Províncias

Abuso do álcool destrói os jovens

Kayila Silvina | Mbanza Congo

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas aumentou, nos últimos tempos, em Mbanza Congo, província do Zaire, onde jovens e adolescentes são apontados como os maiores consumidores.

Bebidas espirituosas vendidas aos pacotes num dos mercados informais da cidade de Mbanza Congo
Fotografia: Adolfo Dumbo

O consumo excessivo de bebidas alcoólicas aumentou nos últimos tempos em Mbanza Congo, província do Zaire, onde jovens e adolescentes são apontados como os maiores consumidores.
O fenómeno tem contribuído para a desestruturação de famílias na região, facto que preocupa as autoridades. Os especialistas alertam para as consequências que advêm do consumo desmedido de álcool mas sem êxito.
O responsável da secção para a Assistência Primária, Higiene e Epidemiologia do Hospital Central do Zaire, em Mbanza Congo, Domingos Dilukila, explicou à  reportagem do Jornal de Angola que o consumo excessivo de bebidas alcoólicas é responsável pelo surgimento de doenças cardiovasculares e perturbações psíquicas.
Nas mulheres grávidas, referiu, o uso do álcool e do tabaco faz com que os bebés nasçam com o peso abaixo do normal, ou mortos. O especialista acrescentou que há quem ainda use o tabaco para tratamento de patologias como a hérnia interna e asma na criança, o que é prejudicial para a saúde.
“O tabaco tem nicotina e ao ser utilizado para o tratamento deste tipo de doenças, pode trazer problemas graves à saúde da criança”, disse, para de seguida aconselhar as pessoas a evitarem práticas empíricas e a terem o hábito de procurar os serviços especializados da medicina convencional.

Tabaco em pó

Domingos Dilukila desencorajou também as pessoas que fazem uso de tabaco em pó, de preparo caseiro, um produto muito consumido pelos habitantes da região. O seu uso é feito por inalação e, segundo alguns consumidores abordados pela nossa reportagem, para além de estimular a mente, serve ainda para aliviar a gripe e irritações na garganta.
O modo de preparo é a trituração, num pilão, das folhas secas do tabaco, onde são adicionadas outras substâncias como cinza e flores da palmeira. Depois é colocado em pequenos frascos ou embrulhos, pronto para consumo ou comércio.
No mercado paralelo de Mbanza Congo várias as pessoas têm na venda de tabaco em pó o seu ganha-pão, uma vez que o produto tem muitos clientes. O preço dos frascos ou embrulhos varia entre os 20 e os 50 kwanzas.
Domingos Dilukila frisou que devido ao consumo exagerado de tabaco e bebidas espirituosas como whiskies em pacotes de plástico, o índice de propagação da tuberculose tende a crescer nos últimos tempos na região. Acrescentou que o Hospital Central tem recebido várias pessoas infectadas pelo bacilo de Cock, causador da tuberculose.
“Muitos whiskies em pacote têm origem desconhecida. São bebidas quentes ao contacto com a língua, imaginem que estragos pode provocar dentro do organismo”, afirmou, sublinhando que as pessoas devem aprender a lição que “o barato custa caro”.

Bebidas baratas

Em declarações à reportagem do Jornal de Angola, o comerciante do mercado paralelo de Mbanza Congo, Pedro Mendes, referiu que o baixo preço a que são vendidas algumas bebidas alcoólicas, está na base do aumento do consumo excessivo de álcool. “Whiskies em pacote das marcas caferoom, amarula e kizomba são os mais procurados, por estarem a ser vendidos a preços baixos, que variam entre os 20 e 30 kwanzas cada pacotinho”, disse. Pedro Mendes defende que governo deve tomar medidas para, pelos menos, reduzir a importação destes whiskies.
A reportagem do Jornal de Angola constatou que as bebidas espirituosas em pacotes proliferam nos mercados e estão ao alcance de qualquer um. De origem e qualidade duvidosa, estas bebidas alcoólicas, pelo preço baixíssimo a que são vendidas, constituem um verdadeiro apelo consumo dos jovens. Em muitas localidades estas bebidas substituíram as de fabrico caseiro, devido ao seu preço baixo e à aparência sofisticada.

Conselhos à juventude

O professor Manuel Gomes Panzo afirmou à nossa reportagem que “o consumo exagerado de bebidas alcoólicas ou outras drogas como a liamba, tem consequências desastrosas para o organismo humano, para além de criar na pessoa comportamentos voltados para a delinquência”.   
Gomes Panzo disse ainda que  “basta saber que o tabaco é um produto composto por monóxido de carbono, alcatrão e nicotina, para se concluir como é perigoso para a saúde humana”.
Manuel Gomes Panzo aconselhou os jovens, principalmente a população estudantil, a abandonarem o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas e apostarem na formação académica e profissional, para garantirem o seu futuro e contribuírem, nas tarefas da reconstrução nacional.
José Mabondo Nsoki, estudante do curso de física na Escola Superior Politécnica de Mbanza Congo, da Universidade 11 de Novembro, disse que “muitas pessoas entram no mundo das drogas e das bebedeiras, pela frustração resultante da falta de desemprego e outras situações sociais, sob pretexto de se distraírem ou esquecerem as malambas da vida”.
José Nsoki acrescentou que “os jovens devem tirar a ideia de se drogarem para esquecer os problemas, esta não é a solução. É preciso encontrar outras formas de resolvê-los. Não é ingerindo drogas, que só provocam transtornos mentais, que se vão resolver os problemas”, afirmou.
Afonso Nsambu Npanzu, estudante de psicologia no Instituto Superior Pedagógico, defende que “não é aconselhável, para quem estuda o consumo de grandes quantidades de álcool, uma vez  que é uma substância que altera o funcionamento da psique”.
Dada a grande proliferação de bebidas alcóolicas baratas e de qualidade duvidosa, o problema tem graves reflexos na saúde pública, o que está preocupar as autoridades.
Do ponto de vista económico, há quem sai a ganhar, e muito. Mas a saúde da pública e o futuro dos jovens estão em causa. Por isso, as autoridades devem averiguar se tais bebidas correspondem às normas de fabrico e consumo e se entram no país obedecendo aos regulamentos aduaneiros em vigor.

Tempo

Multimédia