Recreio

O velho soba e o sobrinho em viagem pelo mundo

Seke Ia Bindo

Era uma vez um velho soba que resolveu ir dar a volta ao mundo, com o seu jovem sobrinho, seu companheiro de caçadas e sempre sedento de saber tudo sobre a vida, desde o primeiro suspiro à tristeza do momento da partida para a grande floresta, onde não há frio nem calor, nem cobra nem miruí, nem pedrinha de sal nem nada que faça mal. Partiram ao amanhecer em direcção ao rio Chiloango, porque para lá das suas margens era o caminho que conduz ao fim da Terra.

Nas matas longínquas do Maiombe nunca ninguém viu um rio assim, impossível de transpor a não ser de canoa. O velho soba, na sua juventude, tinha acompanhado o seu pai em ongas viagens entre Lândana e Ponta Negra, ao longo da costa do Loango. E aprendeu a fazer jangadas.

Pacientemente foi cortando pequenos troncos, alinhou-os e foi amarrando um a um, com cordas que ele mesmo fabricou com as trepadeiras que pendiam sobre o rio, a partir das alturas das mafumeiras. Passaram três dias e três noites e a jangada ganhou a sua forma definitiva.

O jovem sobrinho do soba estava impaciente, queria trilhar rapidamente o caminho que leva ao fim do mundo.

Quando concluíram o trabalho, puseram a jangada na água. E no momento em que tio e sobrinho embarcavam, chegou um jovem, bem vestido, bem-parecido, com livros debaixo do braço. Era um estudante universitário brilhante, que sabia tantas coisas como os velhos da aldeia do soba.
- Posso embarcar na vossa jangada?
– Perguntou.

E o velho soba estendeu-lhe imediatamente a mão para que entrasse na jangada com segurança. O jovem estudante sabia muito e gostava de mostrar a todos que era um sábio.

Ao ver o soba vestido com a sua humilde roupa, quase andrajoso, pensou que estava perante dois camponeses ignorantes que nunca tinham visto nada para além da floresta do Maiombe. Quando a jangada chegou a meio do rio Chiloango, o estudante universitário perguntou ao velho soba:

- Velho jangadeiro, sabes o que é a geologia, a psicologia e a filosofia? O soba parou de ximbicar, ficou a pensar, a pensar, mas não se lembrou do dia, da hora ou de alguma vez ter ouvido pronunciar essas palavras.

- Não, jovem. Sou muito velho mas nunca em dias da minha vida
 ouvi falar disso.

- Estás a ver, és velho mas afinal não sabes nada. Se fosses um universitário, como eu, conhecias estas coisas e tinhas respostas para tudo.

Assim vais ser toda a vida jangadeiro. E o teu sobrinho vai crescer na ignorância e seguir o caminho exactamente igual ao teu.

Ao ouvir estas palavras, o velho soba, de repente, abanou a frágil jangada e o estudante caiu ao rio. O jovem não sabia nadar e começou a gritar por socorro, enquanto se debatia desordenadamente, para não ir ao fundo. O soba então perguntou ao estudante.

Conheces a nadargrafia, a sufocologia e a morrelogia? Hoje vais aprender uma lição que ninguém te ensinou na universidade: beber águalogia!

O jovem estudante estava cada vez mais aflito porque se engasgou com tanta água que bebeu. Estrebuchava desastrado, mas não conseguia manter a cabeça à tona da água. Quando o velho soba viu que ele estava quase a afogar-se, estendeu-lhe o pau de ximbicar e salvou-o da morte, içando-o para a jangada.

Moral da história: Bika bá mamu zabisi ou Fumu ijabu. Ninguém sabe tudo e todos sabem alguma coisa.

* Esta história foi-me contada por João Barros

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