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A felicidade no centro frei Zulianello

Víctor Mayala | Mbanza Congo

O centro de acolhimento Frei Giorgio Zulianello, em Mbanza Congo, província do Zaire, é um verdadeiro espaço de renovação de esperança e garantia de um futuro risonho para as crianças e adolescentes da região desamparados por vários motivos.

Crianças alegres e descontraídas encontraram no centro o acolhimento e nova vida que precisavam e posam para o fotógrafo acompanhadas do frei Danilo Grossele
Fotografia: Garcia Mayatoko

O centro de acolhimento Frei Giorgio Zulianello, em Mbanza Congo, província do Zaire, é um verdadeiro espaço de renovação de esperança e garantia de um futuro risonho para as crianças e adolescentes da região desamparados por vários motivos.
A instituição filantrópica, criada em 2006 com o propósito de acolher crianças que na altura eram rejeitadas pelas famílias por alegadas práticas de feitiçaria, é tutelada pelos padres da Ordem dos Frades Menores, capuchinhos, da Igreja Católica, espaço que neste momento alberga um total de 68 menores, dos quais sete do sexo feminino. As crianças recebem formação e educação para serem no futuro indivíduos úteis à sociedade.
Os motivos que levam os petizes ao centro Frei Giorgio Zulianello vão desde abandono, fuga à paternidade e acusações de práticas de feitiçaria. As acusações são feitas pelos próprios pais ou parentes próximos quando as crianças apresentam comportamento considerado “estranho” em casa.
A par da protecção que o centro garante, as crianças adquirem ali um conjunto de conhecimentos e habilidades para que possam ser no futuro homens e mulheres capazes de contribuir para o desenvolvimento da sociedade angolana. A direcção do centro tem estabelecida uma parceria com o Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP), para permitir que alguns adolescentes frequentem cursos técnico-profissionais nas suas unidades móveis de artes e ofícios. Assim é que vários adolescentes têm vindo a beneficiar todos os anos de cursos de carpintaria, electricidade e serralharia.
O funcionamento do centro de acolhimento Frei Giorgio Zulianello contempla também a componente de formação técnico-profissional, mas a sua materialização aguarda pela conclusão das obras do alpendre onde vão ser instalados os equipamentos para o ensino de especialidades como carpintaria, serralharia, electricidade e corte e costura.
Numa primeira fase leccionam o curso de informática. Os formandos não são apenas crianças ali residentes, mas também de fora que estudam a custo zero.
A ideia é salvaguardar a vida futura daqueles petizes desamparados para que, quando deixarem o centro, possam conseguir auto-sustentar-se. O centro tinha a denominação de “Santa”. Situava-se no bairro Sagrada Esperança, zona urbana de Mbanza Congo. Em 2010 o governador provincial do Zaire, Pedro Sebastião, mandou construir, através do Instituto Nacional da Criança (INAC), infra-estruturas maiores e com melhores condições de habitabilidade para acolher todas as crianças desprotegidas na região.
As novas instalações receberam a designação de centro de acolhimento e formação profissional Frei Giorgio Zulianello, em homenagem ao seu fundador, um prelado católico de nacionalidade italiana que morreu em Mbanza Congo, vítima de acidente aéreo ocorrido a 28 de Junho de 2007 no aeroporto local.
Localizado no bairro Mfumu, a três quilómetros da cidade de Mbanza Congo, o centro Frei Giorgio Zulianello é um exemplo que deve ser seguido pela sociedade na valorização da pessoa humana, através da salvaguarda da sua integridade física e da defesa dos seus direitos inalienáveis.
Com mais de dez anos de existência, a instituição, criada em 2006, é a única vocacionada ao acolhimento de crianças na região.
As novas infra-estruturas com capacidade para acomodar 80 crianças possuem condições materiais que permitem o acolhimento condigno dos menores. O grupo de educadores sociais é composto por 15 pessoas, entre as quais duas são madres, informou à nossa equipa de reportagem o director do centro, o italiano Frei Danilo Grossele.
O responsável esclareceu que todos os educadores sociais que contribuem para a formação e educação dos menores são pessoas rigorosamente capacitadas pelo Instituto de Ciências Religiosas de Angola em Luanda (ICRA).
O Centro de Acolhimento e Formação Profissional tem cinco dormitórios. A distribuição das crianças para os dormitórios é feita por idades. Também tem duas salas de estudos devidamente apetrechadas, sala de informática, auditório, lavandaria, cozinha, refeitório e área administrativa.

