Reportagem

Acordo entre EUA e China atenua Mercado

Cristóvão Neto |*

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lembrou a promessa eleitoral de equilibrar a balança comercial com a China e outros parceiros internacionais quando, na quarta-feira, discursou em tom de exultação depois da assinatura, com o vice-Primeiro-Ministro chinês, Liu He, da Fase 1 de um acordo bilateral que abranda a guerra comercial iniciada há 18 meses.

China e Estados Unidos
Fotografia: DR

Ao iniciar a disputa, a Ad-ministração norte-americana exigiu mudanças depois de destacar que as exportações chinesas para os Estados Unidos cresceram mais de 200 por cento nos últimos 15 anos e alimentam um défice co-mercial cifrado, em 2016, em 309 mil milhões de dólares, ascendendo a 420 mil milhões em 2018.

As pressões norte-americanas que se seguiram, baseadas no agravamento das tarifas sobre as importações chinesas, deram lugar a uma escalada que levou os principais centros de decisão da economia mundial a apelidarem a contenda como “guerra comercial”.
Em Maio, os Estados Unidos impuseram um aumento das tarifas sobre 200 mil milhões de dólares em produtos importados da China, elevando de 10 para 25 por cento as tarifas sobre mais de cinco mil categorias de produtos chineses.
Mais tarde, o Presidente dos Estados Unidos anunciou uma nova elevação das tarifas de importação sobre produtos chineses em resposta ao projecto do Governo do país asiático de aplicar tarifas adicionais sobre 75 mil milhões de dólares em produtos importados dos Estados Unidos.
As tarifas que, no fim de Agosto, vigoravam sobre 250 mil milhões de dólares em importações chinesas, ascendiam de 25 para 30 por cento a partir de 1 de Outubro e, além disso, as novas tarifas previstas para entrar em vigor em 1 de Setembro sobre 300 mil milhões de dólares eram elevadas de 10 para 15 por cento.
Em resposta, o Ministério do Comércio chinês impôs tarifas adicionais de 5,00 por cento ou de 10 por cento, sobre 5.078 produtos de origem norte-americana, o que incluía petróleo, aviões de pequeno porte e automóveis.

Compras assombrosas
O ponto fulcral do acordo assinado na quarta-feira reside na promessa da China comprar mais 200 mil mi-lhões de dólares em produtos norte-americanos ao longo de dois anos para reduzir o défice comercial bilateral com os Estados Unidos.
O documento de 86 páginas prevê que a China eleve a aquisição de produtos industriais, agrícolas, de energia e serviços aos Estados Unidos.
A China deve comprar 12,5 mil milhões em produtos agrícolas aos Estados Unidos no primeiro ano e 19,5 mil milhões no segundo ano, além de 18,5 mil milhões em produtos de energia no primeiro ano e 33,9 mil milhões no segundo.
A China terá de comprar 32,9 mil milhões de bens da indústria transformadora dos Estados Unidos no primeiro ano e 44,8 mil milhões no segundo ano, o mesmo que acontece com 12,8 mil milhões e 25,1 mil milhões em serviços.
Nos termos do acordo, os dois países podem ser punidos pelo roubo de informações comerciais consideradas confidenciais, com a China a obrigar-se a proibir roubos cibernéticos. Está prevista a criação de mecanismos para resolver disputas sobre patentes de medicamentos.
O documento estabelece a interdição de sujeitar em-presas a transferirem tecnologias para “aquisições, asso-
ciações ou outras formas de investimento”, declarando, por outro lado, a remoção das barreiras comerciais para complementos alimentares para lactantes, carne bovina e de porco, frutos do mar e biotecnologia agrícola.
O Governo chinês terá de reduzir os entraves para à entrada de serviços financeiros no país e permitir que empresas dos Estados Unidos participem na oferta de produtos destinados aos seguros de vida, saúde e das pensões de reforma.
Em Dezembro, as negociações da Fase 1 do acordo cancelaram as tarifas programadas por Washington sobre telemóveis, brinquedos e computadores portáteis de fabricação chinesa e reduziram para 7,5 por cento as tarifas sobre cerca de 120 mil milhões de dólares em outros produtos chineses, incluindo televisores, auriculares sem fio e calçado.

Fase 2
Os Estados Unidos vão manter, no entanto, tarifas de 25 por cento sobre uma vasta gama de 250 mil milhões de dólares em bens e componentes industriais chineses usados pela indústria norte-americana.
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Steven Mnuchin, disse na terça que as tarifas sobre produtos da China vão permanecer até à segunda fase de um acordo comercial.
Ao discursar, depois da assinatura do acordo, o Presidente Donald Trump não deu qualquer prazo para o início das negociações da Fase 2, mas indicou que devem começar em breve, acrescentando que concordaria com a remoção das tarifas remanescentes assim que os dois lados negociarem a Fase 2 do acordo.
*Com agências

Unilateralismo norte-americano e argúcia chinesa

O acordo alcançado entre os Estados Unidos e a China deixa evidências de um novo unilateralismo da Administração norte-americana nas questões do comércio internacional, mas também a habilidade negocial chinesa.
Com o desfecho, fica a ideia de que os egoísmos nacionais emergentes depois da era globalização, fica para trás o tempo em que acordos comerciais tinham como objectivo liberalizar o comércio.
Esse entendimento sino-americano cria metas de compras, sugere discriminação e desvio de comércio, além de que não elimina as tarifas adoptadas no contexto da guerra comercial.
Calcula-se que a média das tarifas norte-americanas sobre produtos chineses será seis vezes maior que em 2018.
Os Estados Unidos usaram, nessa contenda, o argumento de que a China não é uma economia de mercado, mas o que a Administração dez foi exactamente tirar proveito daquilo que critica, tirando proveito do facto de o Governo chinês poder intervir na economia para comprar mais de um parceiro específico.
A acrescentar a isso, os ganhos dos norte-americanos traduzem-se em prejuízo para os países que figuram como os mais directos competidores dos Estados Unidos no mercado chinês, exigindo muita criatividade de Pequim, um dos grandes defensores do multilateralismo comercial, para observar esse acordo sem atropelar as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Mas, ironicamente, é que, considerado pelos EUA como algo histórico, o acordo obriga a China a fazer basicamente o que já estava a fazer de qualquer maneira, porque corresponde aos seus interesses vitais.
O Governo chinês concordou em reforçar a protecção da propriedade inte-
lectual, porque à medida que a economia chinesa se torna mais sofisticada e o investimento em pesquisa e desenvolvimento dá resultados, é natural que passe a ter interesse em proteger propriedade intelectual.
Em duas palavras, a China deixou de copiar para ser copiada e a mudança das circunstâncias explica a actual postura do país sobre o assunto.
Isso também é válido para o compromisso chinês de melhorar o ambiente de negócios para empresas estrangeiras. Só neste ano, a China subiu 15 posições na lista do “Doing Business”, do Banco Mundial.
Também nesse espírito, aprovou em Março uma lei sobre investimento estrangeiro, como parte do esforço já em curso de manter o ritmo de crescimento.
Não custa muito aos chineses aceitarem esses compromissos. Ganham duas vezes: vendem aos norte-americanos o que é do seu próprio interesse, além de galvanizarem apoio interno em prol de certas reformas.
Ainda que um entendimento seja algo positivo, parece ser questão de tempo – de pouco tempo, talvez haver – até uma nova crise.

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