Reportagem

A grande Barragem de Laúca

Josina de Carvalho, Faustino Henrique e Victorino Joaquim |

Faltam 438 dias para começar a gerar energia eléctrica. O placard electrónico colocado à entrada do Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca dá essa boa nova aos visitantes.

No meio de uma vasta zona montanhosa está em avançada construção um dos maiores empreendimentos nacionais destinados à produção de energia eléctrica
Fotografia: Kindala Manuel

O tempo é actualizado conforme os dias vão passando. Para aquelesque já aqui estiveram, esta informação aumenta a expectativa em relação ao andamento das obras. Os que visitam pela primeira vez, ficam felizes com a notícia. Mas não imaginam a dimensão da grande obra hidroeléctrica nacional que vai produzir 2.070 megawatts (MW) de energia eléctrica, ultrapassando a capacidade da Barragem de Cambambe e da Barragem de Capanda.
A Barragem de Laúca, a 82 quilómetros da localidade do Dondo, província do Cuanza-Norte, está a ser construída no meio de uma vasta área montanhosa, com muita vegetação e grandes rochas, onde também passam as águas do Rio Cuanza. A pedra “Laúca”, que dá nome à barragem, encontra-se neste local e está protegida e classificada como património histórico-cultural pelo Decreto Executivo do Ministério da Cultura n.º 6/15, de 25 de Agosto de 2015.
A energia vai ser gerada por seis turbinas com capacidade de 334 megawatts cada. A primeira e a segunda devem entrar em funcionamento em Julho do próximo ano.
Neste momento, estão concluídos os trabalhos de engenharia civil da primeira turbina e a ser montados os seus equipamentos electrónicos. A segunda turbina deve ser concluída ainda este mês, bem como montados os seus equipamentos desta unidade.
No mês de Agosto, mais duas turbinas vão operar. Depois serão as duas restantes no mês de Setembro. A Central Ecológica fica pronta apenas em 2018.
Além destes trabalhos, é possível ver na zona do Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca o paredão da barragem. É um grande maciço de betão que vai fazer a contenção das águas, levantado até à cota 824.
Para atingir esse nível, o engenheiro responsável pela produção da Casa de Força - onde ficam as turbinas-, Manuel Kai, explica que foram necessários um milhão e trezentos mil cúbicos de betão compactado e convencional.
A meta é chegar à cota 855, correspondente a 156 metros de altura e 1.242  metros de cumprimento.
A albufeira, que representa o volume de água que a barragem tem a capacidade de reter, vai ter 188 quilómetros de extensão.
A estrutura da “Tomada de Água”, área em que é feita a adução de água para gerar a energia na central das turbinas, também já começou a ser levantada e pode atingir 75 metros.  A matéria-prima usada na construção desta estrutura e noutras em Laúca é explorada mesmo no local de edificação do grande empreendimento nacional. Aqui existe uma central de britagem com uma capacidade de produção de 1.500 toneladas de brita por hora e outra central de betão que produz 900 metros cúbicos por hora.

A potente subestação


Outra componente visível dentro do Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca é a grande subestação de 400 quilovolts. Esta estrutura, executada pela construtora brasileira Odebrecht, prevê a instalação de mais uma subestação de 220 quilovolts, que será associada à Central Ecológica, segundo o director do projecto, Elias Estêvão
Em termos de engenharia civil, o ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, afirma que a obra está executada na ordem dos 71 por cento e espera-se que esteja a 95 por cento até ao final deste ano.
No que se refere à parte electromecânica, há um avanço de 45 por cento e uma previsão de atingir 73 por cento até ao final do ano.

Competência angolana

O engenheiro Manuel Kai, que é também responsável pelo pátio de transformadores, canal de fuga e da subestação principal, acredita que as metas podem ser alcançadas dentro dos prazos previstos, porque “há um grande engajamento de todos os trabalhadores, da base ao topo, na realização dos trabalhos que lhes são atribuídos”. 
Com 35 anos, formado pela Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto, o engenheiro Manuel Kai sente-se honrado por trabalhar numa obra de tamanha envergadura, onde estão destacados quadros da mais elevada competência nacional e internacional. Este facto já garante altos padrões de qualidade. As estruturas de controlo de qualidade existentes buscam parâmetros internacionais. “São poucas as obras desta natureza no continente africano, que envolvem mais de dois milhões de metros cúbicos de betão e têm 14 quilómetros de túneis escavados em rochas”, destaca o engenheiro angolano, afirmando que estes números não são facilmente alcançados numa obra.
O engenheiro Manuel Kai diz ainda que o empreendimento hidroeléctrico tem uma componente de formação muito forte, tornando os profissionais envolvidos mais capacitados no fim da execução da obra.
Formada em gestão de empresas, Ira Ribeiro, de 27 anos, trabalha na área administrativa e também orgulha-se de trabalhar em Láuca. Desde há ano e meio, Ira integra a equipa que cuida do alojamento, refeitório, segurança patrimonial, serviços gerais e comunicação.
Apesar de ficar 60 dias longe da família, por trabalhar em regime fechado, não se arrepende de ter aceite o desafio de contribuir com o seu saber para a execução da barragem de Laúca.


