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Ameaça de ravinas em Mbanza Congo

Víctor Mayala e Miguel Baú | Mbanza Congo *

As ravinas ameaçam destruir vastas áreas em Mbanza Congo, capital da província do Zaire. A situação, criada pelas chuvas abundantes que caem na região, ameaça isolar áreas do município sede.

Fotografia: google

Tal como vem acontecendo em várias cidades, vilas e kimbos do país, em Mbanza Congo, capital da província do Zaire, as ravinas, que se abrem com as chuvas abundantes que caem na região, ameaçam destruir vastas áreas daquela cidade histórica do Norte de Angola.
As chuvas que caem todos os dias em Mbanza Congo estão a causar o surgimento de enormes ravinas em algumas vias da cidade e da região, ameaçando, com isso, o isolamento de várias parcelas do município sede. A título de exemplo, a antes movimentada via que dá acesso à nascente “Santa”, onde os habitantes do bairro Sagrada Esperança acarretam água para consumo, está agora intransitável. Por ali, agora nenhum carro passa, ainda que com tracção às quatro rodas.
No passado dia 3, um jovem de 15 anos, identificado por Alexandre António,  caiu nessa ravina quando regressava, às 14 horas, a casa depois das aulas. A queda provocou-lhe um traumatismo craniano que o deixou por algum tempo inconsciente. Os transeuntes que o socorreram revelaram à nossa reportagem que várias pessoas já caíram naquela ravina em progressão no ano passado. Contam que uma moradora, Maria Bobeti, fracturou, no ano passado, uma perna em consequência da queda no local.
Na "Santa" existe um reservatório de água, agora em desuso, que servia de reforço ao antigo sistema de abastecimento de água potável à cidade e bairros periféricos de Mbanza Congo.
Com as constantes chuvas torrenciais que se abatem sobre a região, a ravina está a tomar proporções alarmantes. Os habitantes da região começam a temer pelas suas casas e vidas, se nada se fizer rapidamente para estancar o fenómeno.
Área densamente povoada, o Jornal de Angola constatou no local um cenário desolador e atentatório à integridade física de quem ali passa todos os dias, tendo em conta a profundidade da ravina.
O problema é ainda agudizado pelo comportamento incorrecto de alguns cidadãos que ali vão retirando pedras para construção de casa e comercialização no mercado negro. A erosão que os solos estão a sofrer e a desmatação que também se verifica são apontados como factores que contribuem para o avanço das ravinas na região. “Muita gente se esquece que os solos se mantêm compactos quando a acção do homem é racional e não nos parece que o seja quando retiram inertes de forma anárquica”, disse Manuel Simão, para quem uma campanha de educação ambiental devia ser levada a cabo no país, para que situações como as que se vivem agora deixem de acontecer.
Responsáveis da administração municipal de Mbanza Congo insurgiram-se, em tempos, contra este comportamento dos munícipes, mas Manuel Simão diz que isso não basta, é preciso que as autoridades se imponham, porque palavras leva-as o vento. “É preciso que o exercício da autoridade seja imposto. Quem reincidir que arque com as consequências que a lei, seguramente, prevê”, disse, acrescentando que o laxismo de alguns órgãos municipais estão na base de alguns males de que enferma a sociedade. “É preciso não tolerar actos que lesem os interesses da comunidade”, rematou.

Obras públicas 

Contactado pelo Jornal de Angola, o director provincial das Obras Públicas do Zaire, Augusto Neves Tiago, reconheceu o perigo que a ravina representa para a população. Disse ainda que o não acesso à nascente Santa representaria mais problemas para a vida das pessoas, que agora têm de fazer das tripas coração para conseguir água para consumo.
Questionado sobre as razões da morosidade para o início das obras de estancamento da ravina, o responsável das Obras Públicas do Zaire explicou que o facto tem a ver com as avarias das máquinas que neste momento estão a ser reparadas em Luanda.
“Queremos repor o parque dos nossos equipamentos, para que possamos actuar não só na ravina da Santa, mas também intervir nos trabalhos de recuperação das ruas da cidade de Mbanza Congo”, declarou, assegurando que o governo provincial vai reabilitar toda a via da Santa para torná-la cómoda à circulação de pessoas e bens.
“Estamos a trabalhar para ver se arrancamos com as obras ainda no presente ano. Além disso, pensamos submeter este plano ao programa das acções do Governo Central”, disse Augusto Tiago. 

