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Falta de docentes compromete ano lectivo

Jaquelino Figueiredo | Soyo

A formação média no município do Soyo caminha mal. A ausência de docentes nas escolas do II ciclo do ensino secundário e na de formação de professores da região concorre para um quadro sombrio. Zolela Manos, director pedagógico de uma das escolas do II ciclo do ensino secundário no Soyo, afirma que a falta de docentes pode comprometer o ano lectivo de 2010 na região.

Director pedagógico Zolela Manos
Fotografia: Jaquelino Figueiredo

A formação média no município do Soyo caminha mal. A ausência de docentes nas escolas do II ciclo do ensino secundário e na de formação de professores da região concorre para um quadro sombrio. Zolela Manos, director pedagógico de uma das escolas do II ciclo do ensino secundário no Soyo, afirma que a falta de docentes pode comprometer o ano lectivo de 2010 na região.

O corpo docente das duas instituições – que funcionam no mesmo edifício, com 20 salas de aula e 3.917 alunos matriculados este ano – conta apenas com 52 professores, entre técnicos superiores e médios.
A escola do II ciclo do ensino secundário do Soyo, o antigo PUNIV, é a que mais dificuldades enfrenta neste domínio, possuindo somente oito professores efectivos, dos quais dois técnicos médios, que asseguram as aulas em 34 turmas. Zolela Manos explicou à reportagem do Jornal de Angola que o corpo docente da escola era constituído por 26 professores, mas 18, que trabalhavam em regime de colaboração, foram dispensados, obedecendo a uma orientação do Ministério da Educação. “Após o decreto do Ministério da Educação que proíbe a colaboração, os 18 docentes foram dispensados em Março último” acrescentou.
A suspensão foi decidida pelo Ministério da tutela para dar lugar ao enquadramento de novos docentes na região, na sequência do concurso público realizado em Março. O director considera a falta de professores na instituição que dirige “uma situação complicada”, uma vez que a suspensão da colaboração dos 18 afectou o normal funcionamento do estabelecimento escolar. “As provas trimestrais de algumas disciplinas chave, por exemplo, foram comprometidas por falta de docentes. A carência de professores vem de Março, depois de terem sido suspensos os 18 colaboradores que asseguravam as aulas nesta escola, para dar lugar à admissão de novos”, acrescentou.
Actualmente, este estabelecimento de ensino secundário, com dez salas de aula disponíveis, conta apenas com 14 turmas das 34 anteriores, devido à falta de professores.
Zolela Manos sublinhou que, para cobrir esta insuficiência, a instituição necessita de 66 novos técnicos superiores, com vista a salvar o presente ano lectivo e garantir o futuro do amanhã. “Para recuperarmos o ano lectivo de 2010, sobretudo nas disciplinas que não têm professores actualmente, pensamos que, logo após a divulgação, no segundo trimestre, da lista de admissão de novos docentes, vamos procurar alterar o calendário oficial até Dezembro. Mas, naquelas disciplinas que não tiverem docentes, não haverá transição de classe, no sentido de não afectar a qualidade da formação”, acentuou Zolela Manos.

Insuficiência de salas

Esta preocupação foi apresentada ao governo provincial, que mandou aguardar pela divulgação das listas dos candidatos que participaram no concurso público de Março.   Zolela Manos frisou que a instituição que dirige também se debate com insuficiência de salas de aula. O edifício apenas dispõe de 20 salas, para as duas escolas, cabendo à do II ciclo do secundário dez salas, para um total de 2.617 alunos, e à de formação de professores outras dez, para 1.300 alunos. Esta insuficiência de salas nos dois estabelecimentos remonta a 2003, altura em que a cidade começou a crescer exponencialmente em termos de população estudantil.
A metodologia encontrada para atender à procura, segundo o director, consiste em superlotar as salas de aula com mais de 90 alunos em cada uma, e assim conseguir satisfazer a procura, embora reconheça que os preceitos estabelecidos pela reforma educativa estão a ser atropelados.  Desde o advento da paz, em 2002, segundo ele, a cidade do Soyo regista um crescimento da população estudantil sem precedentes. E para satisfazer as necessidades, no futuro, a instituição necessita de pelos menos 45 novas salas de aula.

Qualidade do ensino afectada

O director pedagógico reconheceu que a superlotação das salas de aula com mais de 90 alunos, contrariamente aos 35 estabelecidos pela lei de reforma educativa, afecta a qualidade do ensino que se pretende em Angola.
“Com tamanha procura por uma vaga no ensino médio, associada à falta de mais escolas deste nível que possa cobrir a procura, não temos outra solução que não seja a integração de mais alunos numa mesma sala”, explicou. A falta de professores para as disciplinas chave, ou de opção, em diversos cursos ministrados naquele estabelecimento, segundo reconheceu, também concorre para a má qualidade da formação na região.
Zolela Manos sublinhou que a situação será ultrapassada, depois da publicação da lista de novos docentes.  Laboratórios paralisados
Um outro problema que as duas escolas enfrentam prende-se com os laboratórios de pesquisa, concretamente os de Química, Biologia e de Matemática/Física, que estão paralisados há algum tempo, por terem sido assaltados por meliantes que surripiaram equipamentos imprescindíveis à pesquisa científica.
O director referiu que, actualmente, o único laboratório em funcionamento é o de Informática, que dispõe de alguns computadores. “Esperamos que o governo do Zaire volte a adquirir, o mais rápido possível, o material em falta, para retomarmos as pesquisas científicas na Instituição”, acrescentou.
Afonso Daniel Agostinho, de 19 anos, aluno da 10ª classe do curso de Química, na escola de formação de professores do Soyo, disse ao Jornal de Angola que os estudos vão mal por falta de laboratório, uma situação agravada com a ausência de professores nas disciplinas chave.
 “Eu, por exemplo, estou a fazer a opção Biologia/Química, mas por falta de professores, a direcção entendeu anular a disciplina de Química, que é uma disciplina chave para o meu curso. Aqui, a esta escola, só viemos passear, não estamos a ser formados como deveria ser”, afirmou o estudante, visivelmente irritado com a situação. 
O formando mostrou-se preocupado pelo facto de os alunos que saírem das escolas de formação de professores e da do II ciclo do ensino secundário do Soyo não poderem possuir, no fim dos cursos, bagagem intelectual suficiente para prosseguir os estudos na universidade, uma vez que nunca pesquisaram em laboratório.
Por isso, Afonso Agostinho aproveitou a presença do Jornal de Angola para pedir ao governo do Zaire que resolva a situação inerente à falta de professores e de laboratórios, para não se pôr em risco o futuro da província.
Zolela Manos considera que para absorver o número de alunos que procuram uma formação média na região, a construção de mais três escolas para o ensino médio é essencial.
“O município do Soyo necessita de três novas escolas para atender o centro da cidade e arredores, como a área do Kimpondo e do Mpinda, uma vez que os dois estabelecimentos de ensino médio que funcionam no mesmo edifício já não estão à altura da procura”.

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