Reportagem

Agricultura familiar alcança resultados mínimos

Carlos Paulino | Menongue

A província do Cuando Cubango detém cerca de 40 por cento dos recursos hídricos do país e largos milhares de hectares de terras férteis, um binómio que, somado a factores climáticos, pode gerar grandes receitas para o Estado. Mas, até agora, só a agricultura de subsistência alcança resultados de destaque.

A crise económica que o país atravessa está a dificultar a aquisição de insumos no exterior especialmente sementes e adubos devido à escassez de divisas o que compromete a campanha agrícola e a qualidade dos produtos
Fotografia: Nicolau Vasco | Cuando Cubango

O sector da Agricultura no Cuando Cubango enfrenta um mar de dificuldades devido à letargia do sector privado, lamentou o chefe de departamento do Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), Raimundo Ngonga.
A agricultura familiar é a única que apresenta resultados mínimos. A situação repete-se este ano. Mais de 115 mil hectares estão preparados pelos camponeses para a campanha agrícola de 2016/2017. As autoridades prevêem colheitas superiores a 200 mil toneladas.
Raimundo Ngonga adiantou que o processo envolve 229 camponeses registados em toda a província, que aguardam pela distribuição de 1.500 estacas de mandioca, 20 toneladas de sementes de milho, 10 de massango e igual número de massambala, quatro de feijão manteiga, 50 charruas de tracção animal, 50 carroças e 75 toneladas de fertilizantes diversos, com a chegada à província prevista para os próximos dias.
O chefe de departamento provincial do IDA acrescentou que os meios fornecidos pelo ministério de tutela, no quadro do plano de distribuição de insumos agrícolas pelo país, são insuficientes para atender à demanda.
Na campanha agrícola passada, algumas regiões, sobretudo, no leste e sul da província, sofreram com a seca e o pouco que produziram serviu para se alimentarem, pelo que devem ser potenciados.
“É necessário que o Ministério da Agricultura mobilize mais instrumentos agrícolas, para incentivar os camponeses de modo a que possa aumentar as lavouras”, defendeu.
O responsável reconheceu que a crise económica dificulta a aquisição de insumos agrícolas no exterior, com realce para sementes e adubos, devido à escassez de divisas.
Embora equipamentos e sementes para a presente campanha continuem no Porto do Lobito, os camponeses foram orientados a começar as actividades agrícolas com as poucas reservas que possuem, para não comprometerem a campanha agrícola, uma vez que algumas regiões da província já tiveram sinais de chuva.
 
Mais terra preparada

Raimundo Ngonga recordou que, apesar da seca que assola algumas regiões da província há mais de três anos, o Cuando Cubango colheu, na campanha agrícola 2015/­2016,178.494 toneladas de pro­dutos diversos.
O maior destaque recai para a cultura de mandioca, com uma safra de 68.423 toneladas, e milho, com 38.110. Ambos os produtos conseguem resistir às altas temperaturas, sobretudo nos municípios fronteiriços.
Em comparação com a época 2014/2015, houve um aumento de 30 por cento de bens produzidos. Nas duas campanhas agrícolas, foram mobilizadas 41.723 famílias camponesas, que cultivaram 152 mil hectares.
Na época 2015/2016, foram distribuídas apenas 200 charruas de tracção animal, 25 toneladas de adubo e 20 de milho. Apesar disso, os camponeses superaram as 100 mil toneladas previstas. As chuvas tardias começaram a cair desde os finais de Dezembro do ano passado, até Abril deste.
“Os indicadores que nós temos é que houve produção em toda a província, o que nos faz sentir um pouco aliviados em face dos prejuízos passados, causados pela estiagem, sobretudo, na época agrícola 2014/2015, em que mais de 40 mil camponeses foram afectados por este fenómeno natural”, disse.
Raimundo Ngonga afirmou que só passa fome quem não cultivou, porque, apesar da estiagem que afectou o início da campanha agrícola, os camponeses foram aconselhados a lavrar nas zonas baixas ou próximas dos rios.
Na época agrícola 2014/2015, foram distribuídas 30 toneladas de massambala, igual número de massango e de feijão macunde, 25 de milho, 3.075 estacas de mandioca, 50 toneladas de adubo, 20 de sulfato de amónia e 17 de ureia, 500 charruas de tracção animal e 271 enxadas. Mas, devido à escassez de chuva em todos os municípios, os camponeses perderam mais de 50 por cento das culturas.
O responsável exortou, por isso, os agricultores a aumentarem as áreas de produção nas zonas baixas ou próximas dos rios, para garantirem a auto-suficiência alimentar e melhorarem as condições de vida das famílias.
 
Produção de arroz

A fazenda Agro-industrial do Longa, localizada no município do Cuito Cuanavale, preparou mil hectares para o cultivo de arroz, do qual prevê colher duas mil toneladas. A unidade duplica assim a área cultivada na época anterior.
Raimundo Ngonga disse que a preparação das terras decorre a bom ritmo, mas as sementes ainda não chegaram ao Cuando Cubango. Adivinha-se um cenário semelhante ao do ano passado, em que a produção teve de ser retardada devido à chegada tardia das mercadorias que, em geral, são recebidas a partir do Porto do Lobito.
O chefe de departamento provincial do IDA considera importante que a Gesterra, empresa de direito angolano que detém a gestão do empreendimento agrícola, trate da situação das sementes com mais antecedência e estude mecanismos para ampliar os campos de produção, para mais de mil hectares. O número de consumidores aumenta a cada colheita por causa da boa qualidade do arroz “Longa”, afirmou.
O Governo Provincial do Cuando Cubango está no mercado nacional e internacional à procura de investidores na produção de arroz, para fazer face à enorme procura do cereal. O Executivo pretende que a unidade faça jus ao investimento de mais de 75 milhões de dólares, aplicado no início do projecto.
Devido à boa qualidade e ao baixo custo, o arroz “Longa” tem grande procura nos principais mercados do país, com destaque para as províncias de Luanda, Huíla, Huambo e Benguela, incluindo as grandes produtoras de cerveja, que pagam produções inteiras, deixando, às vezes, a população do Cuando Cubango sem acesso ao produto.
Por ser um negócio rentável, “que pode contribuir de forma significativa para a arrecadação de receitas para os cofres do Estado”, o responsável defende o aumento das áreas de cultivo de arroz na província.

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