Reportagem

Agricultura urbana está em expansão

Osvaldo Gonçalves |

A agricultura urbana tem crescido nos últimos tempos em todo o Mundo, em contradição com a educação formal adquirida pela maioria, segundo a qual a actividade agrícola pertence apenas ao meio rural.

Existem muitas vantagens no cultivo de alimentos em cidades entre elas a proximidade dos mercados e o baixo custo do transporte
Fotografia: Francisco Bernardo | Edições Novembro

Organizações internacionais, como o Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estimam que as hortas urbanas sejam responsáveis por entre 15% e 20% de todos os alimentos produzidos no mundo e reúnam em torno de 800 milhões de agricultores.
Cuba é um exemplo da importância da agricultura urbana. Com a queda da antiga União Soviética e o agravamento da crise ecnonómica devido às sanções norte-americanas, os cubanos começaram a cultivar ao máximo os terrenos baldios no centro e periferia das cidades. E os resultados foram importantes para o equilíbrio da dieta alimentar dos habitanes da Ilha caimaneira.
Ao cultivo de alimentos em cidades são apontadas vantagens em ­relação à agricultura rural como a proximidade dos mercados, o baixo custo do transporte e a redução de perdas pós-colheita, graças ao menor tempo entre as colheitas e a comercialização.
A jornalista e ambientalista brasileira Claudia Visonirefere que os ensinamentos obtidos na escola estão errados. Para ela, “a agricultura é irmã gémea da urbanidade, as duas nasceram no mesmo dia” e ­recorda que foi no dia que o homem “resolveu criar a primeira aldeia foi também o dia em que ele fez a primeira semeadura”. Para atambém agricultora urbana,“não existe cidade sem agricultura, nem agricultura sem cidade”.
Especialistas estimam ainda que cerca de 80% da população mundial viva nas cidades até 2030, pelo que a ideia de produzir e consumir localmente move as autoridades de vários municípios e cidades em todo o Mundo. Os defensores da agricultura urbana defendem que a ideia não é insurgir-se contra os produtos tradicionais, mas consciencializar os moradores das cidades sobre os ­benefícios de uma alimentação orgânica, e não baseada apenas em produtos industrializados.

Melhorias na dieta


Não é de admirar que a prática da agricultura urbana chame a atenção e seja incentivada por organismos internacionais. A FAO enquadra esta actividade na estratégia de aumento da resiliência das cidades e adaptação às mudanças climáticas.
A agricultura urbana encontra adeptos entre as famílias que antes se dedicavam à agricultura ou moravam em áreas rurais que acabaram urbanizadas. Angola está cheia desses casos. O êxodo rural é gritante e a expansão das cidades e áreas urbanizadas decorre em ritmo acelerado, seja pela construção de novas centralidades pelo governo, seja pelo crescimento dos ­bairros através da autoconstrução. Organizações internacionais calculam que, até 2020, entre 35 e 40 milhões de africanos que vivem nas cidades “dependerão da agricultura urbana para suprir suas necessidades alimentares”. Na prática, isso pode representar até 40% da ingestão diária recomendada de calorias e 30% das necessidades de proteínas.
Um estudo realizado em 24 cidades da África e da Ásia, no final dos anos de 1990, revelou que famílias pobres que praticavam a agricultura urbana faziam mais refeições e tinham uma dieta mais balanceada do que as outras pessoas.
Mas há outros benefícios. Ao cultivo de alimentos em cidades são apontadas como vantagens em relação à agricultura rural a proximidade dos mercados, o baixo custo do transporte e a redução de perdas pós-colheita, graças ao menor tempo ­entre as colheitas e a comercialização. “As cidades estão tornar-se centros de intervenções de desenvolvimento e estratégias de planejamento destinadas a combater a fome, a pobreza e a desigualdade para promover a sustentabilidade”, refere um estudo do WorldwatchInstitute (WWI). “A agricultura urbana na África subsahariana é uma parte importantíssima desse movimento, pois oferece maneiras de atender às necessidades prementes da região, como segurança alimentar, geração de rendimentos, fortalecimento de comunidades, descarte de resíduos e a condição das mulheres”, afirma a organização no estudo “Estado do Mundo – Inovações que Nutrem o Planeta”.
Aquele organização não-governamentalestima que dentre as 800 milhões de pessoas no mundo se dedicam à agricultura urbana, 200 milhões produzem alimentos para vender nos mercados e empregam até 150 milhões de pessoas.

