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"Fizemos aquilo que nos competia fazer"

Fernando Neto|Mbanza-Congo

O governador provincial do Zaire, Pedro Sebastião, desmistificou as afirmações de alguns críticos, segundo as quais a actividade do executivo que dirige pouco ou nada está a atingir os resultados desejados na região.

Governador Pedro Sebastião
Fotografia: Adolfo Dumbo

 
O governador provincial do Zaire, Pedro Sebastião, desmistificou as afirmações de alguns críticos, segundo as quais a actividade do executivo que dirige pouco ou nada está a atingir os resultados desejados na região. Falando em exclusivo ao Jornal de Angola, Pedro Sebastião reagiu dizendo que “isso é a mesma coisa que dizer que o país não está a marchar. Essas afirmações são daqueles que, propositadamente, não querem acreditar e pretendem tapar o sol com a peneira”. O governador é mais enfático: “Comparem como éramos há quatro anos e como estamos agora”.

Jornal de Angola - O país completa a 4 de Abril oito anos de paz efectiva. Pode apontar os ganhos da província do Zaire, em particular, durante este período?

Pedro Sebastião
- Os ganhos da província, neste período, podem ser vistos se fizermos uma comparação de como o Zaire era há quatro anos e como está agora. É evidente que não fizemos tudo, mas aquilo que nos competia fazer, foi feito. Veja por exemplo no domínio das estradas, quanto tempo a gente levava para ir de Mbanza Congo às comunas de Kaluka, Madimba e ao município do Tomboco, ou até mesmo a Luanda. As distâncias encurtaram-se com a reabilitação dos referidos troços. As pontes para a circulação de pessoas e bens a nível da província foram todas reparadas. A nível da saúde, temos médicos em todos os municípios da província que asseguram a assistência médica às populações. No domínio da educação, podemos ver quantos estudantes tínhamos e quantos temos agora. É verdade que ainda não estamos muito bem, mas fizemos o trabalho de casa e é isso que nos satisfaz. Temos tido uma luta titânica com os meios que possuímos para fazer o que se vai fazendo. Os senhores jornalistas reparem que, no princípio, a estrada nacional era toda mexida por nós. Os homens que criticam têm memória curta. Lembro-me que quando tínhamos aqui sete telefones da rede fixa foi uma luta titânica para aumentar a rede, mas aumentaram-se os números de telefone. Isso significa que aqui há responsabilidades acrescidas.
Se perguntarmos a muitos destes nossos compatriotas que levantam, aqui e acolá, alguns problemas, se eles pagam a energia eléctrica e a água que consomem, certamente não pagam absolutamente nada, fogem. Não é que o governo, ou a administração local, não tenha possibilidade de cobrar o consumo destes bens, estão a dar-se passos para isso, são custos que a população também tem o dever de comparticipar. Alguns desses críticos são aqueles cujos filhos, com o descontrolo das suas famílias, partem carteiras e as portas das escolas.

JA – Apesar dos esforços que o seu executivo tem desenvolvido para resolver os problemas mais candentes das populações, ainda assim há muito por fazer. Qual é o programa do governo para o biénio 2010/2011?

PS –
A nossa atenção está virada, fundamentalmente, para a melhoria da assistência médica e medicamentosa às populações e da rede escolar da província. Apesar de termos um número considerável de salas de aula e de professores, todos os anos vamos recebendo mais crianças que ingressam no ensino de base e não só. Tudo isto implica, também, um esforço grande do governo no sentido de podermos acompanhar toda essa dinâmica. Nem sempre, é claro, crescemos na razão directa das preocupações que nos vão surgindo. Tivemos o caso, por exemplo, da chegada dos cidadãos angolanos da RDC e 50 mil destes compatriotas ficaram na província do Zaire. Tudo isto são preocupações acrescidas que temos na província.

JA – Os sectores da energia e água têm vindo a registar melhorias, mas ainda revelam algumas debilidades. O que se pode esperar do governo?

