Reportagem

A "Chinatown" de Luanda

Yara Simão

Preços baixos e abertura acelerada de postos de trabalho são princípios que regem a “Chinatown” de Luanda, local onde, habitualmente, em todo o mundo, se concentram os habitantes chineses e se vendem os mais variados produtos de origem chinesa.

Fotografia: José Soares | Edições Novembro

Um grupo de empresários  chineses está também apostado em desenvolver essa “Cidade da China” em Luanda, com o fito de que pretendem contribuir para diversificação do mercado angolano.
Com efeito, a empresa “Hua Dragão - Comércio Geral”, já registada legalmente em Angola, está a investir fortemente nesse projecto da “Chinatown” da capital angolana.
Fundada em 2014 por Chen Xiao Jun, a “Hua Dragão” está a sobressair em Angola no ramo dos imóveis, indústria, comércio (a retalho e a grosso) e de importação e exportação. O sócio-gerente da empresa, Chen Xiao Jun, está a responsabilizar-se por todo o investimento, construção e funcionamento da “Chinatown” de Luanda.
A “Chinatown” ocupará uma área de 245 mil metros quadrados, mas o espaço total de construção é de 150 mil metros quadrados.
A “Cidade da China” está localizada dentro do Pólo Industrial de Viana (PIV), junto da Via-Expresso, ao lado da entrada do Zango, a 30 quilómetros de Luanda e 20 minutos do novo Aeroporto Internacional, pela estrada.
O empreendimento chinês está dividido em três fases. A primeira fase, de conclusão da zona comercial, com uma área de construção de 66.000 metros quadrados, infra-estrutura interna e um espaço residencial, com  12.600 metros quadrados.
A primeira fase está pronta para a sua inauguração, ainda este mês.
A primeira fase está com uma capacidade de 180 instalações comerciais, 45 por cento das quais já estão a ser usadas pelos clientes para fazerem os seus negócios.
Estão concluídos 40 por cento da zona residencial.
A Chinatown de Luanda está a ser construída como o maior projecto comercial em Angola, com uma capacidade de 360 instalações mercantis, tendo os seus promotores a finalidade de influenciar o desenvolvimento económico de Angola.
A simbiose entre o verde da relva, as acácias e as naves que albergam as lojas tornam a “Cidade da China” um cartão postal atractivo.
A primeira fase da obra é de 15 naves, que comportam de 14 a 16 lojas, de 300 metros cada uma, que já estão prontas a funcionar.
A segunda fase inclui a construção de edifícios residenciais do tipo T2 e T3. Esta parte do empreendimento, ainda em obra, vai permitir erguer 294 apartamentos.
A terceira fase vai albergar estruturas e naves para as pequenas fábricas.
De acordo com o projecto, a que o Jornal de Angola teve acesso, o espaço é vedado e cimentado, com ruas definidas e sinalizadas, onde existe uma estrutura sanitária à altura das necessidades e um bom sistema de drenagem das águas pluviais residuais.
Durante algum tempo, os empresários chineses estudaram áreas de investimento em Angola que pudessem acolher a Chinatown, até que concluíram num investimento na área de imobiliária, num complexo comercial de prestação de serviços mercantis, forma de transportar aos poucos a economia informal para a formal.
A ideia do espaço é construir um mercado oficial urbanizado, digno de nome, que venha absorver o mercado informal existente em Luanda, criando diversidades de opções mercantis, uma espécie de “bolsa de negócios”, onde os agentes económicos expõem e vendem livremente os seus serviços e produtos, por meio do arrendamento dos imóveis.
A empresa “Hua Dragão - Comércio Geral” considera que a expansão de mercados formais vai fazer de Angola e de Luanda, em particular, um lugar desejado que contribua para a concentração de vários serviços em apenas um local. Na “Cidade da China”  funcionam já vários lojistas.
A maior parte dos espaços está sob responsabilidade de angolanos, chineses, libaneses, camaroneses, portugueses, malianos e brasileiros. Todos eles comercializam produtos diversificados, com destaque para vestuário, electrodomésticos, material de construção e outros.