Iniciativas sustentáveis

Em Angola, crescem as iniciativas com vista ao desenvolvimento da agricultura urbana e natural.Na Funda, município de Cacuaco, província de Luanda, o Centro de Formação Profissional Mokiti Okada (CFPMO) tem como foco a agricultura natural, sem recurso a agro-tóxicos e está engajado na formação de agricultores, produtores e técnicos para a criação de hortas caseiras.
Com uma área de 484 metros quadrados, cinco dos quais trabalhados, o centro já formou mais de 130 especialistas em agricultura natural, na maioria angolanos, e implantou 41.923 hortas caseiras nas 18 províncias do país..
O primeiro objectivo é corresponder aos desafios da diversificação da economia a que o país aspira, sendo a formação do elemento humano a aposta imediata para mitigar os efeitos negativos e reforçar os actuais métodos de produção com novos elementos que contribuam para a saída da crise económica e financeira em que o país se encontra, disse o director, Marques Bambi.
Um projecto de horticultura familiar urbana está ser desenvolvido na cidade de Ondjiva, no Cunene,que permite o cultivo de produtos essenciais à nutrição familiar a baixo custo em residências.Porfírio Samaneulo, coordenador da acção, referiu que a produção agrícola urbana em residências, além de produtos frescos e de qualidade, permite combater a fome e a pobreza nas zonas urbanas, através das técnicas inovadoras. Em curso desde os finais de Novembro de 2014, oprojectoé uma parceria entre a direcção da Agricultura,  a Escola Superior do Cunene e a administração municipal do Cuanhama, consiste na produção de hortícolas na cidade e arredores, visando incentivar as famílias a prática do cultivo agrícola.
O projecto abrange, numa primeira fase, 50 famílias que cultivam tomate, couves, cebola, repolho, alface e cenoura, tendo por objectivo o aproveitamento de espaços em zonas residenciais, incentivando o hábito e a prática de cultivo de produtos necessários à alimentação saudável. São ainda conhecidos pequenos empreendimentos de grande sucesso ao longo de perímetros e canais de irrigação e transporte de água. As iniciativas revelam-se sustentáveis e com futuro promissor.

Combate ao stress

As iniciativas em curso são de louvar, quando se sabe que a taxa de urbanização de Angola está acima da média no continente africano, estimando-se em 62,3 porcento em 2015, segundo o African Economic Outlook.
Num relatóriosobre as“Cidades sustentáveis e transformação estrutural”, o organismo prevê que dois terços dos africanos vivam em zonas urbanas até 2050, uma vez que o processo de urbanização tem registado grande aceleração.
O continente africano está a ser urbanizado a um ritmo histórico, com uma expansão demográfica sem precedentes. Desde 1995, a população residente em cidades duplicou, atingindo 472 milhões de pessoas em 2015. Sobre Angola, o relatório considera que o país deve alargar as oportunidades de desenvolvimento humano que oferece aos cidadãos, olhando para as metas estabelecidas pelo Executivo em documentos estruturantes, como o Plano Nacional de Habitação, no contexto do qual emergiram novas centralidades em todo o país.
O termo “cintura verde” é repetido, amiúde, pelas autoridades, sobretudo das cidades grandes. A província de Luanda, que se prevê venha a ter 13 milhões de habitantes até 2030,tem nesse contexto regiões privilegiadas, como Quiçama, Icolo e Bengo, Belas, Viana e Cacuaco.  Só Viana tem servados cerca de 150 hectares de terra paraa agricultura. Além das grandes explorações, em que se podem mencionar os 25 criadores de gado bovino, que detêm cerca de seis mil cabeças, os novos aglomerados habitacionais com casas evolutivas permitem aos moradores determinar espaços para jardins e hortas.
A prática da agricultura urbana requere algumas condições, como a aquisição de conhecimentos sobre a lida com a terra e as plantas, e a criação de animais de pequeno porte e aves obedece a normas e preceitos que devem ser observados, sob pena de os animais contrírem doenças que os levam à morte ou ao contágio de seres humanos. É por isso importante garantiro acesso a sementes, fetilizantes, assim como aos fitofármacos necessários para prevenir e combater os males das plantas e medicamentos de veterinária, além de constantes campanhas de vigilância aos bichos. 
Quem mantém um horta em casa, por menor que seja, garante ter ganhos inestimáveis: o tempo reservado para cuidar desses espaços reflecte-se em melhoria na qualidade de vida e no relacionamento com os familiares, amigos e colegas. O stress causado pelo trabalho, as dificuldades no trânsito e os problemas do dia-a-dia são reduzidos a níveis mínimos e aumenta a auto-estima.

Tempo

Multimédia