Reportagem

Acidentes de viação matam oito todos os dias

André costa |

A sinistralidade rodoviária é considerada como a segunda causa de morte depois da malária e continua a levar o luto a muitas famílias. A ingestão de bebidas alcoólicas, por parte dos condutores, é apontada como um dos factores.

Os acidentes de viação têm resultado na perda de vidas humanas principalmente jovens uma força que deveria trabalhar para a nação
Fotografia: Vigas da Purificação|Edições Novembro

Dados da Polícia Nacional indicam a ocorrência de 31 acidentes de viação, oito mortos e 31 feridos por dia no país. Este ano, os exames de condução vão ser feitos com recurso ao sistema multimédia.
Os dados falam por si, ou seja, diariamente as estradas nacionais tornam-se mais perigosas, quer por acção do homem, movidos pela pressa em chegar rápido, quer pelo estado técnicos das vias onde algumas apresentam buracos e uma deficiente iluminação pública e sinalização. São várias as viaturas avariadas, cuja sinalização é feita com um pau ou bloco ao invés de um triângulo reflector.
O dia 10 de Fevereiro é talvez a data mais triste da vida do jovem André Chipilica, 31 anos. Na manhã desse dia, sofreu acidente de viação que resultou na amputação da sua perna esquerda. Nada fazia crer que André regressasse a casa, nove dias depois de internado num hospital, coma a perna esquerda amputada. A motorizada em que seguia embateu com uma outra no Zango tendo sido socorrido de imediato para o hospital.  
André Chipilica está conformado com a sua nova condição de deficiente, mas reconhece que se houvesse mais prudência, talvez o acidente pudesse ser evitado.
As muletas fazem agora parte do seu quotidiano e, por isso mesmo, aconselha os outros automobilistas e motociclistas a primarem por uma condução responsável, respeitando os peões e as normas do Código de Estrada.
A dinâmica da vida do jovem André Chipilica já não é a mesma na medida em que é obrigado a recorrer às muletas para se locomover, trabalhar e dar resposta às necessidades básicas da vida. A mensagem sobre a prevenção rodoviária levou-o até ao Largo do Soweto, onde viu de perto viaturas e motorizadas acidentadas. Foi uma oportunidade que teve para passar o seu testemunho a outros jovens sobre a brutalidade e perigosidade das estradas nacionais com realce para Luanda.      A prevenção rodoviária é apontada por especialistas da Polícia Nacional como uma forma de evitar acidentes de viação que no país constituem a segunda causa de morte, depois da malária.
A ingestão de bebidas alcoólicas antes e durante a condução é um dos motivos dessa  triste realidade. Contribui para isso, também, a falta de prudência por parte de muitos jovens automobilistas e peões nas festas dos finais semanas onde consomem álcool e a seguir seguram no volante.
Outro exemplo que deve servir de reflexão para as autoridades policiais e encarregados de educação tem a ver com a concentração de centenas de jovens ao final da tarde de sexta-feira até domingo,  no pátio de alguns supermercados onde consomem bebidas alcoólicas. Alguns destes jovens, com idades compreendidas entre os 16 e os 30 anos, quando embriagados, pegam no volante das viaturas e fazem-se à estrada, sem terem em conta  os perigos daí resultantes como constatou a reportagem do Jornal de Angola no último domingo. “É sempre assim aos finais de semana, quando estão embriagados, se desentendem e alguns chegam  a protagonizar actos reprováveis socialmente”, lamentou Teresa Cristina, uma cidadã que reside na zona da Vila Alice.        

Feira do Acidente

A Feira do Acidente foi criada pela Direcção Nacional de Viação e Trânsito com o objectivo de mostrar aos membros da sociedade o perigo que representam as estradas. A feira esteve aberta ao público no sábado e no domingo, defronte ao Largo do Soweto, junto ao Cine Atlântico. Ali, se podiam ver perfiladas  viaturas acidentadas de forma brutal, prova evidente da violência que se verifica nas estradas nacionais.
Além de inúmeras viaturas sem conserto, em que alguns condutores e passageiros perderam a vida, algumas motorizadas acidentadas e sem recuperação foram também mostradas aos milhares de cidadãos que visitaram a feira. A exposição das viaturas e motorizadas espelha a profunda reflexão que a sociedade (automobilistas e peões) deve adoptar, sobre o comportamento no ambiente rodoviário.Os 31 acidentes de viação, oito mortos e 31 feridos, que se registam diariamente no país, obrigam os automobilistas e membros da sociedade a cumprirem com as normas do Código de Estrada.
Alguns cidadãos levaram as mãos à cabeça ao confrontarem-se com imagens chocantes de cidadãos mortos estatelados na estrada. 
 
