Reportagem

A derrota do apartheid em Tchipa e Calueque

José Ribeiro |

Com a derrota sul-africana na Batalha do Cuito Cuanavale, o regime de apartheid  retirou as suas unidades ali estacionadas para o Cunene, onde se deu a Batalha do Tchipa-Calueque, que convenceu de vez os sul-africanos a sairem de Angola.

Presidente da República comanda as tropas na Cahama
Fotografia: Arquivo Edições Novembro

Em Junho de 1988, depois das unidades das FAPLA, FAR e PLAN terem sido enviadas para a área à Norte da linha que vai do Namibe (Oeste) por Chibemba, Cahama, Humbe e Xangongo (Sul) ao Cuvelai e Cassinga (Este) e à volta de Ondjiva, ultimaram-se os preparativos para o início da contra-ofensiva na Frente Sudoeste contra as SADF.
Confrontada com a falta de tempo para convocar reservistas, a RSA remediou a situação retirando do Cuando Cubango as desmoralizadas unidades de protecção aos engenheiros da Operação “Displace” para engrossar a Frente Sudoeste e enfrentar a poderosa coligação FAPLA-FAR-PLAN.
De acordo com Helmoed Heitman, no livro  “War in Angola: The Final South African Phase”, a 13 de Junho de 1987 uma Companhia foi colocada em Calueque. O coronel Jan Breytenbach, na sua obra “The Buffalo Soldiers - The Story of South Africa’s 32-Battalion 1975–1993”, escreve que a 13 de Junho um Esquadrão de Mísseis anti-tanque e uma Companhia de Infantaria da RSA retiraram-se para a base do Batalhão “Búfalo”, sendo  encarregadas da ida urgente para Calueque.

Nova frente de guerra

Assim começou a desenhar-se a batalha decisiva no Cunene. Face à retirada das unidades sul-africanas do Cuando Cubango para o Sudoeste, a força conjunta FAPLA, FAR e PLAN começou a preparar-se para o embate. Prevendo esse facto, o Presidente José Eduardo dos Santos, Comandante-em-Chefe das FAPLA, tinha já decidido demarcar as duas frentes. A demarcação entre a Frente Sudeste, a Leste do rio Cuito, da Frente Sudoeste, a Oeste do mesmo rio, foi uma decisão de risco tomada pelo Presidente, mas que se mostrou acertada, pois produziu, primeiro, a vitória das FAPLA contra as SADF e as FALA no Triângulo do Tumpo. Depois isso serviu de suporte à criação da Frente Sudoeste. Essa medida foi importante para salvaguardar a integridade territorial e a soberania de Angola.
Desde 1984 que as FAPLA já se forjavam a resistir na Frente Sudoeste, ocupando uma linha de contenção ao avanço das SADF para o norte que passava por Lubango, Tchibemba, Cahama, Humbe, Xangongo, Môngua, Cuvelai, Cassinga e Jamba Mineira, com muitas forças e meios.
Em Dezembro de 1987, o contingente de reforço cubano, constituído pela 50ª Divisão de Infantaria, chegou ao Porto do Lobito transportado pelos navios “Benito Juárez” e “I Congreso”. Os cubanos estavam inicialmente concentrados numa linha defensiva ao longo da linha-férrea do Namibe, via Matala até ao Cuvango. Mais tarde, por sua conveniência, foi concebida uma linha defensiva que se estendia do Menongue ao Namibe, mas nunca no Cuito Cuanavale. Os seus desdobramentos no Sul foram todos efectuados a Oeste do rio Cuvango (200 Km de Menongue), já que este rio constituía uma protecção natural ao seu flanco esquerdo contra qualquer ataque sul-africano. Entre Janeiro e Março de 1988, enquanto os cubanos e a SWAPO consolidavam posições por trás da linha defensiva das FAPLA, estas, sozinhas, na Frente Sudeste, travaram todas as investidas das tropas do apartheid e de Savimbi desencadeadas com as Operações “Hooper” e “Packer”, derrotando-as de forma retumbante a 23 de Março desse ano.
Só depois deste feito heróico das FAPLA é que as tropas cubanas começaram a ir na direcção Sul, tendo a certeza de que os sul-africanos, completamente debilitados, não iriam reagir de forma violenta a esta movimentação, por estarem mais preocupados com a integridade das suas unidades em retirada do Cuito Cuanavale.
Entre Janeiro e Abril de 1988, cerca de 3.500 cubanos foram enviados para trás do sistema defensivo da 5ª Região Militar das FAPLA (Huila, Cunene e Namibe). Por seu lado, o PLAN contava com três batalhões mistos e estabeleceu bases na Cahama, Xangongo e Mupa.
A Base Aérea da Cahama, símbolo da resistência ao invasor, foi alargada para permitir que o maior número de aviões Mig-23 operasse a partir dali e a pista do Aeródromo de Xangongo foi aumentada em 542 metros, passando a ter 2.414 metros e obter o estatuto de aeródromo de manobra e basificação do Regimento Aéreo de Caça do Lubango.
Depois da derrota que sofreram no Cuito Cuanavale, os sul-africanos olharam para este dispositivo na Frente Sudoeste com muita preocupação. Significava uma séria ameaça para o apartheid. As informações que lhes chegavam do teatro de operações na Frente Sudoeste confirmavam que os cubanos, cientes de que os angolanos tinham sido imbatíveis no Cuando Cubango, começaram a preparar-se para entrar em acção antes que os sul-africanos pudessem reorganizar as unidades derrotadas pelas FAPLA no Tumpo para serem transferidas para Sudoeste. Para os sul-africanos, uma operação lançada a partir do território da Namíbia, naquela altura, cruzando a fronteira em direcção a Angola, era impraticável, particularmente quando se vivia já um clima de desanuviamento internacional.
A 15 de Março de 1988, a possibilidade de se realizarem negociações foi analisada à pressa pelo ministro sul-africano “Pik” Botha e pelo Assistente do Secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos, Chester Crocker. Crocker deslocou-se também a Luanda. Ao mesmo tempo, os sul-africanos tentavam conversar com os soviéticos.
A 28 de Março, Angola confirmou que aceitava que os EUA mediassem as conversações com a África do Sul e que já tinha sido redigido um projecto de acordo para a cessação dos combates entre as FAPLA e as SADF, a retirada das tropas estrangeiras do território de Angola e a aplicação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, que determinava a  independência da Namíbia. 
Com este pano de fundo, a única preocupação dos sul-africanos, na sua mentalidade racista, era afastarem a imagem vergonhosa de terem sido derrotados pelas FAPLA no Triângulo do Tumpo, tentando atribuir os louros aos cubanos. Em simultâneo procuravam, com o compadrio dos EUA, não perder tudo.