PS –
Estamos a fazer um esforço no sentido de irmos melhorando a qualidade e aumentando a capacidade de fornecimento e abastecimento desses produtos às populações. Reparem que nós inaugurámos, recentemente, aqui na capital, Mbanza Congo, uma nova central eléctrica que serve de reforço à capacidade então instalada. Está em regime experimental no Soyo uma nova central de turbina a gás, que melhorou os projectos do município. Vamos trabalhar para aumentar a capacidade de fornecimento de energia eléctrica nos municípios do Nóqui, Tomboco, Kuimba e Nzeto, embora isso também implique maior necessidade de combustível, uma vez que dependemos de geradores.
O governo da província faz um grande esforço no sentido de colocar o combustível atempadamente em todos os municípios, para que os geradores possam funcionar, por isso é que a população também tem que comparticipar nos esforços que o governo vai fazendo, pagando a energia que consome.

JA - Existem projectos estruturantes concretos direccionados para os sectores de energia eléctrica e água? 

PS
– Sim, existem. Mas é preciso que destrincemos aqui alguns aspectos referentes àquilo que são as competências do governo provincial e do Governo central. Parece-me que o grande drama que existe é o de se fazer muita confusão. Nós, quer em termos de recursos financeiros, quer humanos, temos capacidades limitadas. Há aquilo que compete ao governo provincial e há aquilo que compete ao Governo central e tanto quanto sabemos o Governo central está bastante preocupado com esta parte do país, que por razões de vária ordem não recebeu os investimentos que deveria ter recebido num determinado momento. E que agora é chegado o momento de se virarem as baterias, para esta região receber também as infra-estruturas necessárias, a exemplo do que vai acontecendo em outras paragens do nosso país. A nossa capacidade de captação e distribuição de água foi duplicada. Há um projecto de âmbito central para o reforço da capacidade de produção e distribuição de água que a qualquer momento vai começar a ser implementado.

JA – O sector industrial é menos expressivo na região. O que pensa o seu executivo para inverter o actual quadro?

PS
– Sem que haja água canalizada em quantidade e energia eléctrica com qualidade, que não seja unicamente de geradores, é complicado falarmos em indústria expressiva. Nós temos aqui próximo a barragem hidroeléctrica do Inga, que fornece energia à vila do Nóqui, mas por dificuldades de relacionamento, não em termos de país, mas da recepção, a energia chega com altos e baixos, o que nos tem obrigado a recorrer aos geradores. O problema das estradas também nos impede de ter uma indústria expressiva.
Estamos a dar os primeiros passos, porque ao longo de todos estes anos, e mesmo no tempo colonial, o que se fez foram pequenos negócios, para além de algumas fazendas que tínhamos aqui, no domínio dos citrinos. Mas não fomos capazes de criar uma indústria de produção de sumos.

JA – O senhor governador afirmou, no município do Soyo, que o atraso do desenvolvimento socio-económico da província do Zaire preocupa o Presidente da República. O que tem mais a dizer a respeito?

PS
– Já há uma decisão do Conselho de Ministros e do Presidente da República no sentido de se prestar maior atenção a esta região. O Governo tem consciência que durante estes anos houve uma inadequada atenção a alguns aspectos concretos, por razões mil, e esta decisão superior surge, precisamente, para que a zona do Zaire possa também receber outros incentivos de desenvolvimento, para além do que foi recebendo até aqui.

JA - Desde que assumiu o governo, quais são as dificuldades que tem encontrado na sua actividade?

PS
- Tenho tido dificuldades de vária ordem. A maior delas é no domínio dos recursos humanos. Temos que ter aquilo que se chama sentido de missão.
Há, efectivamente, toda uma entrega dos diversos quadros, mas eu reconheço as exigências que temos estado a fazer-lhes. Reconheço também que não podemos fazer omoletas sem ovos.
Hoje estamos melhor do que estávamos ontem. Posso aqui lembrar que o governo provincial funcionava em três cidades diferentes e tudo era difícil.
Apesar de algumas debilidades, os jovens que temos aqui procuram dar o seu melhor no sentido de corresponderem a tempo às situações que se colocam. São dedicados, não podem fazer mais do que aquilo que fizeram até agora.

JA - De que forma gostaria que a população participasse na actividade governativa?

PS
- Eu gostaria que cada um, no seu local de trabalho, pudesse fazer o seu papel. Os jogadores jogarem bem, os estudantes estudarem bem e os professores darem bem as suas aulas. Se cada um de nós estiver compenetrado das suas responsabilidades enquanto cidadão e não ficar, apenas, a cobrar o que o governo pode dar para a sua satisfação, mas também pensar no que pode dar à província e ao país, no geral, vamos melhorar as condições sociais de todos nós.
Que cada um, à medida das suas possibilidades, ponha a sua pedra na construção deste país.

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