Províncias

Seitas religiosas contribuem para a desintegração familiar

Víctor Mayala e Miguel Baú | Mbanza Congo

Em declarações ao Jornal de Angola Biluka Nsakala Nsenga revelou que actualmente existem 131 denominações religiosas espalhadas pelos seis municípios da província, Mbanza-Congo, Soyo, Nzeto, Tomboco, Kuimba e Nóqui. Explicou que 55 denominações religiosas que actuam no Zaire “não são reconhecidas pelo Estado angolano”.

Crianças abandonadas pelas famílias encontram refúgio no centro de acolhimento da Igreja Católica
Fotografia: Adolfo Dumbo

Em declarações ao Jornal de Angola Biluka Nsakala Nsenga revelou que actualmente existem 131 denominações religiosas espalhadas pelos seis municípios da província, Mbanza-Congo, Soyo, Nzeto, Tomboco, Kuimba e Nóqui. Explicou que 55 denominações religiosas que actuam no Zaire “não são reconhecidas pelo Estado angolano”.
Biluka Nsakala Nsenga sublinhou que as seitas religiosas que proliferam na província são provenientes da República Democrática do Congo (RDC). O objectivo dos seus responsáveis, disse o responsável da Cultura no Zaire, “é ver melhorada a sua situação financeira”, enganando os incautos a quem prometem curas milagrosas em nome de Deus.
“O facto de termos muitas igrejas está a originar o fenómeno das crianças de rua. Notamos que estas igrejas querem apenas lucros fáceis, aproveitando-se da credulidade dos fiéis”.
O director da Cultura do Zaire acrescentou que basta reparar na forma como os responsáveis das igrejas disputam a liderança e a gestão das oferendas e dízimos, para compreender o interesse financeiro que os move.
Biluka Nsakala Nsenga acentuou que as autoridades estão preocupadas com a proliferação contínua de seitas religiosas um pouco por todo o país, “daí o Ministério da Cultura ter tornado pública uma circular na qual recomenda a todas as direcções provinciais a manterem um diálogo franco e aberto com os líderes das igrejas, no sentido de se pautarem por um trabalho que promova a união e a pacificação dos espíritos para uma convivência social positiva”.
Biluka Nsenga disse ao nosso jornal que, à luz da circular do Ministério da Cultura, a sua direcção procedeu ao levantamento das igrejas que exercem a sua actividade de forma ilegal, cujos cultos estão baseados em práticas e conceitos que contradizem os princípios bíblicos. Tais organizações podem ser encerradas.
“Alguns responsáveis de seitas religiosas na região exibem documentos que atestam a sua legalização, exarados pelas autoridades governamentais em Luanda”, disse o responsável da Cultura. E revelou que o encerramento das igrejas ilegais é uma matéria que a direcção da Cultura deve abordar, brevemente,  com os órgãos da Justiça.  
O director provincial da Cultura referiu que a acusação a crianças de práticas de feitiçaria é o aspecto dominante do trabalho das seitas religiosas. Alguns pais são influenciados e acreditam nas acusações, sobretudo quando os filhos apresentam um “comportamento anormal”.

Vítimas das seitas

José Rogério, 16 anos, é um adolescente que foi parar, há três anos, ao Centro de Acolhimento Frei George Zulianello, localizado no bairro Sagrada Esperança, em MbanzaCongo. Conta que tudo aconteceu quando o filho mais velho do seu irmão, cujo nome não revelou, ficou doente. O irmão não hesitou e logo o acusou de ser o causador do mal que apoquentava o sobrinho.
“Levaram-me a uma igreja, onde o pastor confirmou que eu era feiticeiro. Daí bateram-me  e fugi de casa. Fiquei  a viver na rua durante três meses. Depois, por sorte, apareceu um senhor que me trouxe para o centro de acolhimento”, explica Rogério.
A seu lado estava  António Morgado, acusado de ter morto a mãe com feitiço. Foi rejeitado pela família e andou na rua até encontrar apoio no centro de acolhimento.
Sebastião Mpinda, 47 anos, morador no bairro Sagrada Esperança, sofria de terríveis dores de barriga e de cabeça e era acometido de insónias. Aflito com o seu estado de saúde, Mpinda procurou ajuda de várias pessoas, até que por último um amigo o levou a uma igreja. Mas o pastor disse que só o curava se em   troca lhe desse todos os móveis da sua casa. 

A única saída

Miguel da Silva Mayembe, 20 anos, crente de uma seita, estudante da 9ª classe e  residente no bairro Sagrada Esperança, o aumento de seitas religiosas na região é resultante do expediente de sobrevivência a que muitos cidadãos, principalmente oriundos da República Democrática do Congo, fazem recurso. 
“Algumas pessoas transformam as igrejas no seu ganha-pão. Há muita gente que vem do Congo cuja única maneira de encontrar emprego é fundar uma igreja”, disse.
Miguel da Silva Mayembe atribui a algumas igrejas a fonte de vários problemas sociais que afectam a população.   “A Bíblia diz amai-vos uns aos outros, mas a realidade de convívio dos crentes de algumas seitas religiosas é diferente, porque eles separam-se e discriminam as pessoas que professam noutras congregações religiosas”.
Para Mayembe “a igreja deve promover o bem e não o mal, não deve inventar doutrinas mas apoiar-se na Bíblia”. E conclui que as seitas têm de acabar com as acusações de feitiçaria, sobretudo às crianças.“Mesmo quando se defende o bem, muito depende da interpretação e da consciência de cada um. Nós na igreja aprendemos a ser humildes, a praticar o bem, a respeitar o próximo.
 Muitas vezes quando alguém não pertence a uma igreja e não respeita o que a Bíblia diz, essa pessoa está desorientada. Por isso a igreja deve promover o bem e não o mal”, frisou Mayembe. 

Perigo social 

Frei Danilo Grossele, da Ordem dos Frades Menores (capuchinhos), responsável do centro de acolhimento de menores,   considerou que o surgimento descontrolado de seitas religiosas no Zaire e em praticamente todas as províncias de Angola, representa um perigo para a sociedade, “na medida em que muitas delas disseminam no seio das famílias hábitos indescritíveis e um mau ambiente nas comunidades”.
Frei Danilo foi mais longe, dizendo que “faço uma análise negativa da actividade de muitas seitas religiosas, tendo em conta que os elevados casos de crianças acusadas de práticas de feitiçaria e que se encontram aqui no centro, são dali provenientes.
O seu comportamento contraria o verdadeiro papel da igreja que é a moralização e pacificação dos espíritos, para uma convivência social harmoniosa”.
O prelado defende ainda  que “devíamos fazer um grande esforço para que estas seitas religiosas procurem trabalhar para o bem-estar espiritual das pessoas e não o contrário, como vem sendo prática”.

Tempo

Multimédia