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Um sustento possível escavado no leito do rio

Estácio Camassete|Huambo

 Na província do Huambo está a crescer a exploração de inertes. Diariamente, os rios, riachos, montanhas e outros locais não autorizados, são assaltados por garimpeiros ilegais, que vasculham areia e pedras para vender a pessoas que procuram material para a construção.

Ex-militares e jovens desempregados alegam que recorrem ao garimpo de areia e pedras a procura de sustento para eles e suas famílias
Fotografia: Francisco Lopes

 Na província do Huambo está a crescer a exploração de inertes. Diariamente, os rios, riachos, montanhas e outros locais não autorizados, são assaltados por garimpeiros ilegais, que vasculham areia e pedras para vender a pessoas que procuram material para a construção. Os jovens e os ex-militares, que são a força mais utilizada, consideram o negócio rentável. Mas também há mulheres. No Rio Kaluyele, na localidade do Lufefena, arredores da cidade do Huambo, localiza-se a chamada “Parada Kaluyele”, local onde os garimpeiros procuram meios de subsistência.
 
Nas margens do rio, todos os dias, mais de cinquenta garimpeiros trabalham arduamente. Alberto Carlos comanda o grupo porque se considera dono da zona por ser um dos mais antigos exploradores de areia daquela área. Residente no bairro Kasseque, é ex-militar e desempregado. Cava areia há mais de oito anos. O chefe da “Parada” diz que o negócio é rentável, principalmente no tempo seco, mas considera o trabalho difícil. “É preciso ter coragem e força para fazer este trabalho. Mas, como não temos outra fonte de sustento, é só aguentar,”justifica.
Alberto Carlos reconhece que o rio é pequeno para esta actividade e acredita mesmo que mais cedo ou mais tarde o garimpo pode vir a ter outras consequências para o meio ambiente, “mas não tenho outra saída”, justiça-se, sublinhando que aquela foi a fonte que encontrou para a sua sobrevivência e da família.
No rio Kaluyele os garimpeiros estão divididos em 14. Os seus elementos saem dos bairros periféricos de Lufefena, Kasseke I e II, Kalundo e Kalombrinco e o trabalho de todos os dias consiste em cavar areia. Alberto Carlos diz que o trabalho é feito por etapas, sendo a primeira a extracção da areia do rio para a margem, a segunda fase a selecção das pequenas parcelas de lodo e a última é amontoar areia em locais seguros, onde a água da chuva não tem possibilidades de chegar e os carros alcançam com facilidade, para o carregamento.
À espera do produto ficam os camionistas que, depois de terem os camiões carregados de areia, vão revendê-la na cidade a 25 mil kwanzas, montante que tem a descarga incluída. Ainda assim, vendem mais barato do que as empresas legais que cobram pela mesma quantidade 30 mil kwanzas.
Muitos clientes dizem que preferem comprar no mercado paralelo porque, oficialmente, além de mais caro é mais moroso, pois o cliente tem de esperar pela autorização do chefe da empresa e pela facturação. O processo, de acordo com alguns clientes, pode levar dois ou três dias.
Imaculada da Conceição tem 30 anos de idade e dedica-se ao garimpo da areia há sete. Argumenta que faz este trabalho porque não tem emprego e precisa de sustentar e formar os seus quatro filhos.
 “Tenho filhos a estudar e não gostaria que amanhã eles também tenham de explorar areia no rio. Eu, como mãe, é que tenho que preparar o seu futuro, por isso estou aqui todos os dias”.
Imaculada quer mudar de emprego, por isso promete que se encontrar um que lhe garanta o sustento da família deixa o garimpo, que considera cansativo e está a prejudicar a saúde de muita gente. “Além dos muitos esforço que fazemos, passamos muitas horas com os pés na água. Mas o que fazer?”

