Reportagem

A batalha de Cunhinga pelo progresso e para apagar as memórias da guerra

Mário de Carvalho | Bié

O Município do Cunhinga, que dista 30 quilómetros da sede da Província do Bié, tem uma população estimada em 75 mil habitantes e uma extensão territorial de 1. 509 quilómetros quadrados, renasce dos horrores do passado, fruto do alcance da paz.

 


Aposta na Agricultura para reaver o estatuto de celeiro de trigo
Fotografia: Santos Pedro | Edições Novembro

No sector da Educação do Cunhinga estão enquadrados 1.142 professores, contra os 200 que possuía até ao ano de 2002, quando se efectivou a conquista da paz. O município conta hoje com uma Escola do Magistério Primário e uma outra do Ensino Secundário, estabelecimentos inexistentes anteriormente.
Parte dos professores do Ensino Secundário são licenciados, provenientes da sede capital da Província, que dinamizam o sector da Educação nesta municipalidade. 
No Cunhinga foram construídas várias escolas nos centros administrativos das embalas grandes e pequenas. As autoridades locais desenvolvem acções no sentido de continuarem a construir escolas nas aldeias que têm um número suficiente de alunos.
Tal como noutros pontos do país, o Cunhinga tem ainda crianças fora do sistema de ensino e aprendizagem. O número é de, aproximadamente, 1.150, o que constitui um desafio para o Governo Provincial, que colocou entre as prioridades para o quinquénio 2018/2022 a construção de mais escolas e a eliminação deste fenómeno.
Quanto ao ramo da Saúde, o Município está contemplado com 17 unidades, entre elas duas de referência: o Hospital Missionário do Vouga, com equipamentos de ponta e quase todos os serviços instalados, e o Hospital Municipal.
O Hospital do Vouga é uma unidade religiosa comparticipada pelo Governo de Angola. A sua sustentabilidade é garantida por uma quota dada pelas autoridades governamentais. Com orçamento fornecido, graças a essa parceria, é possível dar resposta às necessidades dos doentes que procuram aqui os seus cuidados médicos.
O Município conta ainda com um Centro de Saúde com uma capacidade de internamento de 30 doentes, situado na Comuna do Belo Horizonte.  Outra unidade, com a mesma capacidade, está localizada no centro administrativo da Tunda Chivava, por sinal a única circunscrição territorial que em toda a Província do Bié tem um estabelecimento do género. Nos variados pontos populacionais há ainda 15 Postos de Saúde.
Os serviços de Saúde no Município do Cunhinga são suportados por sete médicos de nacionalidade cubana, dois angolanos e aguarda-se, a qualquer momento, a chegada de outros seis nacionais.
As enfermidades que mais afectam as populações são a malária, as doenças respiratórias e diarreicas agudas. Nos últimos tempos, vários cidadãos apresentam sinais de hipertensão arterial, o que preocupa as autoridades de saúde.
O Município conta com uma central eléctrica, com quatro grupos geradores, que fornecem energia à população das 18 horas à meia-noite. Os constrangimentos existem por falta de manutenção destes equipamentos e de verbas.
Para ultrapassar este problema, o Executivo tem em carteira o projecto de usar a linha de transporte de energia eléctrica proveniente da Barragem Hidroeléctrica do Gove, localizada na Província do Huambo, que chega ao Cuito, e daí estender até ao Cunhinga.
Este projecto já foi aprovado, aguardando-se o início dos trabalhos, pois a aquisição de material de reposição para os grupos geradores tem custos elevados, como disse à nossa reportagem a Administradora Municipal do Cunhinga, Celeste Elavoco Adolfo.

Água e saneamento


Quanto à água, o Cunhinga anteriormente possuía um sistema, com uma capacidade de bombear 30 metros cúbicos do precioso líquido. Actualmente,os sistema está a ser ampliado, com recurso à linha de crédito da China, que vai beneficiar mais de duas mil famílias.Na sede municipal, os bairros periféricos estão contemplados e nas zonas mais longínquas estão a ser colocados chafarizes e torneiras de quintal.
Trata-se de um projecto ambicioso. Os trabalhos decorrem bem, o que representa uma mais-valia para a população, pois vai ajudar a diminuir as doenças causadas por consumo de água imprópria.
Inserido no Programa “Água para Todos”, é ainda responsabilidade da Administração Municipal continuar a implementar sistemas de painéis solares e pequenos pontos de água em todas as comunidades onde o precioso líquido é impróprio para o consumo.
O saneamento básico é realizado por uma brigada pertencente a Administração Municipal, que tem o dever de recolher todos os resíduos da vila.Já nos demais bairros periféricos existe o costume de solidariedade entre a comunidade, bem como a mobilização feita pelas autoridades tradicionais no sentido de se fazerem aterros, evitando o surgimento de doenças causadas pelo lixo.
No passado, o Município do Cunhinga foi considerado o “Portão de Ferro”, por registar fortes combates, situação que afectou grande parte das áreas de cultivo, onde foram colocadas minas e outros engenhos explosivos. Com a chegada da paz, estes lugares foram libertado dos artefactos de guerra e a população regressou ao campo, reiniciando a produção agrícola.
O Cunhinga foi também o celeiro de trigo. Para voltar a esta denominação, as autoridades, em colaboração com Projecto de Desenvolvimento da Agricultura Familiar e Comercialização (MOSAP) voltam a implementar o cultivo do trigo na Comuna do Belo Horizonte, onde é esperada uma boa safra.
A produção de milho, feijão, soja, mandioca e batata-rena e doce tem sido a aposta das populações.

Tempo

Multimédia