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O triste cativeiro das meninas mamãs no Zaire

Víctor Mayala| Mbanza Congo

“A inexistência da cultura de diálogo entre pais e filhos, em algumas famílias angolanas, tem produzido consequências negativas na vida dos adolescentes, sendo uma delas a gravidez precoce”, afirma o sociólogo Zolana Avelino, em declarações ao Jornal de Angola.

O estado de gravidez deve ser encarado com responsabilidade e vivido com a alegria das coisas planeadas
Fotografia: Adolfo Dumbo

“A inexistência da cultura de diálogo entre pais e filhos, em algumas famílias angolanas, tem produzido consequências negativas na vida dos adolescentes, sendo uma delas a gravidez precoce”, afirma o sociólogo Zolana Avelino, em declarações ao Jornal de Angola. No entanto, segundo ele, o fenómeno é relativo, porque tem de ser analisado à luz de compreensões diferentes nas variadas comunidades, uma vez que nalgumas delas, uma menina, para entrar na vida conjugal, deve antes dar provas da sua fertilidade, o que pode não acontecer noutras. 
Em Angola o tema da gravidez precoce ainda não foi alvo de uma análise especializada do ponto de vista sociológico, diz Zolana Avelino, para quem essa abordagem facilitaria uma consciencialização dos pais e encarregados de educação para a necessidade de transmitir aos adolescentes informações relevantes sobre a sexualidade, uma matéria, segundo disse, ainda considerada tabu em alguns segmentos da sociedade.  
“A abordagem permanente de temas ligados à sexualidade é fundamental, para incentivar não só práticas de planeamento familiar, mas também de prevenção de doenças de transmissão sexual, como o VIH-Sida”, referiu.
Professor de Metodologia de Investigação Científica na Escola Superior Politécnica de Mbanza-Congo (MIC), Zolana Avelino esclareceu que uma mulher menor idade que engravide corre o risco de ser rejeitada pelo co-autor da gravidez. 
Adiantou que se tempos depois a jovem partir para outra relação, poderá também fracassar. “Em muitos casos, uma adolescente com um filho é socialmente estigmatizada e tida como uma pessoa sem educação ou da rua. Mas a situação pode ter decorrido da falta de acompanhamento familiar ou de outras instituições sociais, como a escola”.
O sociólogo considera que as péssimas condições sociais podem conduzir as pessoas à adopção de comportamentos menos dignos. “Como resultado disso, hoje assiste-se à propagação do fenómeno de exploração de menores. Há casos em que as meninas são incentivadas pelos próprios pais a praticarem actos indecorosos, para conseguir meios de sustento das famílias”.   “Alguns pais, perante uma situação de crise, em que já não conseguem sustentar as famílias, deixam as filhas andarem por aí à procura de meios de sustento para todos. É assim que elas entram na vida sexual activa mais cedo, correndo o risco de contrair uma gravidez precoce”, explicou Zolana Avelino.
O académico sublinhou que está a assistir-se, na sociedade angolana, a uma mudança de atribuições dentro da família. “Ao invés de serem os pais a sustentar o agregado familiar, numa situação de dificuldades sociais e económicas, são os filhos adolescentes os sacrificados, o que traduz uma falta de coesão familiar”.
Perante esta constatação, defende que as organizações da sociedade civil devem trabalhar com projectos concretos, que levem ao fortalecimento da estrutura familiar.
 
