Reportagem

A beleza e a riqueza escondidas de Addis-Abeba

Diogo Paixão | Addis-Abeba

A capital da Etiópia alberga a sede da União Africana e também da Comissão Económica das Nações Unidas para a África. À primeira vista, Addis-Abeba oferece a imagem de uma cidade rural, onde os casebres, de construção quase primitiva, disputam o mesmo espaço que os edifícios altos e modernos.

Fotografia: DR

Com os “musseques” encravados no casco urbano, a capital etíope é uma cidade de contrastes. A pobreza e a miséria são indisfarçáveis. O parque automóvel é dominado por viaturas antigas, algumas das quais dos anos 1960, mas também há muitos carros modernos.
Os Lada, que há décadas enchiam as ruas de Luanda e já fora de linha de fabricação, ainda percorrem Addis-Abeba e em grande número. Até parece que há uma fábrica na Etiópia. Tal como os Hiaces, servem o serviço informal de táxi, actividade prestada também por mini-autocarros.
Duas pessoas são responsáveis por cada viatura: o motorista e um cobrador, que os etíopes chamam “weyala”. Tal como em Angola, este recolhe o dinheiro e define a rota.
Para matar a curiosidade e estabelecer comparação com os nossos “azuis e branco”, eu e o colega André dos Anjos tomámos um destes Hiaces. “Ensanduichados”, percorremos cerca de um quilómetro e, voluntariamente, desembolsamos cinco birres cada (cerca de 55 kwanzas), valor superior ao exigido. Como dizia Dos Anjos, até nisso África é homogénea. Em Addis-Abeba, passageiros também vão na “baúca”.
Facto curioso é que, apesar da caducidade das viaturas que fazem este tipo de serviço, dificilmente deitam fumo, o que revela o engenho dos etíopes na mecânica. Ao questionar um taxista como é que os etíopes conseguiam manter em funcionamento um meio tão caduco, a resposta veio como uma flecha: “quem tem velho tem de se transformar em mecânico”. E fez ainda uma revelação: “grande parte das peças são adaptadas”.
Esta realidade levou-me a Cuba, onde os Chevrolet mais antigos ainda são utilizados. Por razões financeiras, o etíope pouco recorre ao táxi personalizado.

Uma cidade perdida
na imensidão
Cidade que se perde na imensidão, a capital etíope tem características próprias. O trânsito é intenso e desorganizado. A lei de prioridade parece que foi apagada do Código de Estrada. A travessia de peões nas passadeiras também não é respeitada, o que obriga as pessoas a fazê-lo atabalhoadamente. Na maior parte das vezes, atravessam a correr. Ainda assim, há poucos acidentes rodoviários.
Não sendo impecáveis, as ruas, arborizadas, não apresentam buracos como as de Luanda. Em contraste lamentável, em grande parte da cidade, os passeios não existem ou estão partidos, situação que dificulta a vida aos transeuntes, principalmente às senhoras de salto alto. Em função disso, a poeira não falta.
A prostituição é campeã. De noite, raparigas de saias curtas e com outras roupas provocantes, donas de uma beleza estonteante, expõem-se nas ruas com um olhar convidativo. As mais ousadas - e não são poucas –, fazem convites verbais.
A mulher etíope é conhecida pela beleza. Há quem diga que é o modelo da beleza africana. Verdade ou não, tem atributos invejáveis.

Crescimento a olho nu
Addis-Abeba não são só males. Por detrás dos problemas, que reflectem o grau de pobreza do país, há riqueza e beleza escondidas. Grandes construções estão em andamento. Edifícios, avenidas e viadutos estão a ser erguidos, deixando para trás países com maiores potencialidades económicas. E a construção é feita com material local. Andaimes de paus são vistos em todos os prédios que estão a ser erguidos.
A Etiópia é um dos países que mais cresce economicamente no continente. É o 10º no PIB per capita e 12º no PIB nominal. A rede hoteleira e de restaurantes é grande. Hotéis de cadeias internacionais estão espalhados por todos os cantos e não cessam de aumentar. Afinal, é a capital da diplomacia continental, por albergar a sede da União Africana e também da Comissão Económica das Nações Unidas para a África.
A sede da União Africana é um majestoso edifício de 20 andares e 31 salas de conferência, dominando toda a zona administrativa da capital etíope. Inaugurada em 2012, à sala principal de conferência foi atribuída o nome de Nelson Mandela, em homenagem ao primeiro Presidente negro sul-africano.
São mais de 120 missões e Embaixadas em Addis-Abeba, o que obriga a um investimento sério no domínio da hotelaria. A cidade é rodeada de montanhas e de matas cobertas de eucaliptos, que oferecem um clima agradável, com baixas temperaturas.
Um aspecto que desperta atenção é a falta de contentores. Mas não se vê lixo nas ruas. As poucas farmácias que existem estão quase sempre vazias. A explicação é que os etíopes privilegiam a medicina natural, em detrimento da moderna.

Vida nocturna e segurança

A vida nocturna em Addis-Abeba é muito animada, principalmente ao fim de semana, e os restaurantes quase que não fecham. A segurança pública é maior que em muitas outras cidades africanas. São raros os casos de violência. Isto reflecte-se na actuação da Polícia. Dificilmente exibe armas de fogo, salvo em casos excepcionais. Os únicos instrumentos que ostenta são porretes e algemas.
No entanto, o forasteiro tem de se preocupar com os meninos de rua. Às vezes, assediam-no, oferecendo serviços ou pedindo esmola. Num ápice ..., a carteira ou o telefone foi-se. A riqueza de Addis-Abeba está também na humildade da sua gente e na multiplicidade cultural. Ao contrário do que acontece noutras partes, cristãos ortodoxos – que são a maioria - e muçulmanos convivem em harmonia. O visitante é tratado com respeito, sem qualquer tipo de discriminação.
O país segue o calendário juliano. Significa que, enquanto estamos em 2019, os etíopes ainda estão em 2011. Quando marcar uma hora com um etíope, convém confirmar se se refere ao tempo universal ou ao horário local, devido à diferença de horas. Por exemplo, quando são 9 horas (tempo universal), no horário etíope ainda são 3 da madrugada.
É algo que parece estranho para nós.

 

 

Tempo

Multimédia