Recreio

O homem rico e a amizade do pobre criado

Domiana N’Jila

Fotografia: ARMANDO PULULO

Era uma vez um homem muito rico e temido pelos seus súbditos. Ele era tratado por todos como okwassy, “homem rico e poderoso”. E de tanto ser tratado assim as pessoas já nem se lembravam do seu verdadeiro nome: Jacinto Otchilelembia Ocola.

De tanta riqueza acumulada tornou-se desconfiado. E mesmo os que se aproximavam de si por amor e admiração, ele pensava que eram atraídos pelo dinheiro. Os ricos ficam sempre pobres de espírito e não há santo que os salve!

Okwassy tornou-se milionário porque desde muito cedo trabalhou para ter o que comer e não depender de ninguém. Mas à medida que enriquecia sentia que as pessoas se aproximavam dele por interesse e isso fez com que se distanciasse dos outros, acabando assim por se tornar num homem frio e solitário. O dinheiro não lhe deu a lição mais importante da vida: um homem só não vale nada.

Por vezes apareciam familiares que o procuravam para relembrar os tempos de criança, quando jogavam à bola, mas ele estava cego de desconfiança e mandava- os embora. Tratava mal os súbditos, que muito faziam para garantir o seu bem-estar.

António Xavier “Ti Chico” era o mordomo chefe de Okwassy e sentiu um dia a necessidade de alertar ao seu amo para as crueldades que este cometia por desprezar e maltratar todos os que dele se aproximavam:
- Patrão! Tomei a liberdade de alertá-lo para o comportamento negativo que tem diante de todos os que se aproximam de si.
- Quem és tu para me dares conselhos, seu velho miserável? Eu sou Okwassy, não é assim que me chamam? Então posso fazer o que me apetecer. Sai e não voltes a incomodar-me.

Ti Chico pensou que o seu amo lhe ia dar ouvidos por tantos anos de dedicação que teve por ele, mas estava errado. Um dia, Jacinto Otchilelembia Ocola, o grande Okwassy reuniu-se com todos os seus colaboradores e pediu-lhes que lhe apresentassem todos os bens que possuía.
- Quero que me digam quanto é a minha fortuna!
O administrador financeiro respondeu:
- Okwassytem o suficiente para mais três gerações viverem em paz sem mover um dedo.
- Então já posso descansar. Sendo assim, deixo a gestão da empresa com alguém que sempre esteve comigo e nunca deu mostras de ser um traidor.
A pessoa da confiança de Otchilelembia Ocola era o administrador, Carlos Otchimbungo.

Okwassy depois de passar a administração dos seus bens aposentou-se. Certo dia foi ver como andavam os negócios e descobriu que já nada era seu. Foi escorraçado como um cão sarnento. Voltou a casa, mas estava fechada e todos os empregados se tinham ido embora, menos Ti Chico que esperou por ele para despedir-se. Mal o mordomo fez menção de partir, Okwassy ajoelhou-se e disse:
- Leva-me contigo meu amigo!
Ti Chico voltou-se e perguntou:
– Amigo? Já não sou um velho pobre e miserável?
- Leva-me para o teu lar, nem que eu tenha que ser teu serviçal. Imploro-te!
- Não preciso de um empregado. Apenas de alguém com quem compartilhar o que consegui com o meu trabalho e me respeite pelo que sou.
- Esse alguém sou eu. Aprendi que aqueles que nem sempre concordam connosco podem ser os nossos melhores amigos. Porque um amigo é aquele que tem coragem de nos chamar à razão mesmo quando está em causa a amizade.
- Ulumé Okuassy o iola iola épembe ounkuím noké Okwassy ialinga vo ounkuím. O homem rico desprezava o homem pobre, mas depois tornou-se também pobre. Moral da história: não devemos desprezar os outros por não terem o que temos, porque eles têm coisas que nós também não temos.

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