos. É nesta perspectiva que tem de ser analisado o casamento tradicional, o seu ritual, os seus impedimentos, as regras a observar e todos os demais requisitos exigidos, cujo cumprimento é mantido por uma forte pressão social, tradicional e familiar.
O alembamento representa a aliança entre duas famílias, pelo facto da cerimónia cingir-se mais num acordo feito entre as famílias do que entre os próprios noivos, que são os personagens principais do acto. Mais, o alembamento sofreu e continua a sofrer mudanças, isto de acordo com o nível de desenvolvimento económico da sociedade uijense.
Na província do Uíge, o dinheiro e as coisas exigidas para a realização do alembamento, variam de família para família. Cada uma determina o montante, a qualidade e a quantidade de produtos a serem entregues pela família do noivo. Os valores a serem postos na carta de pedido vão dos cem a 500 dólares americanos.
Tendo em conta a diversidade cultural dos angolanos desta região do país, surgem várias divergências entre as famílias bakongo, por causa das grandes diferenças que se registam no cumprimento dos requisitos exigidos, sobretudo em alguns municípios, como Damba, Maquela do Zombo, Quimbele.
A recusa das regras impostas a uma determinada família a quem é exigido o cumprimento escrupuloso deste rito resulta muitas vezes em grandes pancadarias e em mortes. Diz a história de angola que o homem que vive com uma mulher sem antes pagar o dote permite muitas vezes o surgimento de divisões entre as famílias materna e paterna da mulher. Produtos como cerveja, gasosa, whisky, vinho, maruvo, fato, pano holandês ou super wax, sapatos, chinelas, cobertor, galinha, cabrito, sabão, e açúcar são exigidos pelas famílias uijenses.
No alembamento, o homem, em primeiro lugar, faz a entrega da carta de pedido acompanhado do kamalongo, valor monetário determinado pela família da mulher.
Na carta, o homem manifesta o desejo de se tornar noivo ou futuro marido de uma determinada rapariga. A família da mulher, em resposta ao pedido de noivado feito pelo candidato, envia uma carta à família do marido onde exprime a sua satisfação em poder receber o pretendente, anexando, na missiva, uma lista que acaba por definir as quantidades de produtos diversos que o homem deve levar para a consumação do chamado casamento tradicional, alembamento, representando assim a segunda parte deste processo.
Depois de feita a entrega das coisas à família da mulher, o homem é autorizado a assumir a rapariga como mulher. Em Maquela do Zombo, por exemplo, há o chamado kinjitikila, quer dizer, que tudo quanto foi dado pelo homem à mulher, durante o período de namoro, a família desta considera como sendo uma verdadeira prova de amor. E reconhecem-no como genro.

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