Reportagem

Acto de sabotagem contra a Petrangol

José Ribeiro |

Três meses depois da Operação Protea, realizada a 23 de Agosto de 1981, considerada a maior operação mecanizada empreendida pelo Exército sul-africano contra Angola desde a II Guerra Mundial e antes da Batalha do Cuito Cuanavale, a sanha assassina do regime de apartheid esteve mais uma vez em prática,

Petrangol
Fotografia: DR

desta feita numa operação que visava destruir os depósitos de combustível da Refinaria da Petrangol, situados no Porto de Luanda, naquela que foi denominada Operação Kerslig, também conhecida por “Operação Candle Light” (Luz de Vela). Sobre os custos económicos do acto de sabotagem do regime de apartheid à Refinaria da Petrangol, Douw Steyn e Arné Soderlund, autores do livro “Iron Fist From The Sea: South Africa's Seaborne Raiders 1978-1988”, afirmam que a avaliação final das SADF demonstrou que 23 dos 56 tanques da Petrangol, contendo 85 por cento de GLP, a maior parte de gasolina, 80 por cento de gasóleo pesado, 100 por cento de JP1 e 20 por cento de stock de JP4, foram destruídos ou ficaram seriamente danificados. Tal avaliação estimou a perda total de combustível em 60 milhões de litros e o prejuízo total, em termos de infra-estruturas, em valores não inferiores a 36,5 milhões dólares.
A questão que na altura se colocou era saber quem pagaria os 36,5 milhões dólares. A África do Sul, que planeou, preparou e executou a Operação Kerslig, ou a UNITA, que disse pela boca de Savimbi: “We blew up the refinery” (Nós rebentámos a refinaria), citado a 30 de Novembro de 1981 pelo jornal “Star”, publicado em Joanesburgo.
Para se perceber o impacto do ataque, é preciso notar que depois de os sul-africanos terem destruído os tanques de combustível no Lobito, com a Operação Amazon, em Agosto de 1980, a Refinaria da Petrangol, em Luanda, passou a produzir grande parte das necessidades básicas de combustível do país.
Os sul-africanos acreditavam que destruindo este importante ponto estratégico, que, por sinal, era a única refinaria operacional em Angola, o país ficaria dependente de produtos petrolíferos refinados importados, o que agravaria de forma exponencial a vida dos angolanos mergulhados numa guerra que absorvia grande parte dos recursos do país.
Assim, por um lado, os sul-africanos estavam convictos de que esta operação seria um rude golpe para a economia angolana, com impacto directo na guerra que estava a ser travada contra a subversão armada interna praticada pelos guerrilheiros da FNLA e da UNITA, e, por outro lado, acreditavam que a mesma poderia desencorajar o apoio que o governo de Angola prestava à SWAPO e ao ANC, que tinham as suas bases, políticas e militares, na República Popular de Angola. 
É neste contexto que as SADF encarregaram o seu 1º Regimento de Reconhecimento, uma unidade de Forças Especiais, de realizar um estudo minucioso sobre a refinaria e arredores e, sobretudo, de analisar a viabilidade de um ataque à Refinaria da Petrangol.
Devido à distância entre Luanda e Langebaan, uma cidade da província de Western Cape, África do Sul, não havia tempo suficiente para a realização de duas operações distintas, pelo que foi decidido executar uma operação combinada de reconhecimento e ataque.
O 1º Regimento de Reconhecimento das SADF realizaria o reconhecimento e o ataque aos alvos dentro da refinaria, enquanto o 4º Regimento de Reconhecimento forneceria os barcos, as suas tripulações e uma equipa para proteger a área de infiltração e de retirada do grupo de assalto.
A característica fundamental da missão exigia que ela devia ser uma operação secreta e planeada de forma que a responsabilidade fosse atribuída à UNITA, para que a capacidade marítima clandestina da República Sul-Africana não fosse posta em causa em caso de fracasso.
Este segundo pormenor demonstra, claramente, à semelhança do sucedido em outras ocasiões, a astúcia maquiavélica do regime de apartheid que continuava a apregoar que não tinha tropas a operar em Angola e a postura oportunista e servil de Jonas Savimbi e da UNITA, que assumiam, de peito aberto, os louros de uma operação que não foi nem engendrada e nem realizada por si – comentam analistas angolanos.
É, porém, de todos conhecido – acrescentam – que Jonas Savimbi e a sua UNITA não podiam ter nem homens criteriosamente preparados, nem sequer uma simples canoa para fazerem uma travessia de zonas tão longínquas, desde as bases navais sul-africanas, às quais nem mesmo os cidadãos negros sul-africanos tinham acesso livre, tal era o sistema de repressão que o apartheid impunha.
De resto, reforçam, do que se conhece das tropas da UNITA nunca fizeram qualquer ataque vindo do alto mar, nem mesmo de uma praia em toda a extensão do litoral de Angola, que é de 1.600 quilómetros.
Como demonstração do acima referido, nem mesmo na destruição da Base do Kuanda, implantada no Soyo, a tropa da UNITA utilizou o mar. Ela partiu da Serra da Kanda, operando no triângulo Fico, Tomboco e Quelo, passando depois pela região do Sumba, Pângala, tomando a direcção de Kifuquena até à segunda linha de defesa do Soyo, tal como nos testemunhou o tenente-general Mário Inglês, colocado no Soyo depois da destruição da Base e vindo da Região Militar Cabinda, onde desempenhou o cargo de chefe do Estado-Maior.

