Reportagem

Agricultura familiar no combate à pobreza

Luísa Rogério |

A densidade do nevoeiro impede a visualização do metro a seguir. Os carros andam em marcha lenta. Indiferentes ao clima, várias mulheres atravessam a estrada em direcção ao perímetro de cultivo.

Projecto “Kukula Kumoxi” elevou a qualidade de vida de centenas de famílias em Malanje
Fotografia: Paulino Damião |

Algumas carregam bebés às costas. Caminham todas com passadas largas e firmes. A manhã cinzenta de cacimbo, que termina tarde na região, não as demove. Preferimos fazer a abordagem mais tarde, sob pretexto de cobrir outros eixos da reportagem. Por volta das 14 horas chegamos ao lugar combinado. Na aldeia Mbanza Ndongo, situada nos arredores de Cacuso, estão algumas mulheres envolvidas no projecto Kukula Kumoxi, termo em língua nacional kimbundo que, em português, significa “crescer juntos”.
Como guardião de segredos ancestrais e responsável pela comunidade, também se faz presente o soba grande de Pungo Andongo, Manuel João Lenda. Uma figura extremamente simpática e acolhedora. Espectador e partícipe de episódios menos bons da história recente de Angola que, entretanto, prefere deixar no passado, Manuel João Lenda aguarda pela equipa de reportagem do Jornal de Angola para dar o testemunho sobre o programa concebido para influenciar transformações positivas na vida das populações.
Bastante familiarizado com o projecto Kukula Kumoxi, também pelo facto de a esposa ser uma das beneficiárias, saúda os visitantes com o tipo de sorriso que faz qualquer estranho sentir-se em casa. Interage animadamente com João Bernardo dos Santos, da área social da Biocom. Junta-se à conversa Humberto Alves, director da área de Desenvolvimento Social da Sociedade de Desenvolvimento do Pólo Agro-Industrial de Kapanda (SODEPAC). O soba dá a “bênção” para a reportagem. A chegada do patrulheiro da Polícia Nacional chamada pelo soba grande para socorrer um homem, supostamente espancado pela mulher,interrompe a entrevista.
O episódio atípico de violência doméstica força a saída do soba, obrigado a acompanhar de perto a ocorrência, depois de frustradas todas as tentativas de resolver o diferendo entre o casal, fazendo jus aos poderes que lhe são atribuídos ao abrigo de práticas costumeiras. O assunto gerou algum burburinho, mas a jornada continuou no terreno. Ou seja, nos campos em que brotam hortícolas e leguminosas resultantes do programa Kukula Kumoxi, destinado ao fomento da agricultura familiar.
Vimos de manhã que os campos agrícolas estão do outro lado da estrada. Ao irmos para lá alguém sugere que uma senhora fique em casa a cuidar do bebé pequeno que leva ao colo. Ela foi precisamente a primeira a entrar no carro. “Eu não fico. Sou a líder agrícola do bairro Mbanza Ndongo. Tenho que dar as explicações”, afirma com voz firme. Teresa Simão, a mulher franzina de insuspeitos 38 anos, mãe de 9, postou-se à frente do grupo. Segue o trilho no estreito caminho do mato.
Teresa e as amigas atravessam os cerca de quatrocentos metros com notável rapidez. Estão habituadas a fazer o percurso com carga na cabeça e nos braços. Difícil mesmo é imaginar a extensa superfície com várias hortas cobertas pelo capim alto. Ali ao fundo corre um riacho. Durante o ano Teresa intercala o cultivo de batata-rena, milho e feijão com produtos que garantem vendas regulares. Antes, tinha de esperar dois anos pelos lucros provenientes da venda da mandioca. Natural da Quibala, Cuanza Sul, saiu de lá por causa da guerra. Nesta terra enterrou os pais e conheceu o marido, Domingos Avelino, igualmente produtor. Fala com empolgação do projecto que está a mudar a existência de múltiplas famílias. “Desde que entrei neste programa a minha vida melhorou muito. Consigo ajudar as despesas em casa e comprar roupa para mandar para o Cuanza Sul. Até tenho um trabalhador”, afirma. À semelhança de Teresa, a Maria, a Joana e demais mulheres e homens encontraram no “Crescer Juntos” ferramentas capazes de garantir o pão diário. Com ele renovam a esperança de melhorar a qualidade de vida sustentada por bases sólidas.

