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A difícil obtenção de crédito agrícola

Jaquelino Figueiredo | Soyo

O município do Soyo, este ano, está a receber chuvas abundantes, para alegria dos camponeses, que fazem a sua parte, que é trabalhar a terra, com vista à obtenção de uma colheita satisfatória.

O desenvolvimento de formas modernas de agricultura depende do acesso ao crédito
Fotografia: Jaquelino Figueiredo

O município do Soyo, este ano, está a receber chuvas abundantes, para alegria dos camponeses, que fazem a sua parte, que é trabalhar a terra, com vista à obtenção de uma colheita satisfatória. Mas apesar das condições naturais favoráveis e da boa vontade dos camponeses, a colheita não será igualmente abundante, por causa de factores limitativos como a prática agrícola rudimentar e o dificíl acesso ao crédito bancário.
A prática da agricultura ainda é feita de modo artesanal, numa perspectiva de subsistência familiar. A agricultura mecanizada ou empresarial não é uma realidade, dado que os camponeses não dispõem de verbas que possibilitem a aquisição de máquinas agrícolas. 
Da agricultura de subsistência ou familiar resulta uma colheita que não satisfaz a demanda local, atendendo ao crescimento demográfico sem precedentes que a região regista. O desenvolvimento de formas mais modernas de agricultura, que garantam maior produção, está dependente do fomento e do acesso ao crédito. 
Quando se dispõem a recorrer aos bancos os camponeses ficam desalentados com as exigências burocráticas e as taxas de juro onerosas. Como resultado, a agricultura no Soyo está impedida de se expandir para níveis mais altos de produção. Produtos como a mandioca, ginguba, banana-pão e de mesa e citrinos (laranja, tangerina e limão), que constituem a base alimentar dos habitantes do Soyo, são produzidos localmente em quantidades ínfimas.
Grande parte dos produtos mencionados e outros provêm dos municípios do Tomboco e Nóqui, na província do Zaire, bem como da região do Baixo Congo, na República Democrática do Congo.
“Para se acabar com esta dependência e garantir o sustento da população local, o Soyo deve procurar aproveitar as potencialidades que dispõe em termos de terras aráveis e desenvolver uma agricultura mecanizada para garantir maior safra.
Mas infelizmente, até hoje, continua-se a depender da agricultura tradicional ou de subsistência, pelo facto de não haver máquinas e outros meios para a realização da actividade agrícola em grande escala”, afirmou o responsável em exercício da área da Agricultura do município do Soyo, Pedro Aguiar dos Santos.   Segundo o responsável, dificilmente a produção agrícola actual vai satisfazer a demanda da população do Soyo, estimada em 116 mil habitantes. “Com o actual crescimento demográfico, urge uma agricultura em grande escala, com vista a aumentar as áreas de cultivo e satisfazer a demanda em termos de produtos básicos, o que vai reflectir-se nos preços dos principais bens de consumo”, disse.
As autoridades estão conscientes do problema e Pedro dos Santos acredita na mecanização do sector, nos próximos tempos. “Com a agricultura familiar não se consegue uma boa colheita para atender à densidade populacional local, porque o que cada família produz não serve para vender, apenas para o consumo caseiro”, acrescentou.
 
