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Viagens cómodas nos maximbombos

Víctor Mayala e Fernando Neto | Mbanza Congo

Os novos autocarros entregues em Julho último pelo Ministério dos Transportes às autoridades provinciais do Zaire, tornaram as deslocações mais baratas e confortáveis. O único senão reside no mau estado da estrada entre Mbanza Congo e Luanda, que compromete a durabilidade dos novos meios de transportes públicos

Nesta altura do ano é maior a demanda pelos autocarros públicos inter-provinciais
Fotografia: Adolfo Dumbo

Num momento em que a pista do aeroporto de Mbanza Congo se encontra em obras de reabilitação e ampliação, o que provocou a interdição de aterragem de aviões de grande porte, a ligação a Luanda é feita por via terrestre.
José Panzo Panda, um jovem interpelado pelo Jornal de Angola no momento em que subia para o autocarro com destino a Luanda, disse à nossa reportagem que troca os táxis pelos autocarros, “porque cobram menos e oferecem mais conforto aos passageiros”.
O jovem afirmou que “nas vezes em que fui a Luanda de táxi viajei muito apertado. Eles colocam cinco pessoas num banco para quatro, o que torna a viagem muito difícil”, queixou-se.
Nesta altura do ano os passageiros são quase todos estudantes em gozo de férias. Conseguir lugar num dos autocarros é difícil. Há quem vá para a paragem em plena madrugada. 
A equipa de reportagem do Jornal de Angola esteve a bordo de um autocarro da Transcin, na viagem entre Mbanza Congo e Tomboco, um percurso de cerca de 200 quilómetros. A bordo estavam 50 passageiros. Quem viajou para Luanda pagou três mil kwanzas, ao passo que para Tomboco o bilhete custa 1.500 kwanzas. Os passageiros saboreavam bolos e gasosas oferecidos pela tripulação e contemplavam a paisagem que desfilava pelas janelas. 
Uma paragem obrigatória foi feita no rio Mposo, a linha divisória dos municípios de Mbanza Congo e Tomboco, no posto de controlo policial. Todos os passageiros, incluindo a tripulação, exibiram os bilhetes de identidade e outros documentos pessoais válidos. 
Para Daniel Bastos, motorista do autocarro, “o estado degradado da estrada constitui a maior dor de cabeça”. O motorista diz que já é possível viajar, com comodidade, de Mbanza Congo ao Nzeto, “porque o troço está a ser preparado com brita, para em breve receber um novo tapete asfáltico”. 
O director provincial dos Transportes, Correios e Telecomunicações, Jeremias Timóteo, manifestou, em entrevista ao Jornal de Angola, a sua satisfação em relação ao impulso que a entrada em circulação dos novos autocarros deu ao sector rodoviário na região.
Jeremias Timóteo afirmou que “o plano inicial, que visa a cobertura de todas as localidades da província, principalmente as sedes comunais, foi cumprido, com excepção do município de Nóqui, onde a degradação da via é acentuada”.
Jeremias Timóteo reconheceu que o sector que dirige deu um salto qualitativo e quantitativo, comparativamente aos anos anteriores, em que o transporte de pessoas e mercadorias era assegurado exclusivamente pelos candongueiros.
“A província possuía apenas uma empresa, com uma frota de quatro autocarros que interligavam os seis municípios,” disse, acrescentando que actualmente são no total seis empresas, uma das quais do Uíje, que asseguram o transporte público em todas as rotas.
Jeremias Timóteo sublinhou que os municípios de Mbanza Congo e Soyo são, neste momento, os únicos da região onde os autocarros fazem rotas interurbanas. O director provincial dos Transportes, Correios e Telecomunicações lamentou a inexistência, na província, de uma empresa vocacionada para a venda de acessórios para os autocarros.  
A ABAMAT, empresa que vendeu os autocarros ao Ministério dos Transportes, assumiu o compromisso de criar condições para facilitar as operadoras na aquisição de acessórios.  
“Neste momento, todas as empresas que operam no Zaire têm um ou dois autocarros parados por motivos de avaria e debatem-se com dificuldades de aquisição das peças. Os autocarros são novos no mercado e de diferentes origens, o que torna difícil encontrar as peças de reposição”, referiu.
Jeremias Timóteo notou que para além da poeira, que danifica em pouco tempo os filtros de ar e de gasóleo, outra preocupação é a escassez de combustível na única bomba de abastecimento de Mbanza Congo. Prosseguiu dizendo que a situação leva a que as empresas cancelem constantemente as viagens.
“As empresas apelaram, durante o primeiro conselho consultivo da direcção provincial dos Transportes, realizado em Novembro último, no Soyo, para a necessidade da instalação urgente de mais bombas de venda de combustível em Mbanza Congo e ao longo da estrada nacional que liga a cidade a Luanda, num percurso de mais 500 de quilómetros”, disse.
O director provincial dos Transportes, Correios e Telecomunicações perspectiva para o ano de 2010 uma maior dinâmica nos sectores dos transportes aéreos e fluviais.
“Espero que haja um crescimento no sector dos transportes fluviais, que permita a ligação efectiva do município do Soyo a outras regiões, tais como Cabinda e à capital do país”.
 
O problema das vias e peças de reposição
 
O responsável da Transcin, António Tomás, disse ao nosso jornal que os preços praticados pela empresa são baseados na tabela estabelecida pelo Ministério dos Transportes. Conta que a concorrência entre as operadoras é renhida. “A maneira de tratar os clientes é a arma do negócio. Eles são a razão da nossa existência, por isso devemos tratá-los bem”, sublinhou, entusiasmado.
A Transcin tem 50 funcionários, entre motoristas, cobradores e mecânicos. Recebeu do governo provincial do Zaire 22 autocarros, que operam, além de Luanda, nos seis municípios da província. Os seus preços variam entre 500 e três mil kwanzas, em função da rota.
Os passageiros adquirem os bilhetes de passagem após apresentarem um documento de identificação válido, caso contrário a empresa recusa vender o bilhete. Isto para evitar problemas no percurso, com as autoridades policiais.
António Tomás referiu que o mau estado das estradas da região leva a empresa a fazer gastos mensais calculados em dois milhões de kwanzas, aplicados na compra do material para a manutenção dos veículos e de combustível. Na região, um bidão de 20 litros de gasóleo é vendido a 2.500 kwanzas.
“O mau estado das estradas ainda não favorece o pleno funcionamento das empresas de transportes. Depois da asfaltagem da via Mbanza Congo-Luanda e das outras que ligam os seis municípios da província, teremos mais rendimentos e menos prejuízos”, disse.
“Neste momento temos dois autocarros parados. Um por problemas de molas e outro com o chassis partido. Estamos a procurar soluções para superar estas graves avarias”.
Para Arménio Espírito Santo, gestor da empresa ADJES, a reabilitação e construção da malha viária da província é fundamental para que o projecto de transportes públicos do governo tenha sucesso. Acrescentou que as actuais condições das vias prejudica os rendimentos, o que vai criar dificuldades no reembolso do dinheiro gasto pelo governo na compra dos meios.
Arménio Espírito Santo frisou ainda que um dos objectivos do projecto é permitir o surgimento de novas empresas, em todo o país, que possam garantir um serviço de qualidade aos cidadãos. Mas, continuou, sem que outros factores como estradas, combustíveis e peças de reposição sejam tidos em conta, o projecto pode, a qualquer altura, fracassar.

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