Ao ritmo do progresso

Para chegar ao Laúca, a equipa do Jornal de Angola percorreu cerca de 280 quilómetros de estradas. De Luanda, passou por Dondo e Cambambe, até à localidade de Nhangaya Pepe, comuna de São Pedro da Kilemba, na província do Cuanza Norte, onde está o perímetro do projecto de Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca.
Do Alto Dondo a Laúca foram cerca de 50 quilómetros. A julgar pelos sinais na via, terraplanagem e britas, trata-se de uma estrada que está em preparação, rodeada de rica vegetação, onde predominam o capim alto, arbustos diversos, montanhas e numerosos imbondeiros cheios de múcua.
Dentro do perímetro  hidroeléctrico de Laúca, que prevê gerar até 2.070 Megawatts (MW) de energia a partir do próximo ano, é possível notar a dimensão monumental da obra. A estrutura vai dar suporte ao desenvolvimento das zonas circundantes pertencentes às províncias de Malanje, Cuanza Norte e Cuanza Sul. Uma verdadeira transformação.
Laúca faz parte do programa para reforçar o sistema eléctrico nacional, composto por quatro fases: o desvio do rio, as obras civis, a electromecânica e o sistema de transporte.

Extensão do Projecto

O Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca vai funcionar com um conjunto de seis turbinas e ter uma linha de transporte com um total de 754 quilómetros.
A barragem tem como principais características, além da central, o descarregador de Cheias, o Descarregador de Fundo, a Central Ecológica, a Tomada de Água, o “Shaft” (Eixo), os Condutos Forçados, a Subestação e o Sistema de Transporte.
Para atender às necessidades de mão-de-obra especializada na construção, estão a ser desenvolvidos cursos e programas dedicados à formação e aperfeiçoamento técnico. O ministro da Energia e Águas, João Baptista Borges, assegurou que a formação é permanente e garante a continuidade da estratégia de colocar nas mãos dos técnicos angolanos os futuros desafios da manutenção.
Para isso, está em construção um Centro de Formação que, juntamente com“Programa Acreditar”, assegura as competeências nas áreas específicas para o projecto: ferreiro, soldador, topógrafo, pedreiro, carpinteiro, vibradorista, operadores e motoristas de equipamentos pesados.

Dimensão económica e social

Em termos económicos e sociais, a Barragem de Laúca vai estar para as regiões circundantes das províncias do Cuanza Sul, Cuanza Norte e Malanje o que Malongo está para a província de Cabinda.
Quando se vê que 42 por cento da mão-de-obra integrante angolana no projecto hidroeléctrico é composta por jovens com menos de 30 anos, são efectivamente os jovens que aguentam a empreitada e contribuem para o crescimento da produção de energia eléctrica em Angola.
O projecto da Barragem do Laúca tem um conjunto de infra-estruturas de apoio. Um alojamento com 1.800 quartos disponibiliza habitações individuais, duplas, triplas e quadruplas para os empregados.
Um refeitório com capacidade para 27 mil refeições por dia assegura, durante 24 horas, um atendimento permanente às pessoas, homens e mulheres, que fazem parte desta obra de uma dimensão nunca antes vista em Angola.
A área de lazer e de serviços tem palcos para eventos, cine-teatros, salas de jogo, farmácia, cabeleireiro. A área desportiva, com três campos de futebol, dois de ténis, três polidesportivos, um de voleibol e três ginásios, oferece um espaço para o exercício físico.
Toda a envolvência da Barragem de Laúca, juntamente com o  processo de reassentamento, vai promover o desenvolvimento da região e elevar a condição e o bem-estar das comunidades.

Benefícios de Norte a Sul do país

Longe de tudo e no meio de um afloramento rochoso de grandes dimensões, está a nascer no município de Cambambe a Barragem de Laúca. Considerado o maior projecto de engenharia civil e mecânica de Angola, a Barragem está localizada a 47 quilómetros do Aproveitamento Hidroeléctrico de Capanda, situada em Malanje, e a 400 quilómetros de Luanda.
O empreendimento hidroeléctrico de Laúca é a terceira Barragem em construção no leito do rio Cuanza, depois de Cambambe e de Capanda. Tem uma altura de mais de 100 metros, o equivalente a um edifício de 44 andares, e ocupa uma área de 24 mil hectares.
Trata-se de um investimento de cinco mil milhões de dólares, que implica a construção, produção, fornecimento e colocação em serviço do sistema de transporte de energia.
Com a entrada em funcionamento da central principal, Laúca começa a produzir energia eléctrica a partir do primeiro semestre do próximo para beneficiar mais de cinco milhões de pessoas das regiões do Norte, Centro e Sul do país.
O projecto surgiu a partir de um estudo de inventário realizado na década de 1950, solicitado pela então SONEFE à empresa Hydrotechnic Corporation (USA). Foi retomado em 2008, com a realização dos estudos de viabilidade solicitados pelo Governo angolano à Odebrecht.
O projecto de construção cumpriu  os requisitos exigidos pelas normas ambientais internacionais, tendo sido realizado um estudo de impacto ambiental, em 2009, denominado “Estudo de Viabilidade”.
“Este estudo foi efectuado dentro das normas ambientais exigidas internacionalmente”, assegura o director de projecto, Elias Estêvão.
A conservação e manutenção das espécies animais e flora foi um das recomendações expressas no estudo. Foi criada uma estufa de flora e uma central ecológica, em consequência do desvio do curso normal do leito do rio. A central permite manter conservados os animais aquáticos existentes no caudal.
As obras para o desvio do rio compreenderam a escavação de dois túneis na margem direita do Cuanza, de 14 metros e meio de diametro, e duraram 20 meses.
A segunda fase do projecto compreendeu a construção da obra principal, a Central Principal e Central Ecológica, e a terceira, inclui a componente eletromecânica e de linhas de transporte.
“Estamos a trabalhar num projecto que orgulha não apenas os homens e mulheres que aqui trabalham, mas todos aqueles que acreditam num futuro energético melhor para Angola. Temos a certeza de que, se as equipas envolvidas cumprirem rigorosamente o que está traçado no projecto, tudo vai ser um sucesso”, garante Jorge Areias, responsável pela fiscalização da obra.