Igreja preocupada

  O reverendo da Igreja Evangélica Baptista de Angola (IEBA) em Mbanza-Congo, Álvaro Rodrigues, referiu que a igreja, enquanto instituição social cuja comunidade tem como base a família, está preocupada com a proliferação, um pouco por todo o país, dos casos de gravidez precoce. “Perante uma situação dessas, a igreja não pode deixar de se preocupar, porque uma menina não tem responsabilidade, nem tão pouco condições psicológicas ou materiais para sobreviver e fazer viver a criança que trouxe ao mundo”, afirmou.
Álvaro Rodrigues revelou que dedica sempre algum tempo das suas homilias, para falar de questões ligadas à sexualidade. O seu objectivo vai no sentido de “alertar a juventude de que na vida cada coisa deve acontecer a seu tempo”.  
O reverendo notou que em Angola ainda não está bem assente o que nos países desenvolvidos chamam de “educação para a vida”. Trata-se de uma matéria que é abordada nas instituições de ensino e fala sobre os variados aspectos do sexo, sua constituição e a formação da mulher e do homem. “Essa disciplina, se entrar nas nossas escolas, vai enquadrar as meninas para saberem o valor do seu próprio corpo, quando é que deve funcionar e fazer com que os adolescentes deixem de o banalizar e tenham a noção das consequências que poderão resultar da sua atitude”, sublinhou.
Para o reverendo, existem dois factores, que estão na base das gravidezes precoces. “A ignorância e a pobreza que grassam em muitas famílias do país, fazem com que alguns pais sejam incapazes de fazer um enquadramento social das filhas que estão a desabrochar para a vida”.

Tentações da vida moderna

Nos dias que correm, avançou o nosso interlocutor, “as meninas quando vão à escola querem bom vestuário e telemóvel, coisas que podem não estar ao alcance dos pais. E quando elas encontram alguém com dinheiro, independentemente da idade, cobiçam-no e são levadas a praticar sexo sem o mínimo controlo”.
O líder religioso aconselha a juventude da província do Zaire, em particular, e do país, em geral, a ter uma atitude responsável e a deixar de encarar o sexo como uma diversão, “pois a sua prática prematura acarreta consequências negativas”.   
“A fase da juventude não é uma simples passagem. É toda uma vida que deve ser responsável e bem enquadrada, para que amanhã os jovens possam dar frutos para o bem deles próprios e da sociedade”, considerou.
Álvaro Rodrigues vai contra o comportamento incorrecto de alguns homens, que se aproveitam do seu poder financeiro para usar as meninas como objectos de prazer.

O problema é antigo

A directora provincial do Zaire da Família e Promoção da Mulher, Ana Manifesta, reconheceu ao Jornal de Angola que a gravidez precoce é um problema que tem afligido várias famílias na região, a maioria das quais “não está preparada para encontrar as melhores soluções, quando situações do género acontecem”.  Ana Manifesta explicou que quando as famílias “empurram” a menina para casa dos pais do co-autor da gravidez, que geralmente também é adolescente, para viverem juntos, “só prejudicam a rapariga, sobretudo no tocante à sua formação”.
   A responsável realçou que o fenómeno da gravidez precoce vem de tempos remotos. “No tempo dos nossos antepassados, bastava uma mulher completar 12 anos de idade e já podia ter marido. Isso é incompatível com as sociedades modernas, regidas por outras leis”. No caso particular de Angola, lembrou, a Lei Constitucional estabelece 18 anos como a idade para uma pessoa ser considerada adulta do ponto de vista jurídico e dona de si própria. 
“A experiência diz-nos que com 18 anos a pessoa pode assumir uma responsabilidade, gerar filhos sem risco e dar à criança as condições que ela merece”.
 Quando assim não acontece é complicado, porque é como uma criança a tomar conta de outra, referiu.  Numa ronda efectuada pela reportagem do Jornal de Angola ao Hospital Provincial do Zaire, em Mbanza-Congo, foi notório o afluxo de adolescentes às consultas de pré-natal.
Foi constrangedor ver autênticas crianças, que mal conseguiam suportar fisicamente as suas barrigas de grávidas, a arrastarem-se, literalmente, pelos corredores do hospital. Ao nosso convite para falarem connosco sobre o seu estado esquivaram-se com gestos envergonhados, como se quisessem dizer que elas próprias não conseguiam compreender o que estava a passar-se com o seu corpo.
 O pessoal de serviço no hospital escusou-se a prestar declarações sobre o assunto.

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