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Viagens pelo país juntam angolanos

Carlos Alberto |

A paz trouxe a reconstrução das vias rodoviárias em todo o espaço nacional, o que está a permitir a circulação de pessoas e bens.

A paz trouxe a reconstrução das vias rodoviárias em todo o espaço nacional, o que está a permitir a circulação de pessoas e bens. Os angolanos aproveitam as boas estradas para visitar familiares e também para conhecer melhor o país. Em tempos de paz, há um grande movimento de pessoas e mercadorias de dia e de noite.

Paulina Mazanza foi a Luanda visitar familiares. É a terceira vez este ano que vai à capital. Está de regresso a Mbanza Congo, sua terra natal, e ao bairro Kidito, onde vive. Está no mercado dos Kwanzas, dentro do mini-autocarro que a vai levar de regresso a casa e tem lotação para 13 pessoas. Confessa que viajar hoje por estrada dá uma sensação de prazer e aventura. Reconhece que antes da paz era impossível circular devido à guerra e à degradação das estradas.
André Macaia é o motorista da viatura. Conduz há 20 anos, e faz este percurso, no norte do país, há três. Olha para os ponteiros do relógio e afiança que a hora da largada é às 12 horas. Às 22h30 os passageiros chegam ao destino.
Antigamente, viajar até Mbanza Congo eram uma verdadeira odisseia devido ao péssimo estado da estrada. “Os motoristas que se aventuravam corriam o risco de permanecer na estrada uma ou duas semanas”, sublinhou André Macaia.
Agora grande parte da via de acesso a Mbanza Congo encontra-se em perfeitas condições, exceptuando o troço Libongos-Nzeto. “Do Nzeto a Mbanza Congo, a estrada é uma verdadeira pista, embora ainda só esteja terraplanada”, afirmou.
A única paragem é no desvio do Soyo, onde existe um pequeno mercado de comes e bebes. Durante duas horas, todos aproveitam para retemperar as forças, comer e beber algo, “enquanto o motor arrefece”.

Uíge-Negage
 
 À entrada do autocarro, o despachante Amândio Inocêncio faz o registo e a conferência das pessoas que entram na viatura. O preço até ao Uíge e Negage é de 2500 kwanzas.
Joaquim Camato é um dos passageiros. Aos fins-de-semana vai ao Uíge visitar familiares, rever amigos e, quanto mais não seja, para beber uns tragos de matombe, o maruvu da terra, seiva extraída do bordão.
Ele está preparado para fazer as cinco horas de viagem até ao Uíge, com uma ligeira paragem em Vista Alegre. Considera que a paz permitiu, com a reparação da rede viária, a circulação de pessoas e bens. Embora reconheça que, actualmente, a circulação automóvel para o Uige se realiza em condições de grande conforto, defende que é preciso reabilitar a pista do aeroporto porque, neste momento, os aviões só aterram na base aérea do do Negage. “Esta situação cria muitos problemas às pessoas que pretendem viajar de avião para a capital provincial”, disse Joaquim Camato.
Ele prefere viajar por terra para desfrutar a paisagem exótica, a flora exuberante e os trabalhos de reconstrução nacional, mas há aqueles momentos urgentes que obrigam a usar o avião.E quando é assim, os passageiros têm de ir para o Negage e depois seguem por terra para o Uíge. Mas o trajecto é curto e a estrada está boa.