Execução da Operação

Entre o dia 25 e 28 de Novembro de 1981, foi realizada a acção de Reconhecimento para a Operação Kerslig, que cumpriu, com sucesso, todos os objectivos traçados pelo Alto Comando Político, de Segurança e Militar sul-africano, sem que nenhum potencial de comprometimento da operação tivesse sido registado.
Mas, segundo dizem Douw Steyn e Arné Soderlund na sua obra, a acção de reconhecimento foi marcada por um misto de apreensão e nostalgia no seio dos sul-africanos, porque, precisamente seis anos antes, em Novembro de 1975, 26 membros do Exército sul-africano tinham sido evacuados de emergência pela fragata SAS Presidente Steyn no Ambrizete, após a Batalha de Kifangondo, determinante para a independência de Angola a 11 de Novembro de 1975.
Aquele momento de nostalgia foi especialmente revivido pelo comandante Kinghorn, membro de uma das equipas de ataque da Operação Kerslig, havendo quem diga que isso demonstra a pertinência da aplicação do adágio popular, segundo o qual “o criminoso volta sempre ao local do crime”.
O episódio do Ambrizete ocorre no âmbito da Operação Savannah, desencadeada pela África do Sul em 1975 para colocar a UNITA no poder, e tem a particularidade de revelar que ela foi realizada em duas direcções: na direcção Sul, que foi travada no Ebo, e na direcção Norte, que foi travada em Kifangondo, pois o comandante Kinghorn fez parte dos 26 membros do Exército agressor sul-africano evacuado no Ambrizete. No final, os sul-africanos foram derrotados, tanto na Batalha de Kifangondo como na Batalha do Ebo!
É interessante recordar hoje o que disse, depois da derrota infligida pelas FAPLA, o então comandante das SADF, general Constand Viljoen, quando se referiu àquela noite de Novembro de 1975: “Posso dizer honestamente que foi a noite mais difícil da minha carreira operacional”. 
Voltemos à Operação Kerslig. Depois de todos os aspectos organizativos terem sido alinhavados, o Alto Comando Político, de Segurança e Militar sul-africano determinou o período de 30 de Novembro de 1981 como o “Dia D” para a realização da Operação.
É importante salientar que, antes porém, os elementos do grupo de assalto “encomendaram as suas almas”. A quem? Só poderia ser ao diabo, porque quais cruzados dos novos tempos, tinham de destruir Angola, considerada por eles a testa avançada do comunismo na África Austral. Coube a um dos autores do livro que vimos citando, Douw Steyn, na altura capitão, pronunciar a oração e ao capitão “Kokkie” De Kock, 2º comandante do grupo de assalto, que viria, pouco tempo depois, a encontrar a morte, fazer a leitura do Salmo 23 da Bíblia, cujo texto se transcreve: “1. O Senhor é o meu pastor, nada me falta. 2. Em verdes prados me faz descansar, e conduz-me às águas refrescantes. 3. Reconforta a minha alma, guia-me pelos caminhos rectos, por amor do Seu Nome. 4. Mesmo que atravesse os vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo; o Vosso bastão e o Vosso cajado  dão-me conforto.5. Preparai-me um banquete frente aos meus adversários. Ungi com óleo a minha cabeça e a minha taça transborda. 6. A graça e a bondade hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida. A minha morada será a casa do Senhor ao longo dos dias”...     
Em seguida, os elementos do grupo de assalto cumprimentaram-se e desejaram entre si boa sorte para a operação.