Habitanbtes  lamentam

José Gomes, 20 anos, disse que a ravina tornou a via perigosa, mas por insuficiência de chafarizes no bairro são obrigados a arriscar as suas vidas para ir buscar água para consumo.
“A água da nascente Santa é limpa. Lamentamos apenas o facto de a ravina estar quase a cortar a estrada, o que vai, certamente, criar dificuldades às pessoas, uma vez que não temos fontanários de água próximo das nossas casas”, observou. Nsimba Maria, 18 anos, lembrou à reportagem do Jornal de Angola que Mbanza Congo tem registado carências enormes de água no cacimbo e a nascente Santa é considerada a bóia de salvação para a sua obtenção pelos habitantes daquela zona. Esta afirmação foi corroborada por Isabel Morena, que apelou, por esta razão, a quem de direito, para tomar medidas cautelares no sentido de estancar a ravina e fazer com que as pessoas voltem a utilizar a nascente Santa sem correr risco de vida.                            
                                          
Preservação do ambiente
 
No quadro das acções que visam fazer face aos problemas ecológicos resultantes das alterações climáticas que o mundo vive, o governo provincial do Zaire promete desenvolver, ao longo deste ano, vários projectos para a preservação do ambiente, segundo anunciou um técnico afecto à Direcção Provincial do Ordenamento do Território, Urbanismo e Ambiente.
Manuel António Salvador explicou ao nosso jornal que um dos projectos em vista tem a denominação “Estrada Verde” e consiste na plantação de árvores de espécies paisagísticas ao longo da estrada nacional Mbanza Congo\Luanda, para atenuar os efeitos do dióxido do carbono resultante da queima da vegetação, fumo dos carros e chaminés.
Outro projecto, já em execução, é o do melhoramento da instância turística do rio Tuco, um lugar de beleza exótica ímpar, e muito concorrido pelos habitantes de Mbanza Congo para momentos de lazer nos fins-de-semana.
Manuel António Salvador disse que a Direcção Provincial do Ordenamento do Território, Urbanismo e Ambiente elaborou um plano de intervenção para a criação de um aterro sanitário para tratamento de resíduos sólidos, que em breve vai ser implementado em colaboração com a Administração Municipal de Mbanza Kongo.
“Estamos a criar condições para encontrarmos um lugar ideal para a implantação do projecto de aterro sanitário. Vai ser também fundamental realizar campanhas de sensibilização das populações sobre as formas de manuseamento do lixo doméstico para não causar impacto negativo no meio ambiente”, esclareceu.
Segundo aquele responsável, os pescadores e as populações residentes no litoral da região estão a ser sensibilizados para a necessidade de cuidar das praias, mantendo-as sempre limpas, uma vez que são locais de trabalho e de lazer. O interlocutor advertiu que os resíduos pesqueiros estão proibidos de serem abandonados nas praias, sob pena de os prevaricadores verem a mão pesada da lei.

Polígono florestal 
 
Uma área de cinco hectares foi também delimitada na localidade do Tuco para ser transformada em polígono florestal. O projecto de carácter ambiental está a ser desenvolvido pela Direcção Provincial da Agricultura do Zaire.
Segundo o responsável daquele organismo estatal, Esteves Paixão, neste momento os técnicos trabalham na criação, na aldeia do Kunga Panza, de um viveiro onde foram colocados 820 sacos de polietileno com um total de 4.920 plantas de várias espécies, para o sustento do projecto do polígono florestal de Mbanza Congo. Na área do Tuco, prosseguiu o director provincial da agricultura do Zaire, vai ser ainda desenvolvido um outro projecto de cultivo de banana, manga, laranja, mamão e limão, tendo em conta as condições favoráveis que o seu solo apresenta.
Esteves Paixão revelou que o seu pelouro pretende também plantar árvores nas sedes municipais e comunais da província. Neste momento, o sector que dirige trabalha, em estreita colaboração com as direcções provinciais da agricultura de Luanda e Bengo, para aquisição de mais espécies de plantas. 

*Com Kayila Silvina

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