Reportagem

Agentes da ordem pedem maior atenção aos mototaxistas da província de Luanda

Yara Simão |

Andar de mota é um perigo vivido em duas rodas. Os riscos incluem tanto o motorista como o “pendura”. Hoje as motorizadas não servem para  uso pessoal.

Mototaxistas estão mobilizados e prometem cumprir com as regras de trânsito
Fotografia: José Soares| Edições Novembro

Elas são um dos meios de transporte muito solicitados entre os moradores da capital para sair, rapidamente, de um ponto para outro desta movimentada cidade. O excesso de velocidade é a  principal causa de mortes actualmente.
Hoje, muitos são os jovens, em particular os que vêm das províncias, que tentam a sorte na “grande cidade”, com o serviço de mototaxistas.
Logo nas primeiras horas do dia eles começam o seu serviço. Em algumas zonas da capital, como o centro, as pessoas andam “seguras” (com capacetes), mas noutras os riscos são imensos, para os condutores e passageiros. A criação de medidas adequadas para prevenir eventuais situações de risco neste serviço tem sido uma das principais “batalhas” da Polícia Nacional.
Até oa segundo trimestre deste ano, a Unidade de Trânsito de Luanda registou 493 acidentes de viação, envolvendo viaturas, mototaxistas e ciclomotores, que resultaram em 187 mortos e 440 feridos. A situação, para os agentes, ou mesmo quem usa deste serviço, é alarmante.
Para a inversão do quadro, o trabalho de sensibilização, sobre os cuidados a ter e em que condições estes devem trabalhar, tem sido constante. O trabalho, às vezes  mal visto pelos próprios mototaxistas, inclui, além da apreensão das motas sem documentos, chamadas de  atenção para os riscos de andar pela cidade sem capacete ou colete reflector.
O dia-a-dia
Ganhar ou perder. Este é o lema da maioria dos mototaxistas. Alguns, devido a isso, vivem o jogo do “polícia e bandido”. Apesar de ser uma fonte de rendimento para muitos deles, o risco de andar sobre duas rodas prevalece.
Sem se importarem com o clima, faça sol ou chuva, eles vão até  onde podem a preços, que dependem muito da distância. A reportagem do Jornal de Angola começou em Benfica, numa das ruas do município de Belas, onde os mototaxistas usam  os seus serviços para transportar tanto pessoas como mercadorias. A maioria dos clientes são trabalhadoras domésticas, que saem do interior dos bairros de Benfica para chegarem à rua principal, para apanhar o autocarro ou um outro meio de transporte que as leve ao local de trabalho.
Quando vêm que a pessoa desconhece o local, alguns conduzem devagar para que esta possa indicar com precisão o destino. “Moto. Moto. Moto”, chamam pelas pessoas que querem os seus serviços. A dinâmica da rua é associada à das pessoas. Como um mercado livre, este serviço de transporte  tem sido a salvação de muitos.
Com percursos e horários determinados pelos clientes, os mototaxistas variam os seus itinerários, preços e até formas de pagamento de acordo com o passageiro. Trabalham das 5h00 até às 20h00. Alguns chegam mesmo a  conduzir de noite sem luzes e colete reflector. Outros, muito mais ousados, vão até às 23h00, com o risco de serem assaltados. “Tudo para que as pessoas cheguem aos seus destinos.”
Com vantagens como a rapidez, fora da Baixa de Luanda, eles atendem sobretudo as necessidades das pessoas de rendimentos baixos e  garantem acesso a lugares onde não podem chegar de autocarro, o transporte colectivo cujo preço é o mais barato de todos. Hoje o negócio de mototáxi já não é novidade. Nos últimos dias ganhou maior projecção porque as pessoas preferem evitar o stress do engarrafamento e outros constrangimentos como o estacionamento.
O rendimento, contam algum destes, varia muito, devido ao estado da mota, às operações da polícia e à própria dinâmica da zona onde trabalham. Porem, em média, diariamente pode atingir os 15.000 ou os 20.000 kwanzas. O preço inicial da corrida é 150 kwanzas e varia em função da distância.