Crescimento integrado


O Pólo Agro-Industrial de Capanda estende-se por 411 mil hectares. Parte de Kizenga para Cangandala, mais concretamente, da linha férrea ao rio Kwanza. Foi designado na sequência de deliberação do Conselho de Ministros com o propósito de gerir os terrenos afectos a área. Para o gerir foi criada em 2008 a Sociedade de Desenvolvimento do Pólo Agro-Industrial de Capanda (SODEPAC), organismo integrado por seis direcções. Tem a sede em Luanda e escritórios em Malanje, Cacuso e Capanda, onde está instalado Humberto Alves, director para a esfera de Desenvolvimento Social, que tem como público-alvo as comunidades inseridas no Pólo de Capanda, que engloba Cacuso, Malanje e Cangandala.
A área congrega vários projectos concebidos com o objectivo de dinamizar as comunidades rumo à sustentabilidade. O Kukula Kumoxi materializa um projecto de desenvolvimento social integrado da SODEPAC. Por ser desenvolvido na região que alberga a Biocom, maior empreendimento privado em Angola à margem do sector petrolífero, a empresa apoia algumas acções ao abrigo da sua vertente de responsabilidade social. O director realça a formação de parteiras e a alfabetização dos trabalhadores rurais. “A Biocom é nossa parceira para os programas sociais. Também nos apoia com transporte quando precisamos de levar os produtores para a realização de actividades”, esclareceu Humberto Alves, a propósito da relação entre as duas instituições.
Mais de 800 agricultores beneficiam directamente do Kukula Kumoxi que impulsionou a saída de 3.500 famílias da linha da pobreza em 29 comunas de Cacuso. A implementação do programa arrancou no ano de 2010, em 11 comunas. Dois anos depois, expandiu-se para as 18 áreas que perfazem a cobertura actual. De acordo com o sistema de gestão online, estão cadastrados um total de 815 produtores e respectivas famílias.
A geração de rendimento é almejada através do fomento da agricultura familiar. A SODEPAC entrega sementes aos agricultores, providencia assistência técnica e garante o escoamento e comercialização dos produtos. “Criámos uma carteira de clientes fixos de que fazem parte as empresas Leonor Carrilho, encarregue de servir os refeitórios e alojamento da Biocom, GAMEK, Laúca e a barragem de Cambambe”, assegura o interlocutor. Acrescenta que a produção é feita em função da procura, em obediência a um plano organizado no sentido de evitar falhas. Semanalmente, ocorrem três entregas, em dias fixos para diferentes clientes. Com essa articulação anula-se o risco de o produtor deixar de vender.
Como o grande salto qualitativo do programa, a comercialização avança,a par da variação da dieta alimentar das populações. O aumento do poder aquisitivo, fruto do dinheiro ganho com a venda directa, merece igualmente realce. Antes os agricultores tinham que esperar dois anos para usufruir dos lucros da venda da mandioca. Com a hortaliça, o período entre o cultivo e venda diminuiu para três meses. O rendimento passou a ser contínuo. Criar entrepostos para a comercialização, um dos maiores handicaps da região, corporiza um desafio a ultrapassar no futuro próximo.
O responsável reitera a sustentabilidade do programa. A constituição da cooperativa vai proporcionar aos membros assistência técnica, aquisição directa de sementes e meios de trabalho como enxadas, caixas e sacos. “O produtor ganhou consciência de que deve comparticipar na compra desses insumos, adquiridos com o dinheiro deles. A SODEPAC ajuda a suprimir lacunas, pois ainda somos nós a fazer a manutenção e pagamento de salários”. Agora deverá ser a cooperativa a remunerar os colaboradores pagos pelo programa. Nesta fase, resta ainda aprimorar detalhes de ordem técnica para viabilizar a publicação documento no Diário da República.
Sociólogo de formação, Humberto Alves aborda com propriedade questões ligadas à agricultura. Abranda a fala para explicar pormenores técnicos. A experiência acumulada confere-lhe conhecimentos para tanto. Mas o curso médio de agronomia tirado no Lubango faz toda a diferença. Realça valências de valor inestimável ao seu desempenho. Ex-quadro da Mosaiko, juntou-se à equipa com o propósito de resgatar associações locais que dariam suporte à concretização da ideia da cooperativa. Integrada por agricultores de 29 bairros, a cooperativa possui já personalidade jurídica. Fixou a sede no município de Cacuso, ponto de convergência entre as três frentes decisivas para o desenvolvimento agro-industrial de Capanda.
Os órgãos sociais foram escolhidos pelos 181 membros. O número tende a crescer. Existem, porém, exigências para entrar na cooperativa. Basta residir nas comunidades, contribuir com o capital social de 2 mil kwanzas e respeitar os requisitos. Cumprida a função de facilitadora no processo estruturante, a Sociedade espera que a cooperativa funcione nos moldes do Kukula Kumoxi. “Vamos, na fase de arranque, ajudar a gerir a produção e dar assistência técnica. É preciso identificar terreno em locais próximos das correntes de água. O nosso técnico vai orientar como construir viveiros, sobre a temporalidade relativa à maturação do produto face à saída do viveiro para o canteiro, consistência da rega e demais aspectos, porque o rio intermitente cresce no tempo chuvoso”.