Os combates

A situação começou a deteriorar-se em Abril de 1988 quando as FAPLA e as unidades cubanas começaram a interferir nas operações sul-africanas contra a SWAPO . No dia 18, um grupo da SWAPO perseguido pelos sul-africanos foi socorrido por forças cubanas em Xangongo. Um major boer foi morto antes que os sul-africanos pudessem retirar.
A 4 de Maio teve lugar um outro combate quando as tropas FAPLA-FAR se atiraram contra sub-unidades do 101º Batalhão Sul-Africano no Humbe. Um soldado foi morto e capturado o sargento Johan Papenfus, que foi levado para Cuba, em virtude de um ferimento na nádega, sem passar pelo Hospital Militar Regional da Huila nem pelo Hospital Militar Principal de Luanda. Dias depois, outra sub-unidade do 101º Batalhão Sul-Africano foi atacada por tropas FAPLA-FAR quando estas perseguiam a SWAPO.
A 24 de Junho, uma força FAPLA-FAR saiu de Xangongo para reocupar Cuamato. Colidiu com a força sul-africana ali estacionada, que foi obrigada a retirar-se depois de um combate rápido.  A 25 de Junho, o 201º Batalhão Sul-Africano, depois de ter sido reorganizado, voltou a reocupar Cuamato, já abandonado.
Segundo diz o coronel Breytenbach no seu livro, foi então aprovado pelas SADF o plano da operação para travar a ofensiva da coligação. O dia 26 de Junho foi escolhido como Dia “D”.
O Batalhão “Búfalo” foi então lançado em direcção a Tchipa. Um major sul-africano foi movido com uma segunda equipa para uma posição perto de Tchipa, de onde poderia fazer fogo sobre os quartéis das FAPLA. Outro major sul-africano, Hannes Nortmann, foi chamado do rio Dala, na área do Cuito Cuanavale, com os seus Ratel equipados com roquetes, para se municiar em Rundu. Ainda a 25 de Junho, Hannes recebeu ordens para estar no Ruacaná com a força de mísseis, até às 12h00 do dia 26. A força composta pelo Esquadrão de Tanques e pela Companhia de Infantaria Motorizada foi enviada para a estrada que leva a Tchipa.
A 26 de Junho, os artilheiros sul-africanos receberam ordens para concentrarem o máximo fogo contra Tchipa e seus postos avançados. À vista de Tchipa, já tinham já um posto de observação para controlar o ataque da artilharia. Uma equipa de reconhecimento do Batalhão 32 tinha a missão de se infiltrar por aquela  zona a pé. “Não havia presença da UNITA naquela região de Angola, pelo que os habitantes locais ao longo da rota de infiltração eram classificados como hostis”, afirma Breytenbach no livro.
Foi neste ambiente de tropas em movimento intenso que se deu a Batalha de Tchipa-calueque, vencida pela coligação FAPLA-FAR-PLAN. (Ver “Sem hipóteses para o invasor”)

