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População do Zaire acredita no projecto

Fernando Neto | Mbanza-Congo

Possuir uma casa própria e condigna, nos dias que correm, é um sonho que aflige milhares, senão milhões, de famílias angolanas. Na província do Zaire, para além da aquisição de terrenos ser bastante difícil, há pouca oferta de materiais de construção, o que torna os seus preços altíssimos.

Como em todo o país, a situação habitacional no Zaire é preocupante
Fotografia: Adolfo Dumbo

O quadro preocupa a população, particularmente os jovens, ávidos de constituir família e levar uma vida autónoma em relação aos pais. O projecto do Governo de construção de um milhão de fogos em todo o território nacional até ao ano de 2012, é, por isso, uma lufada de ar fresco para os anseios dos jovens, e não só.
“Construir uma casa na cidade de Mbanza-Congo sempre foi difícil”, afirma Simão Gonçalves Pedro, 61 anos. “O estado degradante das estradas faz o material de construção chegar cá a preços muito altos”, disse.
Residente no bairro 4 de Fevereiro, arredores da cidade de Mbanza-Congo, Simão Pedro foi abordado pela reportagem do Jornal de Angola na altura em que fiscalizava as obras de construção da sua nova casa, que está a ser erguida no espaço adjacente à “velha casa”, construída em 1980.
Com as paredes carcomidas pelo tempo, a velha residência não apresenta vestígios de ter sido cimentada ou rebocada. “Esta realidade demonstra o quão difícil é ter uma habitação condigna em Mbanza-Congo”, explica o idoso.
“Antes os materias de construção, em geral, eram muito mais difíceis. Mas o adobe queimado era mais barato, custava 10 kwanzas. Hoje a situação é diferente, paga-se por cada adobe entre 30 e 50 kwanzas”, disse o mais velho Simão Pedro, acrescentando que, neste momento, está a consentir enormes sacrifícios para comprar mais adobe e areia. “Só para ter uma ideia, meia carrada de areia custa 18 mil kwanzas”, lamentou.

Jovens estão esperançados 

É grande a faixa de cidadãos, entre os  40 e os 60 anos de idade, que ainda se debatem com o problema da falta de habitação própria. As pessoas com quem falámos foram unânimes em afirmar que o projecto de um milhão de moradias do Governo é, para eles, “a oportunidade soberana” de ter casa própria.
“Vivo, maritalmente, numa casa de renda. Já ouvi falar do projecto de construção de casas através dos media, mas espero ver para acreditar, porque ainda não tive a oportunidade de ver o local, cá em Mbanza-Congo, onde vão ser construídas as referidas casas”, disse a jovem enfermeira Isabela Morais.
Paulina Kangola, jornalista, conta que há quatro anos envida esforços para construir uma casa, mas não consegue “porque os terrenos estão difíceis de adquirir”.
A fonte acredita no sucesso do projecto habitacional do Governo. Revelou que já solicitou, há anos, um terreno à administração municipal de Mbanza-Congo, “mas o processo está a ser bastante moroso”. Esta situação, confessou, a fez perder a esperança.
“Mas o projecto do Governo é dirigido à camada desfavorecida da sociedade. Temos que ter esperança nele, apesar de estar numa fase que ainda não permite a percepção de todos os passos que estão a ser dados para a sua materialização”, disse.

Comissão técnica provincial
 
Abordado pelo Jornal de Angola, o coordenador da equipa técnica da comissão encarregue da implementação do projecto habitacional no Zaire, Cláudio Francisco Fortunato, tranquilizou a população dizendo que estão em preparação 200 hectares, a serem subdivididos em 70 mil lotes, destinados à construção de moradias de baixa e média renda no município do Soyo.
Processo similar decorre na capital da província, Mbanza-Congo, onde 100 hectares, que compreendem um total de 45 mil lotes, estão a ser tratados com vista à sua distribuição às pessoas interessadas.
Cláudio Fortunato explicou que, neste primeiro ano de execução do projecto, foi feita a identificação das reservas fundiárias, que já foram aprovadas pelo Conselho de Ministros, que as registou como sendo património da província.
“Foram lançados os concursos públicos para selecção das empresas que já estão a trabalhar na execução do plano de urbanização do Soyo II, onde foram identificadas três reservas. Numa primeira fase, as empresas procedem à desmatação das áreas em que vão ser construídas as moradias, fazem os arruamentos, instalam as redes eléctricas, executam o saneamento e outros serviços de apoio”, disse.
O também director provincial do Urbanismo e Habitação fez saber que, em breve, vão estar à disposição da população cartilhas contendo informações em português, com tradução em kikongo, para uma melhor divulgação dos procedimentos de adesão ao projecto. Além da cartilha, a informação vai ser transmitida à população através da emissora provincial da Rádio Nacional de Angola e do Jornal de Angola.
 
Estradas em mau estado

Para o director provincial das Obras Públicas, Augusto Neves José Tiago, o actual quadro habitacional da região não difere da realidade vivida em todo o país, caracterizada pela fraca actuação do sector imobiliário, incapaz de garantir a existência equilibrada de casas para o arrendamento ou venda.
O responsável manifestou-se confiante na mudança do quadro, afirmando que estes e outros constrangimentos terão alívio com a materialização plena do projecto de um milhão de fogos.
A fonte lamentou o facto de, na cidade de Mbanza-Congo, haver dificuldades para encontrar habitações decentes, tanto para arrendamento como para venda.
Augusto Tiago notou que a implementação do projecto do Governo vai propiciar o retorno de milhares de pessoas às suas áreas de origem, onde vão encontrar condições de habitabilidade condigna, “numa altura em que o país começa a ganhar sinais seguros na busca de estabilidade política e social, fruto do alcance da paz há sete anos”.
Instado a pronunciar-se sobre os constrangimentos que podem surgir na execução do programa de construção de fogos no Zaire, o director provincial das Obras Públicas apontou o estado actual das estradas como o maior “handicap”.
“As obras de construção da estrada nacional que liga Mbanza-Congo à capital do país decorrem a bom ritmo. Esperamos que os trabalhos prossigam com o mesmo dinamismo durante os três anos do contrato restantes, de modo a facilitar o processo de transporte do material necessário para a implementação do projecto habitacional”, disse a fonte, para quem a outra dificuldade é a escassez de inertes em alguns municípios do interior, como é o caso de Nóqui.
“Para quem tiver de construir uma casa no município do Nzeto ou no Soyo a facilidade é maior, uma vez que nestas localidades os inertes são abundantes, ao contrário do Nóqui, que tem a estrada de acesso em mau estado de conservação”, realçou.
O director provincial das Obras Públicas alertou os executores do projecto para a necessidade de trabalharem de acordo com os princípios de preservação do ambiente, de modo a que o projecto seja sustentável.
Ele prosseguiu dizendo que “quando se fala na utilização de materiais locais,como o adobe queimado, o processo acarreta consigo danos ao ambiente, que vão desde a abertura de enormes buracos no solo, susceptíveis de provocar erosões, ao abate indiscriminado de árvores para servirem de lenha”.

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