Transformar realidades

O poder transformador do Kukula Kumoxi salta à vista sobretudo para as mulheres. Muitas delas são chefes de família. Rebeca, de 49 anos, cujo marido doente e portador de deficiência locomotora não trabalha, é considerada exemplo de sucesso. Camponesa desde sempre, vivia rodeada de incertezas. Quando se juntou às colegas, a realidade mudou. Ela garante o sustento dos filhos, devendo ajudar a cuidar dos netos órfãos da filha mais velha falecida há pouco tempo. Investe em benfeitorias na casa, situada perto da fábrica da Biocom. Viver privada de energia eléctrica é algo que não lhe ocorre. 
“Posso afirmar que o Kukula uniu várias famílias. Quando chegámos, algumas senhoras diziam que os maridos tinham desaparecido. Muitos deles regressaram, porque a senhora ganha o próprio dinheiro. Deixou de ser dependente”.
Por conquistas semelhantes o projecto terá valido os investimentos em termos monetários e de tempo. Rebeca fala com apreço de filhos residentes em Luanda que recebem mensalmente dinheiro enviado pelas engajadas mães. O programa está a mudar a mentalidade das pessoas, cada vez mais conscientes de que o bem-estar provem do trabalho. “Anteriormente havia passividade. Alguém me disse: ‘você está a me mandar trabalhar na horta, mas vou esperar as eleições para me darem o meu litro de óleo’. Convencemos essas pessoas de que estavam erradas.”
“Não exigimos que as pessoas integrassem áreas grandes. Pedimos que abrissem canteiros com base em 10 metros de largura por 10 de comprimento. É pouquíssimo, são apenas cem metros quadrados que podem ser abertos numa manhã”, esmiúça Humberto Alves. Levanta-se para demonstrar. Conta dez passos de comprimento e dez de largura. Num bocadinho de terra com medidas equivalentes, muita gente ganhou dez mil kwanzas por mês. Por sua vez, incentivaram membros das comunidades a abraçar o projecto. A informação foi passando. Atraiu interessados. E assim cresceu Kukula Kumoxi. “Os interessados só precisam de criar as hortas, cultivar e regar. Ninguém precisa de andar quilómetros para vender. O carro vai ao encontro delas para comprar os produtos”.
O produtor usa a balança para confirmar a pesagem da produção. Por conhecer a tabela de preços pode projectar estimativas de rendimentos mensais e assim programar a vida. Mensalmente realizam-se reuniões com líderes agrícolas, a quem é ministrada formação. A partilha de informações pertinentes expressa um importante momento da agenda diária da equipa da SODEPAC integrada por oito membros.

