Recreio

O cão abandonado no melhor da festa

Seke Ia Bindo | Recreio - Suplemento infantil do Jornal de Angola

O cão abandonado no melhor da festa
Contos Populares Angolanos
Fotografia: ARMANDO PULULO

Era uma vez o Cágado Vaidoso, a Lebre Saltadora, o Lobo Comilão e o Cão Abandonado. Encontraram-se ao entardecer numa clareira das matas do Belize e decidiram formar um grupo de amigos. Cada qual jurou que respeitava as fraquezas dos outros e jamais traía a amizade.

Ao Sol poente deram as mãos e firmaram o pacto. Desde então, para onde ia um, iam os outros. Se um encontrava comida, partilhava-a com os outros. Entre os quatro amigos reinava a paz e a concórdia. O grupo ficou tão forte que se aventuraram a ir pelo mundo à procura de aventuras. Nenhum mal os vencia, porque eram muito amigos, muito unidos e a união faz a força.

Um dia pegaram nas trouxas e partiram em direcção ao Sul, onde os velhos diziam que havia um grande rio que só podia ser atravessado em sólidas canoas de mafumeiras. Andaram, andaram até encontrarem o tronco de uma árvore atravessado no caminho.

O Cágado Vaidoso, como sempre bem vestido, disse aos amigos:
- Eu não posso sujar o meu fato, não vou contornar nem subir para este tronco. Por isso, devemos ficar aqui até que a madeira apodreça.

Os amigos eram tão unidos que aceitaram a proposta. E ficaram por ali a brincar, até que o tronco acabou por apodrecer. Só então prosseguiram a  caminhada em direcção do rio grande.

Andaram, andaram e chegaram a uma planície com um imenso capinzal. O capim era verdinho e tenro. A Lebre Saltadora, que nunca perdeu um tufo verde, disse aos amigos:
- Vamos ficar aqui até que eu acabe de comer este capim apetitoso.

Os amigos disseram logo que sim. E por lá ficaram. Quando o capim acabou foram andando rumo ao destino. Seguiam alegremente o seu caminho quando numa planície verdejante encontraram um palmar. As palmeiras estavam carregadas de cachos de dendém madurinho.

O Lobo Comilão começou logo a salivar e disse aos amigos:
- O dendém é a minha comida preferida. Vamos ficar neste palmar até que eu fique saciado com tanto manjar.

Os amigos concordaram e ficaram no palmar à espera que o lobo se fartasse de dendém. Passavam os dias e o lobo comia, comia, comia. Mas ninguém o apressou.

Até que um dia, escorrendo óleo dos cantos das beiças, ele disse aos amigos:
- Agora podemos partir, estou saciado de tanto dendém!

Os amigos puseram-se a caminho, em demanda do grande rio. Um dia encontraram uma grande mata onde havia muita lenha. O Cão Abandonado disse aos companheiros de viagem:
- Vamos ficar aqui! Fazemos uma fogueira para aquecer o meu nariz. Quando estiver bem seco vamos embora.

Todos concordaram e andaram pela mata à procura de paus secos. E fizeram um belo fogo para o cão se aquecer.

Mas a fogueira extinguiu-se e o nariz do cão continuava seco e húmido. Os quatro amigos foram procurar mais paus e fizeram nova fogueira. O nariz do Cão Abandonado continuava frio, frio...

Os amigos fizeram outra fogueira e o cão enroscou-se à beira do fogo, todo consolado. Em breve dormia profundamente. Foi então que o Lobo disse aos amigos:
- Vamos fugir daqui. O nariz do Cão Abandonado nunca mais aquece e está sempre molhado.

Os outros amigos, que estavam fartos de apanhar lenha, concordaram. E fugiram dali. Quando o cão acordou estava sozinho e a fogueira apagada. Os amigos nem sequer o avisaram. E jurou vingança para sempre.

Ainda hoje os cães são inimigos jurados das lebres, dos lobos e dos cágados. Mas com os lobos é que não querem mesmo nada.

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