Deputados visitam o centro

Várias instituições e pessoas singulares têm se solidarizado com as crianças ali residentes, como é o caso de um grupo de deputados do MPLA pelo círculo eleitoral provincial do Zaire que visitou o centro em Junho, onde entregou um donativo composto por bens diversos, entre os quais merenda, brinquedos, mochilas, cadernos e lápis.
O deputado Garcia Vieira, que encabeçou a comitiva, explicou que a iniciativa visou o cumprimento de uma orientação da direcção do seu partido e inseriu-se na jornada comemorativa do mês da criança.
Os parlamentares brincaram, dançaram e transmitiram calor e carinho aos petizes com necessidades especiais de protecção da região. Durante o acto, os pequenos declamaram poesias, cujas mensagens repudiavam os actos de violência física e psicológica perpetrados pelos adultos contra as crianças.
Garcia Vieira salientou, na ocasião, que é responsabilidade dos adultos cuidar e educar as crianças para que amanhã possam ser os continuadores do processo de desenvolvimento do país.
“Estamos convictos de que aqui neste centro vamos um dia encontrar várias crianças que serão deputados e governadores, mas para que tal aconteça é preciso que ouçamos os conselhos dos mais velhos”, alertou Garcia Vieira, acrescentando que o MPLA, através do seu grupo parlamentar programou actividades do género que decorreram no mês de Junho em todo país.
O político aproveitou o momento para deixar um conselho às crianças: “quando forem adultos perdoem os vossos pais que vos abandonaram, porque não sabem o que fizeram”.
O parlamentar exortou ainda os baixinhos no sentido de aproveitarem a oportunidade para se dedicarem aos estudos para que possam ter um futuro melhor. A jornada de campo dos legisladores contemplou igualmente uma visita às crianças internadas no hospital municipal de Mbanza Congo, a quem ofertaram alguns bens.
Frei Danilo Grossele louvou o gesto dos deputados e desejou que o exemplo seja também seguido por outras pessoas e instituições, para o reforço contínuo das condições da instituição que dirige.
“Queremos continuar a ter estes encontros. Queremos também que haja muitos meses da criança, como estamos a viver hoje aqui”, disse frei Danilo, sublinhando que visitas do género trazem sempre consigo grandes valores como a amizade, solidariedade, estima e o encorajamento. À festa juntou-se também um grupo de cerca de trinta crianças afectas à Organização de Pioneiros de Agostinho Neto, que levaram na manga uma mensagem de encorajamento aos seus coetâneos que por atitudes maquiavélicas de alguns adultos viram-se distanciadas do afecto familiar.

Amor e carinho às crianças

Isabel Samuel, 9 anos, vive no centro desde Abril último. Chegou ao centro na companhia de seus dois irmãos provenientes do município piscatório do Nzeto. Ela e os irmãos, um do sexo masculino e outro feminino, foram acusados de serem feiticeiros pelos familiares da mãe. A menina revelou que viveram muitos momentos de tortura psicológica, que apenas teve fim quando as madres da Paróquia do Nzeto tomaram conhecimento da situação e foram a casa buscá-las. Um tempo depois foram transferidos para o centro Frei Giorgio Zulianello em Mbanza Congo.
Disse sentir-se agora feliz com o amor e carinho que recebe dos educadores sociais do centro. Felicidade esta que não sentia no seio da sua família.
Com um olhar inocente, Isabel Samuel contou à nossa equipa de reportagem que tudo começou quando um vizinho, supostamente feiticeiro, do bairro onde morava, aproveitando-se da ausência dos adultos de casa, chamou um dos seus irmãos e deu-lhe um pedaço de cana-de-açúcar.
Na noite seguinte o rapaz sonhou com o velho a pedir-lhe para matar a sua irmã mais velha em troca de cana-de-açúcar. O pedido foi rejeitado pelo menor, o que lhe custou a vida, tendo falecido por doença meses depois.
A partir daquele momento, Isabel Samuel e os irmãos começaram a sofrer agressões físicas e psicológicas por parte de outros parentes maternos, que alegavam ser eles os protagonistas da morte do seu irmão em conluio com o suposto vizinho feiticeiro.

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