O ataque e os danos

No “Dia D”, na noite de 30 de Novembro, elementos das Forças Especiais sul-africanas, uniformizados com camuflados das FAPLA e com os seus rostos pintados de negro, avançaram para os diversos alvos pré-definidos, visando destruir a refinaria. Por volta das 23h57, todas as equipas estavam dentro da área alvo.
No entanto, a execução do plano não aconteceu como previsto, uma vez que a realidade no terreno contrastava com os dados que possuíam. Ainda assim, os assaltantes começaram a colocar os explosivos nos alvos previamente definidos.
Às 00h12 ouviu-se uma explosão, o que indicava que algo terrivelmente errado tinha acontecido, pois o plano era colocar todos os explosivos e só detoná-los depois da retirada ser efectuada.
Três elementos das Forças Especiais sul-africanas foram vítimas destas explosões. O capitão De Kock, chefe de uma das equipas das Forças Especiais, foi atingido mortalmente e dois membros da sua equipa, os cabos “Kloppies” Kloppers e Piet “Vaatjie” Van Zyl, ficaram gravemente feridos. Diante da situação gerada, por volta das 00h35, as quatro equipas enviadas para a realização da Operação Kerslig, à excepção do capitão De Kock, bateram em retirada e dirigiram-se para a área de recolha.
Embora a Refinaria da Petrangola tivesse sofrido danos importantes, os objectivos traçados pelo regime de apartheid não foram atingidos. Para isso, concorreram alguns aspectos. Entre eles, o facto de se terem registado falhas substanciais no processo de recolha de informação sobre o alvo. No terreno, nomeadamente, os pilares da refinaria que os operacionais encontraram foram construídos de forma diferente do esperado, a torre estava erguida numa plataforma e o seu acesso, ao contrário da informação recebida, era pelas escadas, ao lado de uma sala de controlo dirigida por, pelo menos, seis pessoas.
“Era impossível aceder à base da torre sem ser descoberto. O recurso a fontes externas, nomeadamente, fontes diplomáticas ocidentais, relatórios das companhias petrolíferas envolvidas na indústria de refinação, velhos mapas, anúncios e artigos de imprensa, em vez de fontes primárias, que neste caso seriam as mais adequadas para assegurar o êxito da missão, foi determinante para o fracasso na obtenção da melhor informação e, consequentemente, para que os objectivos traçados pelo Alto Comando Político, de Segurança e Militar Sul-Africano, que era provocar danos com efeitos a longo prazo, não fossem atingidos”, destacam as conclusões da Operação Kerslig.
Após a Operação, o comandante da missão, André Bestbier, em companhia dos chefes das equipas que participaram, coordenou a avaliação preliminar do que havia sido alcançado, tendo concluído que, embora a mesma tivesse causado danos às instalações de armazenamento, em especial ao GLP (Gás Liquefeito de Petróleo), os explosivos não foram colocados como tinha sido previsto e a maior parte do dano afectou principalmente os stocks e não as instalações de produção, o que, em certa medida, diminuiu o valor estratégico do ataque, pois os efeitos foram de curto prazo, porque, três meses depois, a Refinaria da  Petrangol estava novamente operacional.
Outro revés registado pelos sul-africanos foi a morte do capitão De Kock e os graves ferimentos de dois elementos das Forças Especiais durante a aventura. “Isto sentiu-se particularmente a 5 de Dezembro de 1981, quando os restantes membros regressaram à sua unidade em Durban, inconsoláveis e moralmente abatidos, pois, embora tivessem sofrido baixas no passado, pela primeira vez não conseguiram recuperar o corpo de um camarada que tombou em combate”, lê-se na obra “Iron Fist From The Sea: South Africa's Seaborne Raiders 1978-1988”, de Douw Steyn e Arné Soderlund.
