Recreio

Os sortilégios de Kapavasa e a sabedoria das mães

Seke Ia Bindo

Kapavasa era mais velho do que a serra da Chela e tinha artimanhas de feiticeiro.

O seu olhar atraía o bambi e os grandes nunces das savanas. Os seus cânticos aliviavam doenças e prendiam corações. Com as moças novas parecia um jovem caçador. Com as velhas perdia o andar e curvava o rosto até ao chão.

A fama dos seus sortilégios chegava até aos confins dos Gambos e muito para lá de todos os rios e riachos conhecidos ou escondidos nos areais.

Viyalu era um jovem vaidoso que queria ser rei dos ares e das florestas. Sonhava casar com todas as meninas bonitas da região. Mas era sempre rejeitado.

Um dia foi procurar o velho Kapavasa no seu arimo escondido para lá do grande rio. O caminho estava cheio de pedras  espinheiras.

Quando Viyalu chegou à terra dos sortilégios, tinha os pés em sangue, o corpo retalhado pelos espinhos. Metia pena aos corações empedernidos e asco aos cães tinhosos.
- O que fazes tão longe dos caminhos abertos? – Perguntou Kapavasa.
- Venho pedir-te o sortilégio do amor e a força do leão das anharas.
O velho agasalhou-o em sua casa, limpou-lhe as feridas e deu-lhe comida.

Quando Viyalu ficou com ar de ser humano, Kapavasa disse ao jovem vaidoso:

- Oviyalu vya hima viipola k’enyana avilieta k’ongongo! Os devaneios da tartaruga levam-na a sair do conforto do rio e a aventurar-se no areal. Dito isto o velho Kapavasa soltou uma gargalhada sarcástica e acrescentou:

- Quando as feridas dos teus pés sararem, regressa ao teu rio porque lá terás tudo o que precisas. Ninguém vai beber água para o deserto.

Viyalu percebeu que tinha feito uma triste figura e sentiu-se humilhado. Ninguém pode ter tudo, é preciso aprender a viver com o que está à nossa volta. O desconhecido pode esconder a fortuna, mas também a desgraça. Para Viyalu não se sentir tão humilhado
que carregasse para sempre uma inferioridade dolorosa, Viyalu contou-lhe ma história que vivera há muitos anos as terras da Huíla.

Era uma vez uma terra chamada Muhandyalakata, onde existia muita fartura, pouco frio e os ventos eram suaves. Nessa ldeia harmoniosa havia um jovem louco, que se chamava Mbambi.

O homem passava os dias vagueando por montes e vales, falando sozinho sem querer saber dos que o rodeavam. Por vezes parava numa colina e desafiava o mundo com a sua loucura. Apenas lhe respondiam os passarinhos e a brisa breve.

Um dia Mbambi acercou-se dos seus vizinhos da aldeia e um velho bondoso ofereceu-lhe uma laranja suculenta. O louco tirou cuidadosamente a casca e depois começou a comer o fruto, gomo a gomo. Os jovens provocavam-no em grande algazarra, para ele fazer os disparates próprios dos loucos. Mas ele alheou-se de tudo e saboreava a sua laranja. Até que um jovem se acercou de Mbambi e disse:
- Dá-me a tua laranja, tenho fome!
- Não dou, que ela é doce e saborosa!
– Respondeu o louco.

O velho bondoso soltou a sua voz de comando: ame ndyinyoko! O silêncio invadiu a aldeia e apenas se ouviam os suspiros de prazer de Mbambi.
- Um coro desafinado perguntou: o que temos que saber?
O velho respondeu sorridente:
- Vocês pensavam que naquela cabeça só há maluqueira varrida, mas estão enganados. Na hora da verdade ainda há um resto de juízo! No mundo tudo tem uma face oculta. Viyalu compreendeu a lição de Kapavasa  preparou a trouxa a fim de regressar a casa quando o sol nascesse.
- Nunca mais percorras caminhos fechados, cheios de pedras e espinhos, procurando o que tens perto de ti e dos teus. Não há feitiço que se sobreponha à vontade humana e aos que amam a liberdade.

Ao amanhecer Viyalu partiu de regresso ao seu chão, lá longe, nos Gambos.

Quando pegou na trouxa e se preparava para percorrer o doloroso caminho do regresso, Kapavasa deu ao jovem um abraço e disse em surdina estas palavras:
- Quando quiseres saber se está frio, pergunta ao cão, mesmo que ele esteja à beira da fogueira. Mas se quiseres saber o que fazer, nunca te esqueças que a medida da harmonia e do sucesso é o bom senso. E sobre isso só podes interrogar a tua mãe. Outalala pula k’ombwa. Onondunge pula ku nyoko.

Viyalu regressou a casa e viveu os seus dias em paz, aceitando o que suas mãos conseguiam e a luz dos dias, mesmo os mais sombrios. Aprendeu que quando se trata de bom senso, os velhos muitos velhos dizem aos jovens perdidos: ame ndyinyoko!

Eu sou vossa mãe!

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