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Viagem de Saurimo a Nzagi pela estrada dos diamantes

Adão Diogo, Flávia Massua | Saurimo e João Silva |Dundo

A estrada que liga Saurimo ao Dundo estava em péssimo estado e era um autêntico cemitério de molas e semi-eixos das viaturas.

A utilização de material frágil na etapa de reabilitação deixou a estrada com aspecto de estaleiro
Fotografia: Francisco Bernardo

 A estrada que liga Saurimo ao Dundo estava em péssimo estado e era um autêntico cemitério de molas e semi-eixos das viaturas. Os técnicos arregaçaram as mangas e resolveram recuperar a estrada do progresso. Deposição alternada de pedras e terra, ao longo dos 300 quilómetros da via que vai a Saurimo, capital da Lunda-Sul, ao Lucapa e ao Dundo, capital da Lunda-Norte, ressaltam do trabalho inicial de reparação da estrada 230. Ainda há troços muito difíceis, mas a nossa equipa de reportagem percorreu 385 quilómetros da via, numa viagem iniciada em Saurimo, passando por Lucapa e Dundo até à vila do Nzagi.
 
 A estrada está cheia de brita e de lama. As chuvas dificultam os trabalhos e tornam a condução perigosa. Automobilistas que habitualmente frequentam a via, criticam o estreitamento das faixas de rodagem, por deposição desregrada de montes de terra vermelha e pedras de tamanho fora do habitual, que servem de calços aos camionistas. Mas para a “caixa” da estrada ficar em condições, precisa de solos seleccionados e de muita brita.
O desafio de radiografar os 150 quilómetros que separam Saurimo do Lucapa, culminou na cidade do Dundo, província da Lunda-Norte, antes da deslocação posterior à vila de Nzagi, município de Cambulo, numa viagem iniciada pelos repórteres por volta das seis da manhã.
 O céu cinzento e no Leste quando o sol desaparece nas nuvens indica chuva. Mas mesmo assim a nossa reportagem continuou a aventura que se transformou em notícia. 
No início da viagem a estrada está em bom estado e por isso os quilómetros são percorridos a uma velocidade aceitável. Mas ao fim de 17 quilómetros a festa acabou. A partir do troço inicial a condução foi dominada por travagens sucessivas e um ziguezaguear que exige agilidade na mudança de velocidade e garra ao volante.
O volume e complexidade dos obstáculos são uma prova de fogo para os repórteres. A marcha lenta desvaloriza o acelerador. O mau estado da via exige pausas demoradas para manutenção das viaturas, repouso dos braços e do corpo e até para comer. A nossa reportagem faz pausas para fotografar a via obrigatória de acesso à província da Lunda-Norte.
A nossa reportagem parou para falar com Adolfo Chihiluca e Genito Adolfo, dois miúdos que em vez de estarem na escola empunham pás e tapam os buracos com terra recolhida das bermas da estrada. Uma corda esticada no sentido transversal da via, gritos e acenos, marcam a actuação dos jovens, que pedem aos automobilistas “gasosa” pelo trabalho feito nas proximidades do bairro Sweje, a cerca de 25 quilómetros da cidade de Saurimo.
Desde a saída de Saurimo já passaram três horas e Lucapa desponta no horizonte. Ontem, a vila foi famosa e hoje está marcada pela falência do garimpo de diamantes, que a uns gerou riqueza e a outros ruína. A própria vila está arruinada.
 O fim do troço asfaltado dá lugar a uma estrada de terra batida, cuja tentativa de terraplenagem fracassou. As obras tinham como meta a localidade de Camissombo, mas inúmeras irregularidades, facilitadas pela utilização de material frágil na etapa de reabilitação, deixaram a estrada com aspecto de estaleiro. Mais à frente a estrada é larga e com piso em estado aceitável. Desemboca num troço asfaltado.

 Chegada ao Dundo

Uma fábrica com capacidade para produzir 140 toneladas de asfalto por dia, outra fábrica de chapas de zinco, uma escola média politécnica e a limpeza de uma área de 15 hectares para loteamentos saltam à vista de quem entra no Dundo.
A fidelidade ao modelo arquitectónico tradicional é nota impressionante na cidade e nos bairros periféricos.
 Carcaças de aviões destruídos despontam do capim alto que circunda a cerca do aeroporto, com a velha aerogare degradada e ao abandono. A presença das máquinas para garantir o betume asfáltico perspectiva o arranque dum programa de reabilitação de ruas, fartas de buracos, onde o movimento de viaturas e motorizadas está longe de preocupar o peão. No Dundo é tudo calmo e ninguém perde a paciência nos engarrafamentos, porque não existem.
Mangueiras ao longo das ruas e nos quintais, jardins das casas cuidados, são o retrato da “vila mineira” da DIAMANG, do município do Chitato, que fica a sete quilómetros e onde estão os serviços administrativos do governo.
A barragem do Luachimo, a menos de um quilómetro, garante a iluminação à cidade e é um dos atractivos turísticos da província.
O Carnaval está à porta e criou oportunidade para todos apreciarem os dotes de dança do grupo infantil feminino Kwliva, composto por 20 meninas, encabeçadas por Marta Chissola, 14 anos, que aposta na conquista do quinto título, exibindo o estilo de dança txianda, caracterizado por movimentos eróticos.
 
Rumo ao Nzagi

O jornalista João Silva é o guia da equipa de reportagem rumo ao Nzagi, sede municipal de Cambulo, a 85 quilómetros do Dundo. O castanho dos telhados ensombrados pelas copas de árvores centenárias é visível a um quilómetro da vila. As ruas são amplas e já tiveram asfalto. As casas, escolas e infra-estruturas sociais estão bem alinhadas, apesar da degradação.
 Uma rotunda mostra o nome da vila, à entrada da avenida principal. Numa das ruas de Nzagi, Maria Calumbo e Madó Calumbo vendem ginguba fresca ou assada, que transportam nas bacias que carregam à cabeça. São ainda meninas mas nunca foram à escola. Dizem que têm de fazer a zunga para ajudar a casa, onde vivem com os pais, dependentes daquilo que o campo dá.
Os principais bancos angolanos têm balcões no Nzagi, reflexo da oportunidade de negócios gerados pela exploração de diamantes. Nzagi tem a fama de ser a segunda capital da província da Lunda-Norte.
 
Oficinas da Endiama

O Departamento de Oficinas Gerais da Endiama compreende áreas para mecânica, electricidade e recauchutagem. O empreendimento, durante 50 anos, deu assistência a todo o equipamento  ligado  à exploração de diamantes. Hoje só restam escombros.
 As paredes estão firmes, mas os tectos desapareceram e o equipamento hoje é apenas sucata. Os antigos trabalhadores fazem ali alguns biscates para sobreviverem. Nzagi está à espera de melhores dias no negócio de diamantes para sacudir as ruínas e seguir em frente.

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