Recreio

O Sol empobrecido e o Milhafre milionário

Domiana Njila

Fotografia: ARMANDO PULULO

Os tempos eram de vacas magras e de peste, até para os ricos. Os rios deixaram de correr e os pássaros de cantar. A fome era tanta que até os macacos ficavam paralisados no alto das árvores.

Os que tinham ouro ficaram pobres, porque o metal precioso ficou lata. Os que tinham dinheiro perderam tudo, porque um pouco de água custava uma fortuna.

Apenas o Milhafre que vivia no alto das montanhas que cercam o Mayombe tinha fortuna, porque a escondeu entre os rochedos pontiagudos onde fez ninho.

O Sol empobrecia todos os dias e lançava sobre a Terra uma luz andrajosa que não iluminava. Estava a dar as últimas. Até que a Lua lhe disse que o Milhafre era senhor de uma grande fortuna, que escondia nos rochedos da mais alta montanha de Cabinda.

Então desceu lá das alturas e encontrou o Milhafre comendo restos de perdiz.

- Milhafre, estou muito pobre e já não tenho forças para iluminar a Terra! Podes emprestar-me algum dinheiro? Confia em mim, todo o mundo sabe que não há melhor pagador do que eu.

- Sol, tu que és grandioso como um rei, só me pedes dinheiro porque a vida está péssima. Empresto-te a quantia que quiseres, mas tens que me devolver o  empréstimo na próxima Lua Cheia.

O Sol aceitou a proposta e saiu do Mayombe com tanto dinheiro, que as moedas de ouro e prata arrancavam chispas de luz no rio Chiloango.

Quando chegou a Lua Cheia, o Milhafre preparou um banquete para receber o Sol. Bom pagador como era, não ia faltar ao prometido. Mas as horas do dia escoaram-se e ninguém apareceu.

No dia seguinte, bem cedo, o Milhafre saiu do ninho e voou em direcção à casa do Sol. Voou, voou, mas não conseguiu encontrar o devedor. No dia seguinte, nova viagem até aos confins da Terra. Passou o grande rio Zaire, ficou a descansar no alto de uma muanza nas margens do rio Mbridge. Ali pernoitou. Voou de novo, até ao mar do Ambriz.

Depois desceu até à ilha do Zimbo. Até que encontrou o Sol, poisado nas águas da Barra do Kwanza.
- Sol, tu és bom pagador, mas faltaste ao prometido. Quando me pagas a dívida?
- Sim, eu sou bom pagador e vais receber em dobro o que me emprestaste, mas tens que ir receber a minha casa. Eu não pago dívidas na rua. Dito isto, desapareceu nas águas e caiu subitamente a noite. O Milhafre regressou a casa furioso com o Sol. Foi caçar para junto da aldeia e encontrou
o Galo.
- Tu que sabes tudo, podes dizer-me onde fica a casa do Sol? – Perguntou o Milhafre.- Diz-me primeiro em que direcção procuraste a casa do Sol.
- Parti a voar, desde o Mayombe até à Barra do Kwanza, onde o encontrei em cima das águas, a descansar.

O Galo começou a rir: - Kiekie-kiekie, kiekie-kiekie. Coitado e ti! Vou ensinar-te o caminho para a
casa do Sol. Voltas as costas para o Poente e à tua frente está a casa do Sol. Mas tens que ir muito cedo, porque ele lava a cara quando eu canto pela primeira vez em cada amanhecer.

O Milhafre agradeceu ao Galo e na madrugada seguinte voou em direcção ao Nascente, sempre com o Poente pelas costas. Quando chegou ao destino, estava o Sol lavado e vestido com um manto de ouro, pronto a sair de casa.

- Milhafre, quem te indicou o caminho da minha casa?
- Foi o Galo da minha aldeia, que anta pela primeira vez em cada dia, quando tu lavas a cara.

O Sol desta vez cumpriu a promessa e pagou a dívida em dobro. Mas impôs uma condição:
- A partir de hoje comes todos os galos que puderes, as galinhas e os pintainhos.
Se não cumprires, derreto todo o teu dinheiro e faço de ti um carvão.
O Milhafre regressou a casa e desde então, passa a vida a comer galos, galinhas e pintainhos.

Bukuabu nbongo bupodicocubufiataco. Os ricos não são de fiar!

*Esta história foi-me contada por José Casimiro em Cabinda

Tempo

Multimédia