Recreio

O perfeito Wakayoka e a beleza de Thyihelilongwa

Seke Ia Bindo

Fotografia: CASIMIRO PEDRO

Dizem as velhas mulheres da Humpata que é impossível aprender a beleza, nascemos com ela, mas a inteligência ensina a viver melhor. As belas meninas casadoiras nasceram assim elas.

Os que nada sabem, podem aprender tudo, só morre ignorante quem quer. O jovem Wakayoka aprendeu a assar a carne sem nunca a queimar e Thyihelilongwa nasceu tão bela que causava inveja ao peito-celeste e a otiyfunya cristalina ficava sem vontade de matar a sede aos viajantes, quando via aquela beldade.

Esta é a história de um homem que aprendeu a ser perfeito e uma mulher que ofusca a bela flor imaculadamente branca do lufeti.

Wakayoka aprendeu a assar a carne sem a queimar porque sua mãe lhe ensinou que estragar comida é um grande pecado. Quem cozinha tem muita responsabilidade. Isto, ele aprendeu da mãe.

Mas do seu avô aprendeu uma coisa mais importante: quando estiveres sentado na margem do grande rio deves temer os ataques do jacaré. Ele vem escondido sob as águas, junto à margem e quando ataca mata ou rouba.

Mas quem na margem do rio apenas está atento ao ataque do jacaré, pode estar em risco de perder a vida. Porque o leão da anhara aproxima-se em silêncio e ataca pelas costas. Nem sequer sabes quem te tirou a vida. O avô Kamuti-okale falou assim:
nthilo k’ongandu, nondunge ku mwene-hika.

Também ensinou a Wakayoka o caminho da generosidade e do respeito pelo próximo. Nunca devemos julgar ninguém, de ânimo leve.

Só depois de conhecer todos os factos e todas as razões devemos fazer um juízo sobre os outros. Mas sempre benevolente e justo.

Disse o velho Kamuti-okale:
- Haimo-vo tyatwala omunthu watyo m’ouvi, nga hatypenye, otyitovi: uma pessoa só vai para o caminho do mal por duas razões. Ou foi desprezada ou então foi vítima de maus-tratos. Quem foi agredido, maltratado ou desprezado não pode sofrer uma segunda condenação ao ser avaliado injustamente pelos seus vizinhos na aldeia. Foi assim que Wakayoka aprendeu a ser perfeito.

A bela Thyihelilongwa nasceu assim bonita, como as manhãs de ar limpo na Humpata. Não se aprende a ser belo. Mas a vida, que é mais bela do que a beleza de todos os mundos, poder ser melhor se aprendermos os seus segredos.

Sua mãe levou-a ao mato para lhe mostrar as flores rubras do tyihanandimba, o arbusto favorito da lebre angustiada.

- Estas flores são belas, mas perdem a beleza se não forem sensatas. Thyihelilongwa foi levada pela mãe à ondondo, fonte sagrada da água que corre pelas veias da terra:

- Nada é mais belo do que a água fresca que sacia a terra e dá verdura aos pastos!

A menina registou no mais íntimo do seu ser, as lições maternas.

Foi assim que aprendeu a reconhecer a beleza do pastor que sai com seu gado do curral para a terra e ninguém, tão daninha que nem capim seco tem.

Os que o criticam por andar a vaguear pelos campos da fome, esquecem que se ele deixasse o rebanho no curral era bem pior.

Afinal não fez mal nem foi insensato. A mãe de Thyihelilongwa diz que ele é um herói, porque sofre com a fome e a sede dos seus animais:

- Wakalisa-ko mbae katombwa, omo om’onondunge mbae. Os sábios da Humpata dizem que quem fica parado evita descarrilar ou tropeçar. Mas também acaba por viver com a fome porque nada produz. Omphangu ike ikumana onombonde, kaikimane ondyala m’eimo.

Quem recebe a ração cozinha o seu manjar e nunca dorme como fome. A abundância é sua amiga. Os que recebem lenha sem sair da aldeia jamais terão frio porque nunca se deitam sem fogo: omwelelwa kalala n’ondyala.

Omutiavelwa kakala nyima. Assim termina a historinha do perfeito Wakayoka e a beleza de Thyihelilongwa. As virtudes aprendem-se e a beleza está nos olhos de quem a vê.

Tempo

Multimédia