Viação e Trânsito


O quadro actual da sinistralidade rodoviária no país não é dos melhores apesar de, em termos estatísticos, se verificar uma certa diminuição no número de acidentes se comparado com os dados do ano antepassado. O simples facto de se ter registado nos três primeiros meses do ano passado oito mil acidentes, com oito mortos e acima de oito mil feridos, espelha claramente a prevenção que cada automobilista e o peão devem observar.
Conceição Gomes, o director nacional adjunto da Viação e Trânsito, está preocupado com o facto de muitos automobilistas se fazerem às estradas sem grandes responsabilidades, circulando em grande velocidade, o que tem contribuído para a elevação do número de acidentes, que se traduzem na perda de vidas humanas e ferimentos a outros que chegam mesmo a ficar paralíticos como é o caso do jovem André Chipilica. Os acidentes de viação têm resultado na perda de vidas humanas, principalmente jovens, uma força activa que deveria trabalhar para impulsionar o progresso do país.  

Exame multimédia

Conceição Gomes frisou que o modelo de ensino nas escolas de condução em sistema multimédia é o mais desejável, sendo que este entra em vigor este ano. As escolas de condução sem condições de terem este programa vão encerrar. Conceição Gomes frisou que este tipo de exame é o mais viável e moderno de acordo com a realidade mundial. Explicou que, durante muito anos, esteve em vigor o sistema de exames de condução baseados no Código de Estrada antigo que data de 1954, em que para se tirar a carta de condução bastava fazer um requerimento.
O novo Código de Estrada já prevê a obrigatoriedade de fazer-se exame de condução passando  obrigatoriamente por uma escola.
Isto porque há mais controlo das matérias ministradas aos alunos, onde os planos curriculares são acompanhados e inspeccionados pela Direcção Nacional de Viação e Trânsito.
Em termos estatísticos, no ano passado, registou-se menos acidentes de viação em relação ao ano antepassado, mas as cifras ainda são preocupantes devido ao incumprimento do Código de Estrada como considerou Conceição Gomes. “Temos peões que querem ter prioridade absoluta, atravessando a via pública de forma arbitrária, ignorando as passadeiras artificiais e pedonais”, disse, acrescentado que uma franja da população não quer usar as passagens aéreas, correndo fortes riscos de ser atropelada como se tem verificado nos centros urbanos.

Mau estado das vias


O mau estado de algumas vias é um dos factores que contribui para o aumento da sinistralidade rodoviária, considera o director nacional adjunto da Viação e Trânsito, Conceição Gomes. Apesar desta constatação, Conceição Gomes diz que o mais importante é a mudança de comportamento, como moderar a velocidade durante uma viagem, de forma a dominar as condições adversas que o ambiente rodoviário oferece.

JMPLA e a sinistralidade


A Brigada Juvenil de Prevenção Rodoviária da JMPLA tem contribuído para a redução deste mal que diariamente mata oito pessoas no por dia no país. Aleixo Nianga, coordenador nacional da brigada, fez saber que os índices elevados de sinistralidade rodoviária levam constantemente os activistas a sensibilizar os automobilistas, sobretudo a camada juvenil que é a mais visada nos acidentes que acontecem.
A JMPLA, desde 2007, decidiu contribuir para a redução dos acidentes. O trabalho baseia-se na transmissão de mensagens sobre sinistralidade, feita por vinte mil jovens espalhados em todos as províncias do país.
A mensagem tem sido passada e os efeitos são já visíveis, uma vez que se saiu de 13 mortes por dia para oito, como considerou Aleixo Nianga coordenadora da brigada.
O responsável realçou que a condução feita actualmente pela juventude não é das melhores, tendo em conta os acidentes de viação, envolvendo essa camada da sociedade. O trabalho vai continuar de forma intensificada.  

Taxistas de Luanda


Alexandre Martins, vice-presidente da Associação Nova Aliança dos Taxistas de Angola, frisou que a marcha sobre contra os acidentes de viação toca na sensibilidade de muitos automobilistas. O responsável aceitou a crítica, segundo a qual os taxistas contribuem para o aumento da sinistralidade rodoviária devido à forma imprudente como se fazem às estradas nas cidades do país.
O vice-presidente da Associação Alexandre Martins justifica: “o problema da má condução em Luanda não é somente da responsabilidade dos taxistas” e justifica que a capital tem problemas de estradas que não facilitam a circulação rodoviária fluida.
A Nova Aliança dos Taxitas de Angola controla 17 mil associados e tem representações no Huambo, Malanje, Cabinda, Huíla e Cuanza Sul, além de Luanda.
A direcção dos taxistas aconselha os associados a primarem por uma condução prudente.

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