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Vila madeireira faz progressos

Alberto Coelho |Cabinda

Bem no coração da floresta do Maiombe, o município do Buco Zau está a curar as feridas da guerra e já ocupa, no contexto nacional, o lugar que lhe é devido, porque é o maior produtor de madeira em Angola.

Administradora Marta da Conceição Lelo
Fotografia: Rafael Tati

 

Bem no coração da floresta do Maiombe, o município do Buco Zau está a curar as feridas da guerra e já ocupa, no contexto nacional, o lugar que lhe é devido, porque é o maior produtor de madeira em Angola. Os esforços da administração local e da sua população convergem para colocar o município madeireiro na rota do desenvolvimento e do progresso social.
 
Buco Zau ascendeu à categoria de vila a 15 de Março de 1957. O Jornal de Angola foi ouvir  administradora, Marta da Conceição Lelo, para saber o que está a ser feito para melhorar o nível de vida da população e conhecer os projectos que vão proporcionar o seu desenvolvimento sócio-económico.
Marta da Conceição Lelo referiu que Buco Zau tem em execução ou em carteira muitos projectos económicos e sociais, que visam proporcionar uma vida melhor e bem-estar aos 40 mil habitantes da vila do Maiombe.
“No quadro do Programa de Investimento Municipal, temos neste momento a  reabilitação do hospital Alzira da Fonseca, que uma vez concluídas as obras passa a ser uma unidade regional de referência, para atender os municípios mais ao norte da província. Também temos em construção o pavilhão gimnodesportivo e estamos a construir uma escola do primeiro nível e um posto médico no Necuto. Está igualmente em curso a reabilitação de estradas nacionais e secundárias”, disse à nossa reportagem a administradora Marta da Conceição Lelo.
No Buco Zau foi concluída a construção de três escolas, quatro residências geminadas para funcionários e está na sua fase conclusiva a construção de um edifício para os serviços da Administração Municipal. Marta da Conceição Lelo referiu que houve uma atenção especial para se melhorar as condições de funcionamento e habitabilidade das administrações comunais, começando pelo Inhuca onde já foi reabilitada a sua sede, que estava em péssimas condições, e a residência do administrador. Também foi construída uma residência para o administrador adjunto.
Este ano, garantiu Marta da Conceição Lelo, o Necuto vai ter uma atenção especial porque vive maiores  dificuldades e precisa de uma intervenção do governo da província, uma vez que a comuna não dispõe de infra-estruturas administrativas. “Com o dinheiro do Fundo para Gestão Municipal vamos construir residências para os administradores e os restantes projectos para o Necuto vamos concretizá-los em coordenação com o governo da província, porque a ele compete a construção de infra-estruturas administrativas”, disse Marta da Conceição Lelo.
Muitos projectos de reabilitação e ampliação de infra-estruturas escolares foram concluídos em várias localidades do município no âmbito do dinheiro disponibilizado pelo Fundo de Gestão Municipal.
Marta Lelo referiu à nossa reportagem que a descentralização financeira, que está a ser desenvolvida em quase todos os municípios do país, trouxe muitas oportunidades para o Buco-Zau, “porque alguns problemas podem agora ser resolvidos ao nosso nível sem necessidades de  recorrermos ao governo da província e gerimos o dinheiro executando projectos dentro da nossa competência”.
Os valores do Fundo de Gestão Municipal têm como finalidade garantir a manutenção e extensão da rede pública e saneamento básico, mas devido a algumas necessidades manifestadas pela população, a administração do Buco Zaudo foi obrigada a executar trabalhos que não são da sua responsabilidade, como é o caso da construção de escolas. “O Fundo de Gestão Municipal foi muito importante porque nos ensinou a caminhar sozinhos”, disse Marta da Conceição Lelo.  
No âmbito do projecto de reabilitação de estradas, a administradora do Buco Zau lamentou a morosidade que se regista na reparação da via entre o Dinge e o Necuto, já que as populações se queixam constantemente dos constrangimentos que advêm da situação. “A sua reparação começou em 2008 e até agora a via está paralisada e oficialmente não sabemos as razões e também desconhecemos se, de facto, os contratos foram ou não celebrados”.

Dificuldades na saúde

A administradora Marta Lelo informou que a situação da saúde no município é precária, porque os doentes estão a ser tratados em más condições e em unidades com falta de espaço. “Há mais de sete anos que as obras de reparação do hospital local não terminam, o que está a causar sérios constrangimentos no que concerne ao atendimento dos doentes”, disse.  
A empreitada já passou pelas mãos de duas empresas. A primeira, uma empresa local, não honrou os compromissos e o governo da província rescindiu o contrato. Depois  a obra foi adjudicada a uma segunda empresa que há mais de três anos não consegue cumprir os compromissos.
“Já fizemos muito para que a empresa conclua a obra e todos os esforços foram em vão”, lamentou a administradora, que considera haver um certo desleixo e falta de capacidade financeira para a empreitada que a construtora assumiu. Marta da Conceição Lelo mostrou-se muito agastada com a situação, porque os doentes continuam a ser atendidos em condições de extrema precariedade num espaço impróprio e improvisado.
Outra obra importante que está paralisada é a reabilitação e ampliação do Hospital Regional Alzira da Fonseca, que tem como objectivo atender os pacientes dos municípios de Buco Zau e Belize, sobretudo nos casos em que os centros médicos periféricos não têm capacidade de atender. Para além da situação ligada às infra-estruturas, o sector da saúde enfrenta problemas de falta de fármacos e ambulâncias. A produção e abastecimento de energia eléctrica à população é outro quebra-cabeças que tira o sono à administradora Marta Lelo. Neste momento, o município está a consumir um megawat, produzido a partir de dois grupos geradores, cuja gestão está a cargo da empresa Aggreko. “A capacidade de produção de energia já não é suficiente e precisamos de, pelo menos, dois MW para contentarmos a demanda.”
Já lá vai o tempo em que o município produzia energia eléctrica que chegava para consumo permanente. Com o aumento da população, a produção actual exige cortes em determinadas fases do dia.
 