Imediatamente após a realização da Operação Kerslig, a UNITA reivindicou a responsabilidade do ataque. Segundo o jornal “Star”, na sua edição do dia 30 de Novembro de 1981, o líder pró-ocidental da UNITA, Jonas Savimbi, afirmou que as suas tropas incendiaram a maior refinaria de petróleo de Angola nos arredores da capital, Luanda.
“We blew up the refinery, members of our clandestine cells have attacked the refinery of Petrangol, and the fires are still burning. (Nós rebentámos a refinaria. Membros das nossas células clandestinas atacaram a refinaria da Petrangol e as chamas ainda continuam)”, disse Savimbi, citado pelo “Star”
, confirmando as acusações frequentes de gente de boa-fé de que toda a estratégia da UNITA é baseada na mentira e é um perigo confiar na sua direcção.
“Na verdade, a tendência da UNITA de se apropriar dos louros das operações realizadas pelas forças sul-africanas constituía uma jogada de interesse comum, entre a África do Sul e a UNITA. Para a África do Sul, isso permitia-lhe continuar a afirmar que não tinha tropas desdobradas no território angolano, negando assim qualquer acusação de agressão. Para a UNITA, interessava defender esta posição por uma questão de jactância da sua imagem, sobretudo para tentar demonstrar que as suas forças possuíam a capacidade de realizar operações anfíbias, algo que para a UNITA de Jonas Savimbi não passou de uma encenação utópica e megalómana, pois sabemos do medo impregnado no seu ADN, relativo ao poder insondável de Kalunga, o mar, não tão acessível quanto os maiores rios de Angola. A razão fundamentada desta afirmação está no facto de que nunca a Marinha de guerra sul-africana utilizou forças da UNITA senão para combater as FAPLA no Cuando Cubango e a SWAPO no Cunene”, comentou-nos, a propósito, um prestigiado estudioso angolano ligado a assuntos de defesa.
Após o ataque, o Governo angolano não se fez rogado. O seu ministro dos Petróleos, tenente-coronel Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, imediatamente desmentiu a posição assumida pela UNITA, afirmando ter-se tratado, uma vez mais, de uma agressão do regime racista sul-africano. O Governo exibiu provas físicas e materiais, nomeadamente, o pé recuperado de um dos operacionais sul-africanos, fios de cabelo que indicavam ser de uma pessoa branca e loira, além de oito minas recuperadas, armas e um caderno, factos que atestavam efectivamente a presença de tropas sul-africanas naquela parte do solo angolano. De realçar que o caderno continha plantas da refinaria e anotações em inglês e em afrikaans.
Apesar dos factos apresentados pelo Governo de Angola, a UNITA ainda tentou forjar uma versão que justificasse que a operação tinha sido desencadeada pelos seus guerrilheiros. Mas a jogada mediática durou pouco. A apresentação, pelas autoridades angolanas, através da televisão, de um indivíduo sul-africano branco e loiro, foi um golpe demolidor, tanto para a UNITA como para os sul-africanos, responsáveis pelos prejuízos causados à economia angolana.
Ficou eliminada definitivamente toda e qualquer pretensão de que a Operação Kerslig havia sido realizada pelas tropas da UNITA.

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