Recreio

As noites misteriosas na aldeia de Calungo

Domiana Njila

Era uma vez um homem, Cimanda, que vivia com a sua família na aldeia de Calungo, Longonjo.

Fotografia: ARMANDO PULULO

Cimanda tinha uma filha que se chamava Viyani, fruto do seu primeiro casamento. Após a morte da mulher arranjou outra esposa.

Todos os dias ele ia de manhã cedo à lavra e de noite voltava a casa tão cansado, que mal tinha forças para comer, adormecendo num sono profundo. Mal adormecia a madrasta ia ao quarto de Viyani e mandava-a ir colher milho na lavra.

Viyani colocava o milho na quinda e quando estava cheia, punha a carga à cabeça e regressava de madrugada a casa, cantando uma canção triste:

- Ó mãe, socorro, ó mãe, socorro. Este pescocinho de pássaro não aguenta tanto peso.

E a mãe respondia: - Etchó! Obrigada por te lembrares de mim, minha filha.

No dia seguinte, de novo! E foi assim tanto tempo, tantas noites e tantas
madrugadas que a menina quando ia à lavra, já não era ela a tirar o milho, era o espírito de sua mãe. E quando chegava com a quinda carregada de milho, a mãe dizia:
- Não chores mais, sempre que puder, vou ajudar-te. Depois de lhe pôr a quinda à cabeça, desaparecia.

Certo dia, de tanto ir à lavra de noite, o vizinho Cayevala viu a menina a ir em direcção à lavra e seguiu-a sem que ela desse conta. Ao chegar à lavra viu a mãe da menina ajudando a tirar o milho e carregando a quinda à cabeça até próximo de casa.

De manhã, Cayevala foi contar a Cimanda o que tinha visto. Mas ele não quis acreditar. - Tens a certeza do que me estás a contar? A minha filha trabalha de noite na lavra a recolher o milho que eu cultivo?

Cayevala respondeu-lhe:

- A tua mulher manda-a à lavra de noite colher milho. E tem tido a ajuda de uma mulher que não consegui identificar quem era.

- A minha mulher é boa, nunca seria capaz de fazer isso à nossa filha. Não posso acreditar no que me vens contar!

Vê para crer. Hoje à noite, sem falta, fica à espreita! – Disse o vizinho Cayevala.

Cimanda não mostrou à mulher que suspeitava dela e comportou-se como todos os dias: foi á lavra e ao voltar para casa jantou e foi dormir.

Assim que a filha saiu de casa, alta noite, ele acordou, para espanto da madrasta, e esperou por ela até alta madrugada. Vendo que a filha nunca mais chegava, decidiu ir à sua procura
e ao vê-la a meio do caminho acompanhada por uma mulher tentou tirar- lhe a quinda e agarrá-la, mas o espírito da mulher desapareceu e ele ficou somente com a carga nas mãos.
E perguntou à filha:

- Quem te mandou à lavra?
E ela respondeu:
- Foi a minha madrasta.
De tanta tristeza, naquela mesma noite Cimanda mandou a mulher embora e passou a viver somente com a filha. A mãe ependa a mãe ependa ó cassingo n´dé ngongon tchilemenlã
n´dó enlim.

* Esta história foi-me contada por minha mãe, Estefânia N´gueve

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