Materiais e equipamentos

Só em betão, a barragem vai utilizar o equivalente à construção de 40 estádios de futebol, 2.800 casas ou 465 edifícios de oito pisos. A construção da barragem  pode gastar 30.000 toneladas de aço na montagen eletromecânica, o equivalente à construção de cinco torres Eiffel, símbolo emblemático do edifício de Paris. São ainda utilizadas estruturas metálicas, blindagens em aço, comportas, transformadores, quadros eléctricos e geradores.

Postos de trabalho

Laúca garante já o  sustento de muitas famílias, ao empregar 7.643 trabalhadores nacionais e 385 estrangeiros. “Temos aqui jovens de todas as províncias. Para além do trabalho, recebem formação em diversas matérias. No futuro, vão garantir a manutenção da barragem”, frisa o director de projectos.
Com as ferramentas na  mão, o suor a escorrer  pelo rosto, está o jovem Félix Brito, 26 anos,  natural do Sumbe.  Para ele,  a actividade de montador  dá um bom salário  e experiência. Na fase inicial do contrato, Brito visita a família uma semana depois de dois meses de trabalho. “Este regime é melhorado um ano de trabalho depois”, conta.
Trajado de  uniforme cor-de-laranja e botas pretas está o jovem Pedro Viagem, 27 anos, que espera ser  advogado. O primeiro emprego foi conseguido em Laúca, mas Pedro não deixa de rever as lições do curso médio que terminou. “Já tenho a responsabilidade de chefe de família. Tenho de saber educar os meus filhos e cuidar da minha mulher. Mas espero continuar os meus estudos”. Pedro Viagem deixou a família e os amigos na província do Cuanza Sul para se dedicar a Laúca.
 
Exemplo de cooperação

A Barragem de Laúca, a maior obra de engenharia em curso no país e a segunda maior barragem em construção no continente africano, é um exemplo de sucesso de cooperação de empresas dos países lusófonos. “É uma obra importante para a economia angolana e para os intervenientes no projecto”, comenta Wagner Santana, responsável pela execução da nova fase.
Para as empresas portuguesas, Angola representa cerca de 40 por cento da facturação em mercados externos, o que significa pelo menos dois mil milhões de euros anuais, de acordo com estimativas da Associação de Empresas de Construção e Obras Públicas e Serviços (AECOPS).

Empresas envolvidas

Além  do Gabinete de Aproveitamento do Médio Kwanza (GAMEK) e da Odebrecht, respectivamente, dono e responsável  da obra, foram contratadas a Somague Angola, Teixeira Duarte, Renasol, Ibergru, COBA e Lahmeyer/Dar.

EXTENSÃO DA BARRAGEM

CARACTERÍSTICAS

ALTURA: 156 metros
COMPRIMENTO: 1.242 metros
VOLUME DE BETÃO (BCC): 2.597.220 metros cúbicos
VOLUME DE BETÃO (BCV): 333.490 metros cúbicos

COMPOSIÇÃO
DESCARREGADOR DE CHEIAS
DESCARREGADOR DE FUNDO
CENTRAL ECOLÓGICA
TOMADA DE ÁGUA
“SHAFT”
CONDUTOS FORÇADOS
SUBESTAÇÃO
SISTEMA DE TRANSPORTE

MATERIAIS E EQUIPAMENTOS

QUANTIDADE DE BETÃO COMPACTADO
1.300.000 metros cúbicos
equivalente à construção de 40 estádios de futebol,
2.800 casas ou 465 edifícios de oito pisos

ALBUFEIRA     UMA SUBESTAÇÃO
188 Km          400 quilovoltes

LINHA
DE TRANSPORTE
    754 km

SEIS TURBINAS
CAPACIDADE
: 6 x 334 megawatts

MÃO-DE-OBRA
ANGOLANOS         ESTRANGEIROS
     7.643                  385

Tempo

Multimédia