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Igreja Católica tem centros de referência

Víctor Mayala e Miguel Baú | Mbanza Congo

As igrejas têm dado provas de que são importantes parceiros sociais do Executivo, nos mais variados sectores do país.

O processo de alfabetização liderado pela Igreja Católica está a tirar milhares de pessoas das trevas do obscurantismo
Fotografia: Adolfo Dumbo

As igrejas têm dado provas de que são importantes parceiros sociais do Executivo, nos mais variados sectores do país. Para além do seu papel de moralização e pacificação dos espíritos, as congregações religiosas estão empenhadas na construção de escolas, hospitais e outras infra-estruturas sociais.
A Igreja Católica, em Mbanza Congo, tem um centro de alfabetização localizado no bairro Sagrada Esperança onde, todos os anos, milhares de jovens e adultos aprendem a ler e escrever.   
A instituição foi criada em 1999 pela Promaica, uma organização feminina da Igreja Católica, com a intenção de alfabetizar os seus membros. A coordenadora do centro, madre Miltor Ferrancullo, explicou à equipa de reportagem do Jornal de Angola que no presente ano lectivo foram matriculados 178 alunos com idades que variam entre os 15 e os 55 anos. No acto das matrículas, referiu, os alunos pagam um valor simbólico de 200 Kwanzas. As propinas são pagas a partir da 3ª classe.
A madre Miltor Ferrancullo esclareceu que a instituição lecciona apenas até à 6ª classe e forma em média 40 alunos por ano. A direcção do centro atribui aos alunos que concluem a 6ª classe certificados autenticados pela Secção Municipal de Educação de Mbanza Congo, que encaminha os alunos para outras instituições escolares, a fim de prosseguirem os seus estudos.
Seis professores asseguram o funcionamento do centro de alfabetização, que tem apenas três salas de aulas, número considerado ínfimo para satisfazer a procura. Miltor Ferrancullo disse que nos primeiros anos do projecto, os professores não recebiam subsídios. No fim do mês recebiam apenas um estímulo em produtos alimentares oferecidos pelo Programa Alimentar Mundial (PAM).
Fruto do trabalho positivo desenvolvido, referiu, o centro passou a contar com apoio financeiro da Associação dos Amigos e Naturais do Soyo (ANA MPINDA), e da Direcção Provincial da Educação, que fornece material didáctico e paga os subsídios aos formadores.
A madre Miltor Ferrancullo informou que actualmente a Igreja Católica em Mbanza Congo conta com três centros de alfabetização, localizados nos bairros Sagrada Esperança, 4 de Fevereiro e 11 de Novembro.
    
Formandos empenhados
 
Álvaro Sebastião, professor da 4ª classe no centro, contou ao Jornal de Angola que o aproveitamento académico dos alunos é satisfatório, acrescentando que “muitas vezes a iniciativa de estudo tem sido dos próprios alunos e considero esta atitude positiva, uma vez que é fundamental para o sucesso escolar”.  O professor disse que todos os anos chegam alunos da República Democrática do Congo, que apenas falam kikongo e lingala. A estes alunos, explicou, são administradas aulas de língua portuguesa, para facilitar a sua interacção com os outros colegas.
Álvaro Sebastião gosta do seu trabalho e exortou as pessoas que, por qualquer razão, não tiveram a oportunidade de aprender o “ABC”, para se dirigirem ao centro, a fim de efectuarem a sua matrícula.
Afonso Alfredo João, 15 anos, estuda há quatro anos no centro da alfabetização da Igreja Católica. A frequentar a 4ª classe, enfrentou dificuldades para aprender a ler e escrever, mas com o profissionalismo dos professores, asseverou, conseguiu superar os obstáculos do processo de aprendizagem.
O jovem sonha ser médico. Revelou à nossa equipa de reportagem que antes de frequentar o centro, fazia parte de um grupo de marginais denominado “Os mais quentes”, na capital do país, Luanda, onde residia com os pais. A sua integração no grupo durou pouco tempo, pois o seu tio materno, com quem vive agora na cidade de Mbanza Congo, o foi buscar.  
“Assaltávamos as pessoas”, confessou o jovem, que apelou aos adolescentes que fazem parte de gangs para abandonarem tal comportamento e apostarem nos estudos, para garantirem o seu futuro e participarem nas tarefas da reconstrução nacional.
“Estudar não tem idade, podemos aprender até à velhice, com qualquer idade podemos ir à escola, desde que tenhamos vontade para tal”, disse Isabel Ngunga, 37 anos, outra aluna abordada pela nossa equipa de reportagem.
Isabel Ngunga contou que frequenta o centro de alfabetização desde 2006 e de lá para cá considera-se uma pessoa diferente, uma vez que já consegue escrever e lê livros, onde adquire conhecimentos úteis à vida e à convivência social.
Aconselhou outras mulheres a seguirem o seu exemplo, para que possam também aprender e “facilitar a redução do índice de analfabetismo que afecta em grande parte a camada feminina do país”.
 
Milhares de alfabetizados
                                              
Na província do Zaire é notória a preocupação de milhares de pessoas de diferentes idades que procuram os centros de alfabetização. O director provincial da Educação, Domingos Nkita, disse ao Jornal de Angola que durante o ano passado quatro mil pessoas frequentaram as aulas de alfabetização. Outras três mil, já alfabetizadas, foram inseridas no sistema normal de ensino na província.
Domingos Nkita frisou que o início das aulas de alfabetização tem sido em simultâneo com o ano lectivo normal. Explicou que as matérias ministradas são produzidas e seleccionadas em função das necessidades dos alunos.
As aulas obedecem à metodologia participativa. Referindo-se ao material didáctico, o director provincial da Educação no Zaire disse que nesse domínio não têm existido dificuldades de maior.
A cidade de Mbanza Congo aspira à condição de património cultural da humanidade. E, encarnando essa meta, a sua população quer elevar-se cada vez mais para a luz do conhecimento, resgatando a mística da cidade histórica em grande parte soterrada. 

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