Reportagem

Água Santa agora é “santuário” de lixo

Fernando Neto | Mbanza Kongo

“Santa”, a fonte de água localizada no bairro Cazanga, arredores da cidade de Mbanza Kongo, era um recanto pitoresco, rodeado por uma paisagem de encantar qualquer um. A fonte continua a ser uma das alternativas da população na busca pelo líquido precioso. Mas está quase inacessível e “dominada” pelo lixo

Fotografia: Edições Novembro

A situação contrasta com a beleza paisagística do local. Considerado “sagrado” devido à pureza da sua água, a Santa engloba o conjunto de 12 fontes monumentais de Mbanza Kongo. O estado de abandono a que aludimos acima tem a havercom as condições higiénicas precárias, resultantes do acúmulo de lixo.É um verdadeiro atentado à saúde pública.
Outro problema é o estado lastimável da via de acesso ao local. A situação já se arrasta há vários anos e é de tal modo grave que o acesso de viaturas é impossível. Uma intervenção de realce aconteceu em 2009,quando o Governo provincial realizou trabalhos de terraplanagem.De lá para cá o que era uma rua tornou-se um caminho “serpenteado” coberto de capim.O caminho sofreu várias erosõescausadas pelas águas pluviais, tornando-se perigoso ir ao local no tempo chuvoso.
Isso, naturalmente,dificulta a vida dos habitantes que têm na fonte a “tábua de salvação” para a aquisição de água potável. Daí que apesar do acesso precário as pessoas vão à fonte com os seus baldes à cabeça.No tempo chuvoso já chegou a haver mortes e ferimentos e a população tem feito apelos às autoridades da província paradar solução ao problema.
No período colonial, na década de 1960, foi construído no local uma central de captação que assegurava o bombeamento de água à cidade. Mas o município de Mbanza Kongo registou um crescimento demográfico acentuado, que inviabilizou a continuidade do projecto.
O local está subaproveitado. Do antigo conjunto de equipamentos de captação da água restam apenas uns quantos fragmentos metálicos e escombros da estrutura. A administração municipal construiu, na fonte, uma cabine de lavagem de roupa, para facilitar a vida às senhoras que vão ao local desenvolver tal tarefa.
O regedor do Bairro Cazanga, António Matumona Vanza, está esperançoso que a Administração Municipal vá colocar “um dia destes” contentores para facilitar o depósito e a recolha do lixo. “Levámos também ao comando municipal da Polícia Nacional a preocupação sobre a segurança das populações que diariamente acorrem à fonte da Santa, devido aos jovens que fazem uso de liamba no local, ameaçando as senhoras”, disse.
Segundo o regedor do Bairro Cazanga,a população adquire também a águanoutras fontes de menor dimensão, como são os casos do Massangalavua e Ntuassafu. Mas a fonte Santa, devido ao seu caudal, é mesmo a mais concorrida. “Neste momento temos muitas dificuldades, porquanto a população dos bairros Cazanga, Álvaro Buta e parte do Martins Kidito dependem da água da Santa, situação que embaraça a higiene do local”, explicou o regedor António Matumona, visivelmente agastado com o problema.
António Matumona Vanza tem perfeita consciência da importância vital da água. Ele defende os maiores cuidados para evitar a contaminação da água por micróbios que podem perigar a saúde dos habitantes. O ancião recorda, com muita tristeza, que no passado, ao contrário de hoje, era mais fácil moralizar a sociedade para a realização de campanhas de limpeza e manutenção da higiene dos locais de interesse comum.
“Recebemos promessas das autoridades administrativas a dizer que a fonte da Santa, assim como a via de acesso, seriam reabilitadas. Até agora tudo está em projecto, sob a alegação da falta de verbas”, disse o regedor da Cazanga, localidade que conta actualmente com uma população estimada em 15.616 habitantes.

Esperança renovada

Decorre actualmente na cidade de Mbanza Kongo aconstrução da nova central de captação e tratamento de água. As obras remontam a Abril de 2017. A população está expectante, já que o término da empreitada está previsto para Abril do ano corrente.
“A esperança da população de Mbanza Kongo está renovada em termos de abastecimento de água potável, ajulgar pela construção da nova central de captação de água”, disse o regedor António Matumona Vanza.
O projecto da nova central inclui um reservatório elevado com capacidade para 1000 metros cúbicos e outro de 2000 metros cúbicos. As obras a cargo de duas empresas chinesas, nomeadamente a CTCE e a BITEC.
A rede de distribuição da água já está terminada e neste momento decorre a empreitada da montagem de torneiras domiciliares e respectivos contadores. O projecto prevê quatro mil ligações domiciliárias, além de 129 chafarizes.
A Administração Municipal de Mbanza Kongo confirmou à nossa reportagem que tem financiamento para requalificar, com data de início das obras não revelada, as fontes de água da Santa, Tembende, Massangalavua, Ntetembua, Madungu, Kilaza e Bulungu. O financiamento e as obras, segundo a nossa fonte, estão inseridos no projecto que levou a cidade à categoria de Património Cultural da Humanidade.
O responsável do sector de Águas e Energia da Administração Municipal de Mbanza Kongo, Pedro Tomás Divaíka,pede calma à população,tendo em conta que os preparativos da empreitada já decorrem.
“Temos o levantamento de todos os recursos hídricos da nossa região, desde furos de água, fontes naturais e cacimbas.A requalificação vai permitir um melhor aproveitamento destes recursos” elucidou.

 

 

 

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