Irregularidades
Os motociclistas que prestam serviços à população, nos vários pontos de Luanda, principalmente na periferia, têm idades compreendidas entre os 21 e os 35 anos e quase todos sem muitas habilitações académicas. A maioria aprendeu  a conduzir por curiosidade. Quando chegam à capital compram uma mota e começam o negócio.
Muitas são as falhas diárias dos mototaxistas da capital. Algumas, e também de acordo com os dados estatísticos da Unidade de Trânsito de Luanda, estão relacionadas com o excesso de velocidade e a falta de prudência na condução.
O não uso de protecções, como  capacete ou  colete reflector, são   causas principais de acidentes e mortes de mototaxistas e passageiros. Muitas destas questões, ignoradas pela maioria dos mototaxistas e dos passageiros, têm tido consequências mortais em casos de acidente. Geralmente, excepto na cidade, onde o uso de capacete é obrigatório, são muitos os mototaxistas que conduzem sem protecção para si ou para os passageiros.
A falta de documentação regularizada é  outro problema e geralmente a causa de  acidentes, pois por não estarem legalizados muitos fazem manobras perigosas ou exageram na velocidade quando são interpelados pela Polícia de trânsito ou da ordem pública. Na luta pela sobrevivência, o mototaxista prepara a sua fuga, geralmente, sem ter em conta o passageiro.
Outros erros frequentes, e muito  vistos a “olho nu”, são provocados pela aventura e arrogância destes, que, às vezes, preferem conduzir com as mãos fora do guiador, ou mesmo só com uma delas, porque está a atender o telefone,  subir o passeio ou conduzir em sentido proibido para chegar mais rápido.
Além disso também são visíveis erros como os de conduzir com os pés fora dos pedais ou ser rebocado por outro motociclo, não respeitar os sinais de trânsito, transportar excesso de pessoas ou mesmo crianças.

Reconhecimento

Apesar das críticas e dos riscos que correm, a maior parte dos mototaxistas está consciente dos perigos da sua condução. Um exemplo disso é Martins Mandje. Depois de três acidentes, o jovem, de 22 anos, promete ter mais cuidado. “Não tenho carta de condução. Aprendi a conduzir na via. Já causei acidentes, mas não foi de propósito, foi apenas distracção. Mas saí ferido, inclusive fui operado e fiquei muito tempo em casa. Agora voltei. O meu primeiro passo é tratar os documentos para trabalhar legalizado”, promete.
Embora tenha a sua mota legalizada, Glória Fonseca diz que a sua luta esta na obtenção de uma licença de mototáxi. “Já tive muitos problemas com a Polícia por isso”, admite, para acrescentar que este passo é fundamental por ser um serviço que ajuda muitos jovens.
Outros que não fazem uso da mota para serviço de táxi, como Avelino, usam este meio para o transporte pessoal de manhã e à tarde para conseguir algum dinheiro. Pessoas como David Sebastião, que trabalha por conta própria, depois de meses de poupanças para comprar a sua própria motorizada, defende um serviço de qualidade. “Um bom comportamento garante mais clientes no futuro”, diz.
Abel Domingos tem noção da importância da documentação e apesar de ainda não ter tudo promete esforçar-se para conseguir, pois já não consegue viver sem a motorizada, que garante o sustento da sua família.
O responsável dos mototaxistas do distrito de Cabulombo, município de Belas, Henda Cavuanda, disse que muitas das vezes o seu trabalho não é respeitado pela Polícia e, às vezes, por alguns passageiros. “Há quem respeita o que fazemos, mas outros nem por isso. Às vezes depende do humor de cada cliente. O pior é quando a Polícia interpela o mototaxista e leva a sua mota. Se não formos inteligentes para tirar o número do NIP acabamos por perder as motas.”

