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Bispo apela à concórdia entre países vizinhos

João Mavinga | Mbanza – Congo

O bispo de Mbanza Congo, D. Vicente Carlos Kiaziku, condenou a onda de expulsões indiscriminadas de cidadãos angolanos que viviam, em situação legal, na República Democrática do Congo (RDC), felicitando,
 ao mesmo tempo, o Estado angolano por ter protegido os imigrantes congoleses residentes em Angola, muitos deles em situação irregular. Em entrevista, ao Jornal de Angola, o prelado Carlos Kiaziku, antigo secretário para África da Congregação dos Capuchinhos, direccionou
o seu discurso no apelo ao diálogo franco e aberto entre os dois países vizinhos para um desfecho feliz da actual situação de crise. De 52 anos, natural do município da Damba, província do Uíje, Frei Vicaki, como também é conhecido pelos seus antigos colegas de seminário, aconselha que se afaste definitivamente a cultura do ódio, da vingança e da discriminação e se cultive, entre angolanos e congoleses, o espírito do perdão. Licenciado em Ciências
de Educação na Pontifícia Universidade Salesiana de Roma, de 1994 a 1998, Dom Kiaziku já exerceu o cargo de definidor geral para África na Cúria dos Frades Menores Capuchinhos, em Roma, de 1999 a 2009

Bispo D. Carlos Kiaziku: "ninguém pode aprovar a expulsão dos angolanos. É um comportamento deplorável"
Fotografia: Adolfo Dumbo

 

 Jornal de Angola – O que pensa a igreja sobre as recentes expulsões de angolanos pelas autoridades da República Democrática do Congo, muitos deles a residir legalmente naquele país vizinho há várias décadas?

Dom Vicente Carlos Kiaziku
– A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) divulgou, no dia 13, um comunicado sobre a crise migratória no Congo Democrático. De uma forma geral, a exortação feita nesse comunicado é no sentido de se evitar a violência contra os imigrantes, seja do lado da RDC como de Angola. Exorta a deixar de parte o ódio, a vingança, a discriminação, para se apostar nos sentimentos de fraternidade e solidariedade no acolhimento, actos que constroem a família, a sociedade e a Igreja. É nesta linha de acolhimento, do amor, do respeito pelos irmãos imigrantes, dentro e fora de Angola, que a voz da Igreja se cinge. A voz da Igreja apela ainda à comunicação social que mantenha viva a chama da paz e reconciliação porque sabemos que, por causa de querer fazer justiça por mãos próprias, é possível que tenhamos o retorno da vingança.
 
JA – Como avalia a atitude das autoridades congolesas?

DVCK –
É um comportamento deplorável. A Igreja condena isso. Mas, infelizmente, às vezes, os jogos políticos têm dessas coisas. E quem paga são sempre as famílias inocentes. Ninguém pode aprovar actos desse género. Infelizmente, em África são cíclicos. Foi a nossa vez agora em Angola, mas, de quando em vez, há o registo de certa xenofobia, expulsando estrangeiros, considerando-os culpados de todos males, quando às vezes, não o são.

JA – Podemos concluir que há razões políticas da parte do Governo de Joseph Kabila para o despoletar da situação?

DVCK
– As relações entre os dois países são positivas, pelo menos a nível de Governos. Mas, não tenho a certeza de que sejam também em relação à oposição da RDC. O Governo angolano ao apoiar o Governo de Kabila não agradou a todos os congoleses, o que é natural. Dado que foi o parlamento congolês que aprovou a decisão de expulsar os angolanos, pode ser indirectamente uma punição aos angolanos, por ciúme do Governo de Angola apoiar o Governo de Kinshasa. Pelo menos, por parte de alguns parlamentares. Acho que um dos objectivos da oposição era estragar as boas relações, punindo os angolanos que lá vivem porque, no entender dela, são os que sustentam grande parte da economia da RDC.

JA – Na sua opinião, Joseph Kabila, na qualidade de Presidente da República, não devia tomar medidas preventivas para evitar o descalabro que se viveu?

DVCK
– É difícil saber o porquê, mas entende-se, porque a situação no antigo Zaire é complicada. O Congo Democrático é duas vezes
maior do que Angola, em termos de território, e em termos de população mais ainda. E o Congo praticamente ainda não está unido, porque há zonas em que as infra-estruturas não existem, não há estradas que liguem Kinshasa a Lubumbashi. Por falta de ligação terrestre com a capital Kinshasa, Lubumbashi não tem nada a ver com Kinshasa, por exemplo. É uma situação muito complexa e difícil de gerir.

JA – Que razões de fundo estarão na base da retaliação congolesa aos angolanos?

DVCK
– Há questões oficiais, aquelas que o Governo de Angola realiza no capítulo do repatriamento de cidadãos estrangeiros em situação ilegal. O Governo não repatria apenas congoleses, mas, também, cidadãos de outras nacionalidades em situação ilegal. Isso cai muito mal aos nossos irmãos da RDC. Eles dizem: expulsais os nossos nas zonas diamantíferas, então nós também vamos expulsar os vossos que estão lá. Por detrás disso, podem estar outras questões, como a inveja, pelo facto de os angolanos terem mais iniciativas do que os irmãos congoleses em relação ao trabalho. Eles manifestaram inveja, ganância e ambição, para poderem se apoderar dos bens produzidos pelos angolanos no seu país.
 
JA – Pela experiência que carrega de África, por que razão os cidadãos congoleses não garimpam os seus próprios diamantes, que também os têm em abundância, preferindo os de Angola?

DVCK
- Acho que se deve às nossas tecnologias. Como temos estruturas de exploração, acho que isso facilita a presença dos congoleses nas zonas diamantíferas.

JA - Que apelo faz à sociedade angolana?

DVCK
- Temos muita experiência da guerra. Ao fim de 30 anos, houve a reconciliação. Temos de ter paciência, o que não significa não defendermos o nosso território e os nossos direitos. A legalidade também se impõe não necessariamente com a desordem, com ódio ou com a violência. Devemos mostrar civismo e amor para com aqueles que sofrem.

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