Recreio

A bela menina e a leoa que comia corações

Carlos Kakulu

Era uma vez um caçador e seu irmão ainda criança, que viviam numa pequena aldeia nas margens do Kwanza, entre a Quissama e a Muxima.

Quando ia caçar, o caçador deixava o irmão em casa. Certa altura, o caçador resolveu casar, porque estava cansado de viver solteiro. Mas ele não quis casar com nenhuma mulher da aldeia em que vivia. Numa manhã de Cacimbo, enquanto caçava, encontrou uma jovem muito bonita a tremer, por causa do frio e da humidade na mata.

Era tão formosa e delicada que se apaixonou pela menina e pediu-a em casamento. E ela sem hesitar aceitou o pedido. Caminharam para casa do caçador, ternamente braçados.

Passados alguns meses, a jovem bonita ameaçava o irmãozinho do caçador. Quando ambos ficavam sozinhos, devorava toda a carne sem deixar nada.

O menino explicava o que se passava ao irmão, mas ele não acreditava que uma menina tão doce e delicada pudesse fazer uma maldade. as era verdade que ela comia tudo o que apanhava pela frente. A caça já não era suficiente para satisfazer a menina carnívora.

Certa manhã, depois do marido partir para a caça, ela transformou-se em leoa e tentou comer o menino. Mas ele era muito ágil e conseguiu fugir. Como sabia onde o irmão costumava caçar, foi ter com ele. A menina transformada em leoa corria atrás do menino.

Quando chegaram perto do local onde o caçador fazia as suas caçadas a leoa feroz voltou a transformar-se em menina delicada. E com uma voz melodiosa começou a chamar pelo menino fugitivo.

Ele aproximou-se a medo, mas como viu a cunhada, ficou mais calmo.

Regressaram a casa, abraçados.

Quando o caçador chegou da sua caçada com uma paka, viu que o irmão chorava.
- O que te aconteceu? – Perguntou rispidamente.

O menino contou tudo ao irmão, mas ele mais uma vez não acreditou.

Temendo pelo perigo em que a sua ida se encontrava, a criança resolveu dormir fora de casa, não fosse a cunhada rugir de novo como uma leoa faminta.

O caçador, cansado de ouvir tantas lamentações, deu ouvidos o irmão e disse:
- Amanhã vou esconder-me naquele palmar perto do riacho. Se ela voltar a ficar uma leoa, foge nessa direcção. Eu digo-lhe que vou caçar junto do Kwanza.

O caçador saiu de casa, a cunhada devorou toda a carne que havia, começou a rugir e aos poucos ficou uma leoa.

O menino fugiu de casa e correu em direcção ao palmar onde sabia que o irmão estava escondido.

A leoa lançava uivos terríveis e corria atrás do menino.

Ao ouvir os gritos do irmão e os rugidos da leoa, o caçador pôs a espingarda em posição de fogo.
Quando o menino e a leoa chegaram perto dele, sem mais hesitar, atingiu a leoa na cabeça com um tiro e ela morreu ali mesmo.

O caçador pegou no irmão e regressou a casa. Aprendeu que para casar é preciso arranjar alguém com coração e que tenha mais do que a forma dos seres humanos.

Naquele dia húmido de cacimbo, nas matas do Kwanza, ele encontrou uma bela mulher mas na verdade ela era uma terrível leoa que devorava corações.

* Esta história foi-nos enviada por Carlos Kakulu, estudante angolano na Namíbia.

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