Tablet acompanha Domingos

Silencioso desde que chegámos às hortas, o homem chama a atenção pelo porte físico. Ainda não proferiu uma única palavra. Aparentemente alheio, olha com frequência para o visor do companheiro inseparável. Humberto Alves percebe o nosso interesse. “Esse passa mais de oito horas na Internet”, diz a sorrir. O conectado chama-se Domingos Avelino. Lembram-se dele? É o marido da dinâmica Teresa Simão. Foi o primeiro a integrar o Kukula Kumoxi. Entrou na condição de produtor. Hoje evoluiu para supervisor. Ao longo dos seis anos de vigência do programa apurou conhecimentos e ascendeu à categoria de colaborador. Actualmente ensina outros integrantes do Kukula Kumoxi, a quem dá assistência técnica e passa experiências. Além dos próprios rendimentos, recebe um subsídio da entidade gestora do programa.
Domingos Avelino, de 46 anos de idade, confirma o apego ao tablet. Leva-o a todo o lado. Só se separa dele na hora de trabalhar a terra ou desenvolver tarefas que requeiram o uso das mãos. Navega nas redes sociais, mas recorre à Internet, principalmente, para “amadurecer os conhecimentos” adquiridos durante a formação básica concluída no centro de formação de Cacuso. Pesquisa sites de agronomia e outros em busca de pistas com vista a aprimorar as técnicas de produção. Natural de Pungo Andongo, o agricultor reside com a família em Mbanza Ndongo. Reforça as palavras da mulher. A vida deles melhorou substancialmente. No início montava cinco canteiros por dia. O primeiro lucro foi de 33 mil kwanzas, obtidos ao fim de um mês de trabalho. “Agora vendemos os produtos semanalmente. Quanto mais trabalhamos, mais ganhamos. Já conseguimosempregar trabalhadores. Chego a ganhar 300 mil kwanzas por mês.”
A horta de Domingos Avelino mede 150 metros de largura por 300 de comprimento. Nesse espaço pode colocar cem canteiros. Para o cultivar, conta com três empregados, embora neste momento esteja a trabalhar apenas com a mulher. Os custos operacionais subiram de forma acentuada devido à crise económica que assola o país. Enquanto Domingos falava, as produtoras foram ver as respectivas hortas. Reparamos então nas flores do campo. Ao lado de alguns canteiros desabrocham belas margaridas e aquelas similares com pétalas vermelhas. O girassol brilha adiante, em contraste com o dia cinzento. Com a anuência da dona, o Cinquenta, nosso repórter fotográfico, tira um tomate. Leva-o à boca sem lavar. “Por isso não usam agro-tóxicos. Aqui vêm crianças. Comem cenoura e tomate”– o esclarecimento vem de Humberto Alves.
Evitar agro-tóxicos obedeceu ao princípio de preservação da saúde das pessoas, além de proteger o solo. Se ficar saturado as plantas deixam de crescer. Apesar de alguns agricultores em pequena escala utilizarem agro-tóxicos, “nós sensibilizamos os integrantes do programa a evitá-los devido às razões especificadas. Controlar a temporalidade do agro-tóxico requer conhecimento específico. Nem sempre os produtos são colhidos na fase de maturação”, explica Humberto Alves. Ainda assim, observa que produção não é orgânica, “porque as populações fazem queimadas. Quando tal acontece deixa de ser absolutamente orgânico. O capim deve secar naturalmente. Como eles não querem esperar, fazem queimadas de forma a acelerar o processo de decomposição do capim e preparar o terreno para novos plantios”, acrescenta.
A compostagem, constituída por lixo bio-degradável envolve capim, folhas verdes, cascas de mandioca, esterco de cabrito e outras matérias orgânicas, tem sido a alternativa aos agro-tóxicos. A compostagem compõe, de resto, uma das cinco boas práticas indispensáveis para lograr colheitas satisfatórias ensinada pela equipa liderada por Humberto Alves. A abertura de poços de água, cultivo em faixas, cobertura morta, protecção contra o sol e a rega completam o leque. Por essa razão aconselham a abertura estratégica de hortas perto dos rios. Esse facto, combinado com ocultivo em linha, facilita a irrigação.
No perímetro de abrangência do Kukula Kumoxi encontram-se 14 variedades de hortaliça, entre as quais repolho, couve, cenoura, cebola, alface, salsa, beterraba e rúcula. Esta última, por exemplo, não fazia parte dos hábitos alimentares dos angolanos. “Veio do Brasil, de onde importámos as sementes. Como a maior parte das empresas clientes empregam cidadãos daquele país que são consumidores de rúcula, introduzimos este produto hortícola. Hoje é mais consumido do que a alface, inclusive entre os angolanos”, acrescenta Humberto Alves, ressalvando que continuam a amanhar produtos tradicionais,“assim denominados porque já os encontrámos aqui, caso da mandioca, da batata-doce e da couve chinesa”.


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