Mercado garantido

A “Chinatown” está já sob o olhar dos vendedores informais. Todos os dias, centenas deles acorrem ao local comprar balões de fardo para  revenda. Os preços são para todos os bolsos. São mais de dez armazéns a comercializar balões de roupa usada, vindos de vários países.
Entre os clientes, há maioritariamente mulheres. Letícia Diogo, uma das clientes conhecidas, porque compra duas vezes por semana balões para revender.
“Vim comprar roupa guineense. Está na moda e os clientes encomendam. O balão custa 80 mil kwanzas. É de boa qualidade e o preço é justo”, disse com alegria, acrescentando: “este centro comercial veio ajudar”. 
Segundo Lectícia Diogo, “o centro comercial veio ajudar os revendedores, porque muitas mulheres, com 30 mil kwanzas ou mesmo menos, começaram o seu próprio negócio e já conseguem dinheiro para as despesas das suas famílias. Outras mulheres que abraçaram o negócio, provenientes de várias províncias, chegam a comprar dez a quinze balões.”
Patrícia dos Santos, de 23 anos, viu na venda de fardos o negócio para poder pagar a Faculdade e dar continuidade aos seus estudos. “Não consigo arranjar emprego. Depois, ainda não terminei a formação. Por isso, estou a entrar para este negócio e poder pagar as propinas da Faculdade”, sublinha a comerciante.

Produtos de qualidade

Patrícia não está sozinha no negócio. Para poder comprar um dos melhores balões, criou uma sociedade com as amigas para comprarem o produto de qualidade.
Elas escolheram roupa de crianças, por ter muita saída. “Aqui, o balão infantil tem vários preços e não custa muito caro. Conseguimos fazer um balão de 60 mil kwanzas. No final, vamos tirar o valor inicial e dividir os lucros”, disse a comerciante angolana Ana Sebastião. Catarina e a sua colega Amélia estão satisfeitas com o negócio, pois recebem clientes de todas as classes sociais e bolsos.
“Todos vestem as nossas roupas, muitas ‘madames’ e até os famosos vêm comprar as roupas”, frisou Catarina, acrescentando que no frio os casacos, os fatos de treino, as camisolas e até os cachecóis são as peças que mais saída têm e o preço é acessível.
No calor, a procura de roupas frescas e confortáveis também é grande, segundo as vendedoras que afirmam que os calções curtos, saias, blusas e vestidos são as peças que mais vendem.
Os homens também estão a aderir a este negócio. Francisco Baptista é um deles e diz que está no negócio há mais de cinco anos. Vende no Mercado Asa Branca.
“A ‘Cidade da China’ veio ajudar-nos, porque, com a abertura destes armazéns todos e a preços baixos, também temos como vender a preços acessíveis”, disse, acrescentando que outro benefício é que mais pessoas podem encontrar uma forma de conseguir rendimentos  na venda de fardos, por ter preços para todos os bolsos.
A concorrência não assusta nem aos vendedores, nem aos compradores que minuciosamente escolhem os produtos que mais lucros lhes dão, como disse Paula da Glória: “Aqui, o segredo é saber escolher. Tem fardo para todo o tipo. Geralmente, primamos pela qualidade, porque é ali onde tiramos mais lucro”.