Educação e habitação
 
No sector da educação, o município tem 55 escolas do primeiro nível em funcionamento, três do primeiro e uma do segundo ciclos. Marta da Conceição Lelo disse que o corpo docente no município é suficiente para a procura e não há razões de queixa.
O desafio de momento no Buco Zau é levar o ensino médio à comuna do Necuto, já que  os alunos que terminam a 9ª classe ficam impedidos de prosseguir os estudos.  “Temos muitos alunos com a nona classe feita e que não conseguem continuar os estudos no ensino médio. Esta é a grande dificuldade que estamos a tentar resolver e já contactamos a Direcção Provincial de Educação para nos autorizar a criar algumas turmas da 10ª classe até que se instale o instituto médio na comuna”, disse Marta da Conceição Lelo.        
O abastecimento de água potável à população é regular e a Estação de Tratamento de Água garante o abastecimento de água potável a Buco Zau e arredores. Segundo disse Marta Lelo, essa distribuição está, por enquanto, restringida porque a rede não atinge todas as áreas. “Neste momento temos em execução um projecto de ampliação da rede para atendermos um universo maior de pessoas, sobretudo nos bairros circunvizinhos da vila”.No quadro do programa “Água para Todos”, Buco-Zau beneficiou de dois projectos. O primeiro, já concluído, foi executado na comuna do Inhuca e já fornece água à população, enquanto o outro está a ser instalado na localidade dos Micumas, mas encontra-se paralisado. Apenas foram construídos os fontanários e as lavandarias faltando concluir a instalação da rede de distribuição.
“A Direcção das Águas justifica que a situação se deve à avaria do equipamento que faz os furos da água. Há dois anos que este projecto está paralisado”, lamentou Marta Lelo.
A administradora de Buco Zau disse à nossa reportagem que estão a ser executados, desde o ano passado, três projectos de abastecimento de água nas zonas rurais, cujas obras decorrem a bom ritmo “e temos esperança de que daqui a alguns meses os habitantes dessas áreas venham a ter dias melhores”.
No capítulo habitacional, há um projecto do governo da província de construir 60 vivendas. A empreitada, iniciada no ano passado, está paralisada, porque foi dada prioridade ao  projecto do município de Cacongo onde estão a ser construídas 150 casas.       
 
Historial da vila
 
Buco Zau tem 40 mil habitantes, distribuídos pelas três comunas (sede, Inhuca e Necuto) e tem uma superfície de 2115 km2. É limitado a Norte pelo município de Belize, a Este pela República do Congo-Brazzaville, a Oeste pela República Democrática do Congo e a Sul pelo município de Cacongo.
O clima é tropical húmido com duas estações, a seca e a chuvosa, tendo uma temperatura média anual entre os 30 e 35 graus e a humidade relativa do ar atinge em média os 80 por cento. A bacia hidrográfica é constituída pelos rios Chiloango, Luáli, Lucucuto, Inhuca, Lufuindi e Lubambi. O morro de Mbata Bungo, na comuna de Necuto, com 485 metros de altura, é o ponto mais elevado do município. A produção local é basicamente agrícola, com o cultivo do café, banana, batata, inhame, dendém, ginguba, mandioca e feijão. O papagaio, o elefante, o gorila, o  chimpanzé e o macaco são os principais animais selvagens da região. Tem como  recursos minerais ouro, betume, pedra calcária, magnésio, fosfatos, diamantes e ferro.
A denominação de Buco Zau provém da aglutinação dos nomes Mambuco, antigo rei do Matchionzo e Nzau (elefante na língua local), já que a região era dominada pela presença de grandes manadas de elefantes. Com a aglutinação das duas últimas sílabas do rei (mbuco) e do nome do paquiderme Nzau, a região passou a denominar-se por Buco Zau.
Os reis de Matchionzo e Mambinga, contrariando o rei Muanhema, do Dinge, entabularam relações com os europeus, com o intuito de ajudá-los em vários domínios. Depois da sua instalação, os portugueses desenvolveram na região o comércio, utilizando como principal via para o escoamento dos produtos o rio Luáli. Assim surgiram as primeiras casas comerciais e o aumento da presença europeia.
O rei Mambuco Nzau tentou impedir essa presença, dificultando a actividade comercial dos europeus, derrubando árvores gigantes para interromper o curso normal do rio. Este esforço de nada valeu porque os portugueses conseguiram dominar completamente a região e a sua actividade comercial prosperava a um ritmo acelerado, o que permitiu a instalação do posto da circunscrição do Maiombe, na localidade de Londo.
Nessa altura, a Companhia Cabinda começou a desenvolver com toda a intensidade o cultivo do café, cacau e o palmar, dando assim origem à concentração de pessoas provenientes de outras partes de Angola, de Cabo Verde e São Tomé. Com o prosperar da agricultura, surgem em Buco Zau as fazendas  Alzira da Fonseca, Isaltina, Lucucuto e Pinto da Fonseca.
Com o desenvolvimento da rede comercial e da agricultura, Buco Zau ganha um estatuto privilegiado em 1938 com a nomeação de Miguel António Freitas Barros como director da administração civil e Vasco de Azevedo Carmo, como director da Fazenda.
Devido ao desenvolvimento que atingiu, o governo português construiu uma nova sede para a administração do Concelho junto da comunidade branca e transferiu o Concelho administrativo de Bata Sano para o centro, elevando, assim, a 15 de Março de 1957, Buco Zau à categoria de vila.    

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