Mercado dos Kwanzas

No mercado dos Kwanzas há um movimento frenético de pessoas e de viaturas. O vai e vem de passageiros e de táxis é constante. Os passageiros, com enormes embrulhos à cabeça, atropelam-se na ânsia de apanhar o primeiro carro para a zona de destino. “Senhor, por favor, onde se apanham os carros para Bula Atumba?”, questiona uma senhora na casa dos 50 anos. Um jovem, que conhece todos os meandros do mercado, aponta o dedo para a paragem de Bula Atumba.“É ali”. Quatro letras serviram para a localização da área onde estacionam as viaturas que fazem o percurso dos Dembos: Bula Atumba, Quibaxe e Nambuangongo.
O mercado Tunga Ngó, no bairro Rangel, é um dos muitos parques de partida de viaturas para o interior do país. O motorista Marcelino Chilanda está desesperado, porque há três dias que não consegue passageiros para o Cafunfo, município do Cuango, na província da Lunda-Norte. 
“Ultimamente, há poucos passageiros para o Cafunfo. Assim, não tenho outra solução senão esperar”, disse desalentado.
O transporte de passageiros é o meio de sobrevivência para muita gente e ficar dias a fio à espera de passageiros pode retirar o pão a muitas famílias. A viatura de Marcelino Chilanda leva 12 passageiros. No interior da viatura estão apenas cinco, dispostos a percorrer os mais de 500 quilómetros até Cafunfo. Mas a espera pode ser longa, porque o percurso só é rentável com o carro lotado. Há três anos que Marcelino Chilanda escolheu o Cafunfo para o transporte de passageiros. Para fazer o trajecto demora entre nove e dez horas. Reconhece que a viagem é desgastante, por isso permanece em Cafunfo três dias, para recuperar energias e aguardar por passageiros para Luanda. Elogia o estado da estrada até Xá Muteba. “Há pequenos problemas na estrada entre Xá Muteba e o Cuango”, disse, acrescentando que antigamente, com muitos sobressaltos, as viaturas levavam semanas a fio para atingir Cafunfo.Isménia Faria e uma irmã estão de malas feitas para viajar até ao Dondo, de onde são naturais. Este ano é a primeira vez que se deslocam à terra que as viu nascer. Estão na paragem do Tunga há dez minutos e estão convencidas que dentro de pouco tempo vão viajar para o Dondo. A viagem leva, no mínimo, três a quatro horas, com paragens obrigatórias em Catete e Cassualala onde há sempre a possibilidade de “ saborear uns cacussos”. Isménia Faria diz que em tempos idos, devido ao mau estado da estrada, levava oito a dez horas para fazer o mesmo percurso. Hoje, tudo mudou, para melhor. 

Malange mais perto
  
A cidade de Malange é o destino do motorista Afonso Kuyemba. Cobra por cada passageiro entre 2.500 e 3000 kwanzas, em função do volume da bagagem de cada um. Conduz um táxi há cinco anos. Faz uma paragem no Alto Dondo para o abastecimento da viatura e depois segue até Malange. Leva ao todo seis horas e 30 minutos, numa estrada que considera impecável. Elogia o esforço desenvolvido pelo Governo na reabilitação de estradas e pontes.
Com as obras na rede rodoviária, “Malange ficou mais perto”. Todos os dias milhares de pessoas circulam entre a capital provincial e Luanda.

Paragem na Canjala

Há 12 anos que Custódio Pedro, 58 anos, transporta passageiros, faça sol ou faça chuva. Já conduziu viaturas ligeiras e pesadas. Agora está ao volante de um mini-autocarro, cujos lugares não tardam a ser preenchidos. Em menos de nove horas, a viatura chega a Benguela, com paragens no Longa e na Canjala.
Conta que tudo corre bem, porque a estrada “está um mimo”, a despeito de alguns furos ou avarias nos rolamentos.
Manuel Jacinto é um jovem que dirige um parque de estacionamento dos mini-autocarros que se deslocam para o Sumbe, Benguela, Namibe e Lubango. O espaço tem actualmente seis viaturas.
Revelou que o parque movimenta, diariamente, entre 300 e 600 passageiros que se dirigem para o Sul do país. O número de passageiros aumenta muito sobretudo nos fins-de-semana e feriados. No feriado prolongado da Páscoa, o número de passageiros passou dos mil.
Manuel Jacinto diz que as pessoas se deslocam aos vários pontos do país para conhecer, com profundidade, Angola, algo que era impossível nos tempos em que a guerra assolou o país. “Hoje, com a paz, há uma forte tendência das pessoas conhecerem as lindas paisagens angolanas, outros hábitos e costumes, além do grande prazer que é viajar por estrada”, rematou Manuel Jacinto.

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