                                         O serviço prestado tem facilitado várias pessoas que pretendem resolver algumas urgências
Pelo facto de o serviço de mototáxi contribuir significativamente para os transtornos do trânsito e também para o aumento do número de acidentes, às vezes, o facto de a maioria dos condutores desconhecerem as normas de trânsito e não disporem de habilitações para tal exercício é  foco de palestras de sensibilização.
A última foi realizada com os mototaxistas de Belas, na qual o chefe de Prevenção Rodoviária da Unidade de Trânsito de Luanda, Manuel Paulo, chamou atenção destes e lhes pediu para terem o máximo cuidado porque as consequências de um acidente para um motociclista é, geralmente, fatal. “A precaução deve estar entre as prioridades.”
Como a mota é um veículo pequeno tende a deslocar-se mais rapidamente. “Quem tem experiência em andar de moto ou de carro sabe o que é o chamado ‘ângulo morto’, pois é a causa de muitos acidentes”, esclareceu.
Manuel Paulo adiantou ainda que quando se trata de uma moto os riscos são muito maiores. “Por isso é fundamental evitar determinados situações. É sempre preferível conduzir de forma segura, ter primeiro a certeza que o condutor nos viu e depois ultrapassar rápido e sempre em ‘linha de segurança’, isto é afastado de qualquer eventual perigo. O mototaxista, ou melhor todo o motoqueiro, deve estar preparado para os imprevistos”.

                                               Direcção municipal está a trabalhar com  regulamento existente para prevenir desaires
Os riscos de acidentes, alertou, devem ser sempre constante. “Uma mota não oferece padrões de segurança necessários para o transporte de passageiros. Por isso, actualmente a Direcção Municipal de Transportes, Tráfego e Mobilidade de Belas está a trabalhar com o regulamento existente, de forma a criar medidas mais seguras, capazes de garantir a segurança dos condutores, passageiros e utentes da via pública”, disse.
A condução defensiva, reforçou, é fundamental. “Ajuda muito a evitar acidentes”, destaca. Para Manuel Paulo é a melhor forma de evitar sustos. A ideia, acrescenta, aplica-se a condução de qualquer veículo e até mesmo ao andar a pé. “É como prevenir doenças em vez de as tratar”, esclarece.
“Temos a pretensão de redobrar os cuidados e a prevenção. Portanto se temos experiência, não devemos facilitar, porque o excesso de confiança é provavelmente mais perigoso do que a inexperiência”, realça, chamando atenção aos motoqueiros para não se deixarem levar pelo excesso da autoconfiança.
Apenas com a experiência, disse, se aprende a conhecer a reacção e comportamentos dos outros motociclistas, automobilistas, taxistas, autocarros, ciclistas e peões, bem como as suas capacidades de atenção, reacção, concentração e mesmo físicas, assim como as características do veículo.
“Essa experiência é adquirida na condução. Quem anda todos os dias na cidade provavelmente já assistiu a situações de paragens bruscas nas passadeiras e quem vem atrás, muitas vezes distraído, não consegue parar e bate. Para além dos danos materiais, numa mota os danos pessoais podem ser graves. Mas também pode haver danos nos peões, porque podem ser empurrados”, alertou.
Para melhor superar problemas do género no futuro, Manuel Paulo pediu a todos, motoristas e passageiros, a estarem sempre bem atentos aos perigos e eventuais situações de risco. “Como o perigo não é só do motoqueiro, o próprio passageiro tem o direito de o alertar para ter uma condução mais cuidada, pois a sua vida também está em risco”, aconselhou.
Durante a palestra, realizada com o apoio da BIC Seguros, foram ofertados capacetes e coletes reflectores a  50 jovens mototaxistas. O objectivo foi sensibilizar os mototaxistas para a importância de uma condução cuidada e a estarem devidamente documentados.

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