Sem hipóteses para o invasor

As unidades chegadas de Cuba e as angolanas posicionaram-se no campo de batalha para enfrentarem os sul-africanos no Cunene.
Apesar do fogo de barragem da artilharia inimiga, o Comando da coligação FAPLA-FAR-PLAN queria desfazer-se de vez do inimigo. Para o conseguir, um Regimento avançou para Calueque. Outro já havia avançado de Xangongo para Cuamato.
Dois episódios da Batalha de Tchipa-Calueque são interessantes.
No primeiro, o 61º Batalhão Mecanizado Sul-Africano foi reforçado com um Ratel com mísseis telecomandados, um Ratel-90 e um Ratel-20, uma companhia de soldados pára-quedistas e duas companhias de atiradores da Força Territorial, composta por namibianos. Este Batalhão usou a estrada Tchipa-Calueque como ponto de avanço, enquanto os Ratel foram para Leste. Quando desciam uma encosta, os Ratel encontraram os tanques das FAPLA e FAR à espreita e vários soldados com RPG-7, prontos a acabarem com os Ratel.
Os roquetes de RPG-7 explodiram e um Ratel-90 foi atingido. O major Hannes, que dirigia os Ratel, tentou travar as equipas anti-tanque das FAPLA-FAR, disparando rajadas de metralhadora, mas uma Companhia de T-54 surgiu e encurralou os Ratel.
As FAPLA-FAR estavam em vantagem. O sul-africano, aflito, pediu reforço. Veio um Esquadrão de “Olifants” que fez fogo de cobertura. Com isso os Ratel retiraram-se em segurança. Mas a fuga não foi fácil. Os efectivos das FAPLA e FAR, armados de RPG-7, aglomeravam-se em torno dos Ratel. O próprio comandante da força sul-africana, major Hannes Nortmann, ficou gravemente ferido no pescoço e na mão e, por pouco, não foi capturado pelas FAPLA. Os sul-africanos só se retiraram de vez quando souberam que outra poderosa força de tanques vinha de Tchipa.
No segundo episódio, a força FAPLA-FAR lançou um ataque aéreo com seis MiG contra a Barragem de Calueque. O bombardeamento resultou na morte de 11 soldados sul-africanos. Perante a forte presença da Coligação, o 61º Batalhão recuou para o outro lado da fronteira, no Ruacana. Dali não mais voltariam ao território angolano.  Foi a vitória da Coligação.
No dia 26 de Junho de 1988, quando a última bomba da coligação foi lançada e matou os 11 sul-africanos em Calueque, os negociadores da África do Sul apressaram-se com as conversações sobre um cessar-fogo e a independência da Namíbia.
A batalha de 26 e 27 de Junho de 1988 foi o último confronto directo entre as SADF e as FAPLA. Sem a bravura dos combatentes angolanos, cubanos e namibianos na Batalha de Tchipa-Calueque e a mestria militar de José Eduardo dos Santos, o território do Cunene não teria sido libertado. Se, além disso, as FAPLA não tivessem derrotado as SADF no Triângulo do Tumpo, o domínio do regime de apartheid teria chegado ao Cuito Cuanavale e a toda a Angola.

Tempo

Multimédia