Capitais investidos

A segunda fase da “Chinatown” começa com a conclusão da zona residencial, zona industrial e do centro de armazéns.
A escala da área de construção geral da segunda fase chega a 58.180 metros quadrados, com um orçamento calculado em 70 mil kwanzas por metro quadrado.
O capital investido pela “Hua Hua Dragão - Comércio Geral” na zona industrial é de 4,1 mil milhões de kwanzas.  A zona residencial está calculada em 75 mil kwanzas por metro quadrado e o investimento vai chegar a um valor de 567 milhões de kwanzas.
Quanto à infra-estrutura interna da segunda fase, o valor ronda os 600 milhões de kwanzas.
O investimento global do capital vai chegar a um valor avaliado em 5,2 mil milhões de kwanzas.
Neste momento, a primeira fase já entrou em recuperação de investimento, com um reembolso calculado num valor mínimo de 1,4 mil milhões de kwanzas, com a referência da movimentação numerária, descontada a despesa do funcionamento da empresa, no valor de 170 milhões de kwanzas, segundo o sócio-gerente, Chen Xiao Jun.
Com a conclusão da primeira e da segunda fase, de uma escala de área de construção global de 120.000 metros quadrados, a empresa tem previsto, nas suas contas, um reembolso anual de 2,7 mil milhões de kwanzas, o que lhe dará uma capacidade de devolução anual de um 1,4 mil milhões a 1,7 mil milhões de kwanzas, ou seja, teria uma capacidade de conclusão de devolução do empréstimo bancário e taxas de juro entre quatro e cinco anos, referiu ainda o responsável de todo o funcionamento da “Chinatown”.
A empresa “Hua Dragão - Comércio Geral” está com um défice de capital de entre quatro e  4,5 mil milhões de kwanzas e espera, segundo Chen Xiao,  apoio financeiro de uma instituição bancária, para concluir este imponente empreendimento que mexe com o mercado.


Jovens conseguem o primeiro emprego
no empreendimento na Zona Económica


A criação de mais postos de trabalho, sobretudo numa corrida onde não é exigida experiência de trabalho, está a fazer com que muitos jovens adquiram o tão almejado primeiro contacto com o mercado de trabalho.
Palmira Zua adquiriu o seu primeiro emprego como caixa de um armazém. Ela garante que conseguir emprego na “Chinatown” não é fácil, porque são muitos à procura de emprego. “Eu consegui, graças a Deus. Este é o meu primeiro emprego e estou feliz porque, nos últimos tempos, está muito difícil conseguir emprego em Luanda. Mas, aqui na ‘Cidade da China’, quando abrem armazéns, as mulheres são escolhidas para trabalhar no caixa e isso é bom, porque até eles estão a priorizar a juventude”, disse.
Para Francisca Ebo, já a trabalhar há seis meses como operadora de caixa, o salário não é dos melhores, mas compensa, como disse. “Estou feliz com este emprego e o salário já dá para pagar os meus estudos. Espero que outras raparigas consigam também aqui o seu primeiro emprego”, disse, acrescentando que os estrangeiros preferem ter angolanos a trabalhar nas suas lojas devido à linguagem.
Os rapazes têm mais facilidade de conseguir emprego. A maioria trabalha como carregadores. Estes são em maior número, devido ao fluxo de entrada e saída de camiões com mercadorias. António Jacinto, um dos muitos estivadores da “Cidade da China”, carrega mais de 20 balões de fardo às costas por dia. Consegue levar de 15 a 20 mil kwanzas por dia.

Projectos sociais do grupo vão obedecer
os regulamentos e leis vigentes em Angola


O grupo “Hua Dragão” já tem participado em várias actividades sociais conjuntamente com a Administração Municipal de Viana. No âmbito da  responsabilidade social, estão bem encaminhados com a existência de projectos concretos concebidos para beneficiar os mais necessitados.
Como a “Cidade da China” ainda se encontra em fase de projectos, não se conseguiu atingir a dimensão social pretendida, mas tão logo o projecto termine, vão ser realizadas outras actividades pela própria direcção da empresa.  Um desses projectos sociais é o patrocínio de bolsas de estudo para a China, com tudo pago pela empresa. Esta iniciativa vai ter início em 2019 e os contactos estão a ser feitos com as autoridades dos dois países, através dos ministérios das Relações Exteriores, Educação, embaixadas de Angola e da China.
Desde o início do projecto do empreendimento, a “Hua Dragão” obedece às leis e regulamentos em vigor em Angola, assumindo a responsabilidade social de uma empresa nacional. Em carteira, já está um plano anual de formação técnica dos funcionários angolanos no estrangeiro para promover o nível tecnológico dos colaboradores.
“O emprego está difícil, mas este é o que consegui e estou a trabalhar bem. Aqui é tudo organizado, não há confusão nem mesmo assaltos. Os chineses fizeram bem em construir este espaço, porque somos muitos jovens aqui a trabalhar como estivadores, com direito a passe de entrada”, contou António Jacinto, um dos beneficiados pela “Cidade da China”.

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