A campanha de 2010 
 
A presente campanha agrícola no Soyo, iniciada no passado mês de Setembro, conta com 19.837 hectares de terras aráveis preparadas manualmente por 39.675 camponeses associados e singulares. O processo de sementeira começou apenas em Novembro. Segundo Pedro dos Santos, o atraso das chuvas esteve na base do arranque tardio do processo de sementeira.  O sector municipal da Agricultura não está directamente envolvido na actividade agrícola. Apenas supervisiona e apoia materialmente os camponeses tradicionais. “Neste momento controlamos 39.675 famílias camponesas, que garantiram a preparação de 19.837 hectares, à razão de meio hectare por cada grupo familiar”, referiu Pedro dos Santos.
A presente campanha supera a anterior na ordem dos 26 por cento de terra preparada, já que, segundo a nossa fonte, “apareceram grupos com máquinas próprias, que estenderam as áreas de cultivo”.
O responsável confessou-se satisfeito com a intensidade das chuvas, apesar de tardias. “Vislumbram-se sinais de boa colheita, uma vez que não se registam, até ao momento, inundações. Efectuamos uma visita aos campos e constatámos que a semente está a germinar bem. Se tudo continuar assim, contamos com uma boa colheita no fim da campanha”, frisou. 
Pedro dos Santos garantiu à nossa reportagem que o seu sector tem projectos gizados para mecanizar a agricultura nos próximos anos. A Mecanagro, empresa de mecanização agrícola, já trabalha na província, estando neste momento a desenvolver uma actividade em grande escala no município do Tomboco. 
“No município do Soyo já se faz tarde a Mecanagro levar a cabo a mecanização do sector, uma vez que os camponeses já lançaram a semente à terra”, referiu. “Nas próximas campanhas, com a desminagem de grandes extensões dos campos, o sector vai desenvolver-se mais, de modo a garantir uma maior produção e a consequente auto-suficiência alimentar”, acrescentou.
 
Apoios do Governo

 
Os camponeses do Soyo beneficiam de apoios da área da Agricultura do Soyo, consubstanciados na venda, a preços módicos, de enxadas, machados e catanas.
A semente tem sido distribuída a título devolutivo, de modo a contemplar outros camponeses na campanha agrícola seguinte. “Sempre que tenhamos semente, os camponeses não a compram. Por exemplo, se o camponês recebe um quilo de ginguba, no fim da campanha devolve dois quilos, e assim sucessivamente”, disse Pedro dos Santos.
No próximo ano será implementado um programa de formação dos camponeses tradicionais. Esse programa vinha sendo adiado por falta de meios de transporte para os técnicos e formadores. “O município do Soyo é muito extenso e como sabemos o camponês vive na zona rural. Para lá chegarmos tem de haver um meio de transporte todo-o-terreno, por causa do mau estado das vias rodoviárias”, deu a conhecer o responsável.  O objectivo da acção formativa é transmitir aos camponeses o conhecimento das novas técnicas disponíveis para a prática da agricultura extensiva.
 
Crédito difícil
 
O Executivo aprovou um montante de 300 milhões de dólares para o fomento da agricultura, mas os camponeses da província do Zaire dizem que encontram enormes dificuldades para aceder a esse dinheiro através dos bancos comerciais. 
José Nkai, fazendeiro que actua na região do Tomboco, disse à reportagem do Jornal de Angola que existe uma excessiva burocracia na concessão de créditos bancários. “O Governo Central, através do Banco de Desenvolvimento de Angola, alocou a verba aos bancos comerciais, para estudarem os projectos e procederem ao seu financiamento. Mas os bancos comerciais têm as suas políticas”, disse.
Segundo o fazendeiro, a concessão de crédito pelos bancos comerciais “não passa de um sonho que um agricultor pode ter”.
“É um processo sem fim, pela burocracia das instituições bancárias na região. Não há memória de um camponês, um agricultor organizado ou não, que foi a um banco apresentar um estudo de viabilidade, e logo de seguida lhe foram concedidos os valores disponíveis para a implementação do seu projecto”, frisou.
José Nkai acha que o Governo Central e os bancos comerciais deviam flexibilizar o processo, no sentido de viabilizar a concessão desse tipo de crédito, para alavancar a economia. 
“Os bancos nem sempre falam a verdade do que anda por trás da cortina. Para obter dinheiro de um banco é preciso ter um histórico e o agricultor actual nem sempre tem capacidade de criar um histórico num determinado banco”. 
Segundo a fonte, os bancos na província do Zaire não estão em condições de satisfazer a demanda. “Mesmo oferecendo como garantia a própria terra e outros bens que eventualmente podem ser penhorados a favor do banco, a burocracia é tanta que o investidor acaba por   desistir”, rematou.

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