Actividade no rio Kussava
 
No rio Kussava, o movimento é intenso. O posto localiza-se no bairro Benfica, na zona Norte da cidade do Huambo. No local, são visíveis profundas escavações causadas por mais de 30 anos de exploração de areia feita por várias empresas e pessoas singulares.
Joaquim Mateus explora areia no rio Kussava há mais de 15 anos e confessa que construiu a sua própria casa com o dinheiro do garimpo. O local é um dos poucos na cidade do Huambo que fornece areia desde o tempo colonial e é conhecido pelas suas grandes reservas de inerte, porque a maioria dos edifícios da cidade foi construída com material dali extraído.
O rio Kussava abastece de areia mais de vinte camiões por dia. A zona é muito arenosa, mas nos últimos dias está a perigar a vida, principalmente de crianças que para lá se dirigem em lazer. As máquinas, ao tirarem areia, deixam enormes e profundas lagoas que se enchem de água e se tornam perigosas.
A exploração é feita por empresas legalizadas e por garimpeiros ilegais que acabam por absorver mais clientes, porque vendem mais barato, apesar das dificuldades de carregamento.
 
 As pedras também dão lucro 
 
A província do Huambo, pelo seu relevo montanhoso, tem condições para fornecer pedras aos exploradores legais ou ilegais. A pedra abunda em toda a parte da região, o que tem sido aproveitado por populares para fazer negócio.
As pessoas começam a recolher as pedras salientes, depois retiram as enterradas e na última fase abrem com enxadas e picaretas crateras de mais de cinco metros de profundidade.
A região de Kassoko, a mais de 15 quilómetros do município da Caála, é a mais concorrida. O trabalho começa muito cedo para aproveitar a frescura matinal. É um trabalho que requer força, mas ainda assim está a ser massivamente praticado por jovens, homens e mulheres e até por adolescentes.
Sabino Domingos diz que o Kassoko é rico em pedra e os trabalhos de escavação e queimadura são feitos em três ou quatro dias, dependendo da força de cada um, destinando-se os seguintes à selecção das mesmas e carregamento, caso apareça cliente.
Confessa que a actividade, além de ser dura, também requer muita perícia, porque é necessário colocar-se fogo em cima das pedras para as quebrar antes de serem extraídas. “Caso contrário, a produção baixa e não se ganha quase nada”, explica.
Os populares que praticam este trabalho não temem o tamanho, a altura, nem o peso da pedra, porque, de acordo com eles, o segredo é colocar fogo de lenha para no dia seguinte encontrar a pedra ferro bem partida e fresca, pronta para ser amontoada, vendida para a construção.
 Uma carrada de 16 metros cúbicos custa 12 mil kwanzas no local da exploração, enquanto na cidade esta fica ao preço de 350 mil kwanzas. Na região da Pedra Cuca, a “caça de pedra” devastou as montanhas, com escavações consideráveis devido à quantidade e qualidade do granito que dali se retira. 

Visão de um ambientalista
 
O ambientalista César Paquissi afirma que a exploração desregrada de inertes na província está a danificar o meio ambiente. “A extracção de pedras pode criar grandes crateras, ou ainda desgastar as montanhas e fazer desaparecer algumas pedras que serviam de resistência aos solos e até mesmo de referência à comunidade”, alertou
Esta actividade, que actualmente envolve muitas pessoas em diferentes pontos da província, é particularmente nociva para o meio ambiente, uma vez que, ao longo dos rios, os lugares reservados para o cultivo deixam de ter esse uso, o que afecta a produção agrícola. Além disso, tendem a provocar erosões e o abaixamento dos vales, o que origina o desaparecimento de espécies que habitam nas encostas do rio.
“Quando se tira areia do meio do rio, seguem algumas partículas de terra o que, aos poucos, faz baixar o caudal e quanto mais profundo for, menor é também a disponibilidade da água para a vegetação que estiver nas margens e junto dos rios”, explica o ambientalista.
 Assim sendo, César Paquissi é da opinião que a exploração de areia pelas empresas deve ser feita numa extensão de 40 metros, paralela ao rio. “Quando determinada empresa chegar ao limite, ela tem de requerer outra licença para exploração de outra área, enquanto o local degradado se recupera”.
Sem ser um apologista da proibição pura e simples, afirmando que é “complicado proibir a exploração de areia num rio qualquer, porque de muitos deles depende o sustento de muitas famílias”, recomendou, contudo, que sejam avaliados todos os ângulos da questão.

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